Mostrando postagens com marcador Psicanálise Freudiana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Psicanálise Freudiana. Mostrar todas as postagens

26.9.18

MAIS, AINDA AMOR


A vida é uma montanha de escombros. A arte de viver é justamente reconhecer o pior que existe em cada sujeito, para que seja possível desenvolver a capacidade de suportar ultrapassar a leveza do que tange a [des]ordem do amor.

O antagônico do amor é o ódio que se nega pelo outro, sendo ambos constituído por uma dupla face de um mesmo corpo que sustenta a atemporalidade ilógica da gravidade da vida, a força fraca e a força forte que endereça o sujeito em direção à experiência com o mundo externo, atravessado pela falta do outro.

A dança das cadeiras no que implica o relacionamento, é uma maneira pueril de negar a possibilidade de cair de joelhos pela incapacidade de suportar o que o amor oferece, a impossibilidade de caber na falta [demanda] do outro.

Amar não é simples, mas é uma belezura insuportável de sentir. O amor não causa desgaste, dor ou sofrimento. O que convoca o amor a sair de cena é o narcisismo desmedido, mas sem certa dose de narcisismo é impossível que o amor se sustente e atravesse a dupla amorosa. O amor nasce na capacidade de sustentar a frágil linha da singularidade.

Em última pontuação, completo a reflexão com uma implicação da psicanalista Ana Suy, “Amor é aquela coisa que, por vezes, quando sobra, é porque está faltando”.

Abraço,
Maicon Vijarva

14.7.18

DUVIDAR DO ÓBVIO




Tornar-se analista está muito mais ligado a ordem da própria experiência no lugar de analisante. Lugar esse tão importante para o sujeito desejante por sustentar esse lugar independente da adversidade que pode e irá ocorrer.

A experiência da análise e da dupla analítica pode possibilitar ao sujeito analisante ser tocado pelo horror e beleza que constitui o ser humano, e a partir desse tocar se interessar em assumir um lugar outro tão mais angustiante do que estar no lugar de analisante.

Ser analista não é uma posição que pode ser alcançada por qualquer um, ela demanda uma autorização do próprio sujeito diante da sua própria análise e cuidado de si mesmo. Por isso que o analista precisa duvidar do óbvio que está no discurso do analisante, e essa escuta apurada e cuidadosa só pode ser alcançada pela experiência analítica na posição de analisante.

Portanto para aprender o sentido do não sentido da psicanálise, faz-se necessário ingressar no angustiante processo da experiência analítica.

18.3.18

DOS FRACASSOS NO LAÇO COM O OUTRO NASCE A ALTERIDADE DO DESEJO


In transition. LOVEJOY, Emily 


A forma como lidamos com o fracasso pode nos levar ou não a novos lugares. Há um saber no fracasso que só o sentindo é possível fazer-saber para sabermos fazer com esse saber que poderá se instaurar. O inconsciente está às voltas do que não funciona em nós, e o fracasso é seu lugar próprio para dar pistas [através do não dito] sobre aquilo que enrosca, emperra e paralisa em nosso percurso.


O sujeito neurótico fica incapaz de sentir o ardor do fazer-saber sobre seu fracasso, por estar alienado à demanda do outro. Ao partir desse lugar, o neurótico não consegue filtrar as demandas e dizer não a algumas delas ao outro. 

O fracasso é visto com maus olhos e expurgado às pressas do sentir do sujeito. O impasse se instaura, uma porque o fracasso trata-se de um saber que constitui o sujeito; uma das línguas do inconsciente e do desejo, e outra porque é através dos fracassos no laço com o outro nasce a alteridade do desejo. 

Esse saber inconsciente, alteridade do grande outro que nos habita, que aos trancos e barrancos da análise tentamos escrever nossa biografia, que tentamos fazer as pazes para o transformar de inimiga a aliado. São essas tentativas desesperadas e repetidas que o sujeito aprende mais sobre os seus sintomas.

O fracasso não é o ponto final na biografia que o sujeito escreve, mas a vírgula que insiste e persiste em convocar algo da ordem do que o constitui. Por isso a importância de fazer-saber sobre o inconsciente, para saber-fazer com que vem depois, a castração: a falta. 

Refletir sobre o que nos faz fracassar é andar em corda-bamba, é abrir mão do saber estabelecido para atualizar todos os valores e ideias que até a minutos atrás sustentavam todo nosso corpo falante.  

É preciso e urgente que aprendamos mais sobre nossa alteridade, ela nos convoca a questionar a demanda do outro, a criar saberes para fazer-saber algo que se tenta dar sentido, e que implicado a esse movimento de busca todo esse sentido perde sentido e abre portas para algo muito que se aproxima de nós mesmos e do laço com o outro. 

O sujeito que aprender a fazer-saber sobre seu fracasso e atravessado por ele, aprende saber-fazer com isso, consequentemente se torna bem-sucedido.

13.3.18

O TRABALHO DO PERCURSO EM ANÁLISE


 

Em análise, o desejo está em frenética conexão com o que não funciona, paralisa e insiste em comparecer no real pelo avesso. Em sua espiral sonoro da experiência, a psicanálise revela tudo que a sociedade incuba na exposição do humano que valoriza como ideal: puro, divino e perfeito.

O caminho da psicanálise implica o sujeito a responsabilização por seu estilo no mundo, atravessado pelo não-todo-saber que se inaugura no sintoma. Não à toa que a psicanálise não é para todos, por implicar o sujeito a arriscar tudo em sua subjetividade, alterando rotas e pensando com ética as prioridades da sua vida.

Para construir o percurso na análise é necessário abrir mão do lugar de ser desejado, da bengala da demanda do outro. Recusar a posição narcísica para assumir o seu inverso, que convoca o eu ao comprometimento, ousadia e coragem à responsabilização por sua existência no mundo. Esse movimento leva o sujeito a produzir conteúdo em análise, para criar um saber sobre o que estrutura o seu sintoma.

Além disso, todo esse avesso que se apresenta instaura um novo sujeito com autonomia ao que lhe causa, inspira e fracassa. O trabalho em análise conduz à incompletude do horizonte, na ousadia e coragem em apostar todas as fichas em si mesmo, sem recursar em pagar o preço necessário para sustentar suas escolhas e decisões em constante maturação frente às novas possibilidades em que o seu desejo aponta.

Aprender a transformar as oscilações do sintoma que emperra o analisante a caminhar em seu percurso, exige questionamentos sobre o lado obscuro que também interfere nas escolhas e decisões do analisante. A vida em análise é estar diante da vírgula que o impossível implica, que não cessa de se escrever. 

O discurso emitido pelo sintoma do sujeito, evoca algo da ordem do mistério que o implica a ultrapassar os semblantes que moldam o lugar que insiste a convocá-lo ao gozo da repetição. Mas não é só isso, há muito mais a que se aprender com o que a psicanálise se propõe em sua transmissão no quotidiano, que se enlaça e entrelaça nos vínculos do sujeito do inconsciente.

10.3.18

NADA É MAIS COMO ANTES


O psicanalista trabalha com o que é mais íntimo do ser humano: a fala. Quando o sujeito fala livremente sobre o que lhe causa, emite um eco barulhento na análise. Ao estruturar na linguagem verbal suas angústias, o analisante, abandona o lugar firme e cômodo da dor em que gozava. Por isso, que repetidamente se convoca a falação sobre o analista levar até às últimas consequências a sua própria análise, para poder ser ético em sua escuta analítica. 

A psicanálise se reinventa quando cada sujeito implicado por seu discurso transmite algo da ordem do estranho que o habita. Após ouvir a própria voz, o analisante inicia uma nova etapa de sua análise: a responsabilização pelo lugar no qual escolheu para desejar e gozar a vida.

O processo de uma análise vive de mãos dadas com a resistência, por denunciar a dificuldade em dizer adeus ao que deixou de ser para tornar-se algo novo e ainda sem nome. Acessar a intimidade do grande outro que constitui em si mesmo é algo constrangedor ao sujeito que foge do que o implica ao movimento do caminhar atravessado da horizontalidade sem bordas e de inúmeras possibilidades de escolhas. 

Amar, odiar, desejar e tantos outros sentimentos não é mais como antes. Hoje, existem uma tonelada de opções para que o sujeito possa escolher. A problemática é que não se pode ter tudo, é preciso escolher somente um objeto, e essa escolha produz  certa angústia por não saber se o escolhido dará conta da demanda que será depositado nele. 

A partir desse pressuposto, a capacidade de viver coincide com a coragem de olhar para o frustrante da dor: o sofrer. O processo de amadurecimento colide com os valores abandonados, conduzindo o sujeito ao desconhecido vazio que o constitui como ser desejante. 

Os efeitos das transformações em análise, implicam o analisante a pensar suas experiências, o que produz certa amplitude de angústia, medo e constrangimento com o novo. Deixar o lugar [prazeroso] em que se gozava de forma ilimitada, mesmo que muitas vezes ruim, é assustador para o sujeito por temer a perda e não ser capaz de suportar a imensidão das incertezas do novo lugar que pretende se posicionar. 

Por perceber que algo [que nunca teve] pode ser perdido, inaugura a experiência de existir, e esse movimento não existe sem que se possa sentir o peso da imensidade do medo. A busca do sujeito pela análise está às voltas da tentativa de estabelecer o equilíbrio por não dar conta de pensar o desequilíbrio que se constitui naquele momento de caos. 

Já em seu avesso, a desistência da análise não está relacionada ao dinheiro investido nas sessões, mas na incapacidade de não suportar o barulho do seu discurso, que o convoca a se responsabilizar por si mesmo. 

7.3.18

SOBRE SER DESEJADO E SER DESEJANTE

thinkpink - andrewkuttler
Ser desejado está na ordem da demanda que se endereça ao olhar do outro sobre a si mesmo, ser desejante está em convocar o próprio olhar sobre a falta que se constitui.

Ser desejado é uma demanda que se dá ao outro, muitas vezes a ilusão que se edifica pode ser descontruída em milésimos de segundos, por estar sempre enraizada numa esfera narcísica da terra firme da área movediça. A frustação nasce justamente de não poder emoldurar o olhar do outro para si mesmo, uma vez que, é preciso muito mais que ser interessante para o outro.

Trata-se da essência [sem borda] de se haver com o faltante que se constitui em cada um de nós. Na análise aprende-se muita coisa, uma delas é que não se estilhaça a fantasia do outro por haver em si mesmo um enorme teto de vidro. A falta não se trata de um vazio, mas se alimenta dele para produzir saberes que impulsionam às transformações do sujeito.

Em nome da linguagem do faltante é que se produz desejo, em que o sujeito começa a compreender suas complexidades e o que constitui sua falta. Ser desejante não é uma tarefa simples e de pouco trabalho, demanda tempo e muita espera. E nós, sujeitos do contemporâneo, desaprendemos a esperar.

Tudo precisa ser em tempo real, não há espaço para aprender a esperar. Por isso, muitos não suportam o peso da experiência do processo psicanalítico. Para desejar, amar e viver a espera é preciso aprender a desacelerar, o saber sobre si mesmo leva muitos anos e mesmo que se constitua algum saber dessa ordem, ainda existirá algo para problematizar, questionar e tentar produzir saberes que estruturam o sujeito do inconsciente.

Mas, pode ser que eu esteja errado sobre tudo isso. Afinal de contas, quem é que quer esperar e viver a angústia desse processo, quando o tempo vive a passar?

Não há mais nada doloroso que aprender que é preciso perder algumas coisas, para que se possa ganhar.


11.1.18

A FALTA DE EMPATIA NOS TORNA SUJEITOS DOENTES


A falta de empatia frente à singularidade do outro, nos torna sujeitos doentes em uma sociedade psicótica. Há quem acredita que é preciso encorajar os que estão vivendo a sua maneira e medida [tempo] a viver algo outro, que seja menos doloroso para nossos olhos, pela incapacidade de reconhecer o estranho [dentro], que também está no outro, mas, que no caso está a olho nu. 

O humano vive insistentemente [de forma neurótica], querendo encontrar uma palavra para nomear o que é inominável e, por assim ser, causa: medo, angústia e desejo. A doença dos tempos presentes está na dificuldade em lidar com a frustração e a beleza da singularidade do não-todo, que é impossível de esquadrinhar ou enquadrar.

Faz-se necessário deixar que o outro possa ser em sua totalidade [até as últimas consequências], para que ele por si mesmo possa construir um saber-não-todo do próprio percurso. Quer-se muito do outro, que ele seja sempre algo que não se é. No caso do suicídio e depressão nível hard, todos querem que o sujeito seja positivo, que seja forte, que seja qualquer outra coisa, menos que seja ele mesmo em sua difícil amargura de criar um saber diante disso. 

A questão é simples, ao invés de dar caminhos, ofereça ambiente e suporte a demanda que pode se inscrever a partir disso. Poucos se manterão presentes, melhor que seja assim. Muita gente tentando fazer o mesmo cria abismo. A sociedade é um bom exemplo, senão excelente.

Sejamos o mais próximo do real ao tocar na dor do outro. Que se possa oferecer ambiente para que esse outro que sofre possa falar sem medo de retaliações. E, quase sempre, isso só é possível num trabalho de análise, que é osso duro de roer. 

Que possa existir mais apoio aos que sofrem, oferecendo sempre autonomia. Estar triste, insatisfeito e infeliz em certos momentos da vida não torna ninguém menor que qualquer outro. A proposta é criar um saber diante disso e poder fazer melhor com o que causa dor, angústia e sofrimento. A vida é isso, salvos os momentos que criamos felizes para sustentar toda uma vida de altos e baixos.

O amor está em oferecer a mão, deixando que o outro possa por si mesmo acessar o seu interior e aos poucos reconhecer sua trajetória com bons olhos.


12.12.17

ANGÚSTIA DE SUSTENTAR UMA ANÁLISE


A psicanálise é para todo ser humano que excede, que transborda os próprios limites e, numa obsessão desmedida, o limite do outro. O amor e desejo estão presentes nessa disputa de amor e ódio. Ama-se e odeia-se o mesmo objeto de desejo. 

A obviedade de se ouvir muito sobre amor na análise às voltas do ódio, do ressentimento, da amargura são próprio da singularidade de viver tal amor rodeado de sofrimento que antecede o presente. Trata-se de um passado que ainda persiste em se desenhar no presente, pulsante [...] vivo. Que atuará como um superego invejoso diante das novas configurações afetivas.

Não há uma receita que possa autorizar o sujeito a se haver com seus sofrimentos, eliminando-os de forma permanente.  A angústia de uma análise é construir [sem recurso nenhum] algo a partir de uma perda. É deixar de sustentar um ideal para redescobrir novos meios para se reinventar.

A angústia é um sentimento intenso e muito presente no trabalho analítico. O osso é duro de ser roído, por estar diante da impossibilidade de ser possível ser feito algo a respeito. No entanto, é atravessado pelo acolhimento da escuta do analista que o analisante sente-se o mínimo de segurança possível para encontrar em seus próprios insights ferramentas que o possibilite a ultrapassar os semblantes que o impedem de se constituir como singular.

O preço que se paga na análise não é o valor investido nela, mas trata-se mais, ainda. Os efeitos de uma sessão analítica podem durar dias, semanas e meses. A psicanálise implica que o sujeito se responsabilize por seu sofrimento, por sua escolha, por como deseja gozar. Se dá conta ou não do que se propõe. Se é viável ou não.

A análise psicanalítica é viajar diante do mar aberto com uma única ferramenta: a bússola. E saber utilizá-la é o que fará toda a diferença frente ao acaso e surpresas que esperam por cada sujeito em sua singularidade.

Pode-se planejar muito, mas é preciso saber que existe uma força que rompe planos, trajetórias e devastam ideias. É a partir da devastação que a vida dá autonomia para o sujeito se reinventar. Por isso, não se prenda aos ideais culturais, convencionais e conservadores.

Há dois caminhos na vida. Ser irresponsável com o próprio desejo e inconsciente, gozando de forma desastrosa ou ser responsável com o seu desejo e inconsciente, percorrendo um caminho que beira a loucura, ao desespero e angústia. Mas que o leva cada vez mais próximo do que possa ser o seu destino, com uma forma singular de contribuir com ele.


3.12.17

CRESCER


Que sentimento estranho que é intuir que se está crescendo. Há inúmeras formar de evitar a inundação do crescimento. Talvez, o mais comum, seja seguir o fluxo sem se questionar sobre o percurso que vai se mostrando em milésimo de segundo.

A vida é apostar tudo numa ideia que inspira, que dá fôlego à esperança, saboreando o gosto agridoce da angústia de perder tudo. Freud em Mal-Estar na civilização já desenhava uma ideia do quão é difícil compreender a própria dinâmica para os que foram um pensamento bem refletido e gerado às volta do amor e o quão mais, ainda é para os que foram um pensamento mau refletido e pensado às voltas da pressa e insegurança. 

Crescer é insistir, recordar, repetir até chegar ao entendimento de uma molécula da elaboração que convoca ao crescimento. O processo é de longo prazo e experiências, que nutrem e constituem um saber a respeito de nós mesmos.

25.11.17

NA SUPERVISÃO PSICANALÍTICA O QUE NOS INTERROGA?


Em psicanálise, o analista tende a estar sempre numa posição de falta em seu percurso de formação, esse movimento promove a construção de um saber junto ao seu analisante. Há sempre algo que interroga o sujeito que assume a posição de analista, é de grande importância que assim seja, para que a supervisão tenha efeitos na análise dos seus analisantes.

A posição de analista só pode ser ocupada, quando autorizada por ele mesmo, desde que esteja em dia com o tripé da formação que Freud (1912) no texto “RECOMENDAÇÕES AOS MÉDICOS QUE PRATICA A PSICANÁLISE”, orienta: análise pessoal, estudo teórico e supervisão. 

Na graduação em Psicologia é muito comum aos ingressantes a interrogação a respeito da teoria, pratica e/ou condução de uma psicoterapia às voltas da psicanálise. Uma preocupação equivocada, visto que não se aprende nada nas universidades, a psicanálise não existe e não é possível nesse universo. No máximo, o que se aprende nas universidades está na ordem de sua história, teoria e discurso do que se trata o saber da Psicanálise. A transmissão da Psicanálise só é possível na experiência do dispositivo analítico.

O psicanalista Sesarino comenta que a diferença entre a ciência e a psicanálise é que a primeira está na ordem do experimento e a segunda da experiência. Nas universidades não pode ser ensinado uma experiência, por isso tanta inaptidão ao conduzir transferência, que acaba por tornar um processo duro de ser experimentado para àquele que nunca ocupou o lugar de analisante.

Entretanto, em seu texto “OBSERVAÇÕES SOBRE O AMOR TRANSFERENCIAL” (1915[1914]), Freud menciona que:
Cada iniciante na Psicanálise por certo teme, de início, as dificuldades que lhe apresentarão a interpretação daquilo que ocorre [Einfälle] ao paciente e a tarefa da reprodução do recalcado. [...] as únicas dificuldades realmente sérias são encontradas no manejo da transferência. 
Freud se preocupou muito com a transmissão da Psicanálise e sua prática, por existir uma ética [o analista precisa levar até as últimas consequências a experiência de sua análise] no que constitui a singularidade da experiência psicanalítica. Neste percurso, a passagem da teoria à experiência, propõe que todos que busquem se orientar pela psicanálise [orientado por sua ética], estejam em liberdade para errar e aprender com a experiência a fazer melhor. 

Entretanto, é importante e necessário que aquele que deseja se haver com a psicanálise esteja sabido desde o princípio que esse percurso não oferece respostas ou caminhos prontos. A experiência que a Psicanálise promove está na ordem da interrogação ao que atravessa a vida na singularidade do sujeito que está em processo de análise, principalmente a do sujeito do analista.

Quem quer aprender e saber psicanálise em sua essência, só através da experiência de se deitar no divã, ingressar uma análise que o conduzirá a um saber subjetivo que oferecerá algo que ultrapassa qualquer saber teórico. Somente o sujeito que leva sua análise às últimas consequências poderá chegar o mais próximo do saber psicanalítico.

A universidade autoriza o sujeito a exercer a psicoterapia, mas não uma psicanálise. A psicologia está a milhas de distância da psicanálise. Em acordo com o psicanalista Sesarino, o sujeito pode fazer mestrado e doutorado em psicanálise, mas nada disso torna alguém psicanalista, isso tudo são conjuntos de informações, que não serve para nada, no sentido de transmissão da psicanálise.

Não se é analista sozinho, é preciso que haja outros analistas para sustentar o lugar de analista diante da dor de existir do analisante [e, sem dúvida, do analista também]. Wilfred R. Bion (2016[1997]) em texto “Sem título” do livro Domesticando Pensamentos Selvagens, recomenda:
“É importante que o embrio-analista, o candidato, possa ousar usar sua imaginação e a articulá-la numa supervisão. Esta é uma das razões do porquê eu considero uma supervisão como sendo possivelmente valiosa: se pelo menos aqueles que me procuram ousem dizer que pensam, e usem esta ocasião como forma de se exercitarem na articulação daquilo que pensam, através da terminologia verbal, ou qualquer outra que descubram, eu já me dou por feliz” (Bion 2016[1997]).
A experiência de supervisão oferece ao analista que algo de sua clínica o interrogue, atravessado por seu discurso consciente dos seus casos [ que em questão, não está nos casos de seus pacientes, mas no próprio tratamento], é através do que causa o analisante que atinge o analista no momento de análise, ao nível de relação transferencial, provoca desdobramentos na própria analise do supervisionando, que produzirá efeito de formação. 

Por este motivo e, por tanto outros, que é indiscutível estar em dia com o tripé descrito por Sigmund Freud nas suas recomendações aos que praticam a Psicanálise. Só é possível saber de psicanálise atravessado pela experiência, do contrário só se faz possível conhecer o que seja psicanálise, nunca os seus efeitos no cotidiano do ser humano.

A ética na psicanálise se transcreve na análise pessoal, conhecimento teórico e supervisão. Se pretende praticar psicanálise, é imprescindível que arque com o osso de levar até as últimas consequências o pilar que sustenta o lugar que ocupa o analista.


Maicon Vijarva
Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica
Snapchat I Instagram @acuradefreud

26.10.17

ENTRE O CERTO E O ERRADO, EXPERIMENTE VIVER

Artista EDUARDO-BERLINER, obra ROSTO
A vida é selvagem e doce, a sua medida. Mas, nunca agridoce. Para ela não existe meio termo, é tudo ou nada. Viver é apostar tudo [mesmo quando não se tenha nada], por isso temos tanto medo de estar fazendo tudo errado.

Não há remédio que dê conta dessa rasura que se traduz muitas vezes em vazio, produtora de um medo de estar a fazer de modo errado, mas com certa porcentagem de intuição de estar no caminho que aponta para uma realização que está mais, mais ainda além do que podemos descrever em palavras.

Viver em outros tempos, quando não se havia nada, tinha um peso caro para o sujeito. Mas, o que pesa mais para o sujeito do século XXI é estar diante de um horizonte de infinitas possibilidades e com a difícil tarefa de escolher o que fazer.

O moderno nos convoca a escolher entre o prazer do gozo e o caminho árduo que está escrito em nós [estrutura que se constituiu nosso inconsciente], que infinitamente nos leva a produz [repetições] sem nosso consenso.

É possível lutar no terreno do impossível, mas é preciso conhecer o mínimo e, mais ainda, das ferramentas que nos utilizaremos para pintar nosso percurso. Entre o certo e o errado, experimente viver.

Maicon Vijarva
Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica
📞 (17) 98151-6943
Snapchat I Instagram @acuradefreud

1.6.17

A VIDA É SEMPRE UMA APOSTA




Apostar é um risco, uma ideia que percorre o corpo e que escorre pelos dedos das mãos sem sequer dar tempo de preencher a falta que deixa em nosso corpo. Por não existir garantias, o sujeito fica a benefício da esperança [do verbo esperançar], que significa sustentar o desejo produzindo o movimento de si mesmo para tornar o desejo possível de realização.

Mas para ganhar é preciso que o sujeito seja [ousado e valente], ousado para continuar a desejar e valente para aprender a perder e ser o mínimo possível criativo em presença do vazio que o sentimento de perda promove. Aprender a perder só pode ser possível pelo viés da experiência, que quando nos atravessa faz tornar possível compreender e significar o que representa esse percurso a nós sujeitos do inconsciente.

Infelizmente [ou de maneira feliz], o sujeito tem de haver com o que lhe causa: mesmo que “escolha” viver pela ilusão. O método que os livros de “autoajuda” se propõem, só pode ajudar o próprio escritor que oferece o método, que traz o ganho das cifras em sua conta bancária. Há teóricos que “ensinam” o [treinamento da mente] para condicionar o sujeito, de maneira alienada [politicamente correta], a se encaixar numa sociedade que está doente dos nervos.

O sujeito insiste em querer criar um método que possa domar a mente, que é uma tarefa que beira o abismo de tão impossível, entre mente e corpo existe o inconsciente que conduz de maneira selvagem o sujeito e que jamais pode ser domado. Podemos aprender a sermos gentis e amáveis para fazer as pazes com ele e assim viver o mais próximo do que “chamamos” de harmonia.

Métodos de treinamento e condicionamento da mente pode até perdurar por algum período, mas devo alertar que o sujeito sedento por ser desejado é incapaz de sustenta o desejo do outro por muito tempo. O inconsciente é indomável e cobra um alto preço aquém o desafia.

Sustentar o desejo de transformação [independente de sua causa] deve surgir do próprio sujeito do inconsciente. Por isso é pontual a importância de sustentar vínculos que sejam saudáveis ao aparelho psíquico, uma vez que, basta à existência do inconsciente do sujeito que se defende do seu desejo, gerando um movimento que vai sempre contra e não a favor da realização deste desejo.

Se conselho fosse bom, vendia-se. Por assim dizer, faço sugestivo que corra o risco, aposte em sua análise pessoal. Aposte na sua vida. O preço mais alto a ser pago é aprender a perder, a se responsabilizar por seu percurso. Um grande e duro osso a se roer.



Maicon Vijarva
Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica
📞 (17) 98151-6943
Snapchat I Instagram @acuradefreud

29.5.17

A NOVA DINÂMICA DO ETERNO: SUJEITO DO REAL AO VIRTUAL


A expansão da capacidade mental do sujeito é povoada de desconfortos, que está intimamente ligada aos vínculos de amor e ódio com o outro, seja familiar ou social. O processo dinâmico de conhecer a si próprio e se autorizar a mudar de posição subjetiva para produzir uma nova visão expansiva estão subordinados à capacidade de tolerar frustrações frente ao que se planejou para vida.

Esse furo que a frustração submete o sujeito do real ganha um estranhamento individual na nova dinâmica do virtual: o desejo de sustar sua existência na eternidade. Na incapacidade de o sujeito lidar com a falta nasce o estilo hikikomori, nova maneira de vida que tem ganhado inúmeros simpatizantes na pós-modernidade.

A terminologia de origem japonesa desenha certo comportamento de extremo isolamento doméstico por pessoas geralmente jovens, que optam por se excluir da cena social, de modo a evitar ao máximo o contato físico com o próximo.

A busca por tornar-se a si mesmo, ou seja, chegar ao mais próximo possível do nosso íntimo, passa a ser obsoleta. Inicia-se o laço virtual terminável e interminável com o real, o sujeito se contrai e se constrói em si mesmo e com isso é incapaz de perceber a sua degradação e, consequentemente, a do Outro.

A tarefa de aprender a tolerar os desconfortos e o que há de mais doloroso na vida se faz impossível com os hábitos hikikomori, que proporciona ao sujeito uma patologia semiótica de se colocar no lugar de eterno no mundo através da ópt. virtual, que não deixa de estar em constante comunicação com o real, porém corroendo o mínimo possível de esperança de ligamento afetivo de 1+1.

Pelo caminho da escrita, o axioma até aqui nos permite pensar as inovações de se colocar no mundo frente às novas ferramentas que autoriza o sujeito a se pôr num outro lugar que o permeia na finitude da relação de si mesmo +1. Frente a esse contexto o sujeito de ontem, por viver em uma órbita padrão, sabia onde aspirava chegar, guiado por seu questionamento sobre o que lhe acorrentava a sua vida, ao projetar luz em seu passado.  

Quando “inicia-se uma nova configuração do laço social: a globalização privilegia a horizontalidade sobre a verticalidade constituindo uma sociedade de rede, muito distinta da piramidal da qual nos afastamos no decorrer da construção do corpo do sujeito na história (Forbes, 2010).

O que reafirma que o sujeito atual, mais que do passado está interessado em saber além do mesmo, está velado em seu futuro. Saber como escrever e sustentar sua honra na imensidão do eterno. A pergunta que hoje o sujeito faz a si mesmo não é mais “o que impede de chegar a um objetivo, pois o problema, quando se quebram os padrões, é saber qual é o seu objetivo entre as inúmeras possibilidades, fato que traz o furo do estranhamento da angústia” (Forbes, 2010).

O real no virtual hipoteticamente esteja no defrontar com a impossibilidade de tudo saber ante ao qual só sobra a possibilidade de inventar uma solução e assumir o risco do seu desejo, em que o sujeito precisará descobrir uma forma de transformar a rigidez em flexibilidade; a angústia que o imobiliza em criatividade; a moral da necessidade em ética do desejo.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- FORBES, Jorge. Artigo publicado na Revista Psique - número 51, março 2010 Link direto do site do autor: (http://www.jorgeforbes.com.br/br/artigos/Voce-esta-em-analise.html).

4.9.11

AS EXPERIÊNCIAS


Somos o odor do perfume 
que exala das flores,
o suspiro do beija-flor,
o gosto amargo da dor,
Somos a fantasia 
disfarçada de realidade,
Somos poesias que encantam e desencantam
o poeta ao brincar com as palavras,
Somos crianças que desejam crescer,
Somos adultos que não querem envelhecer,
Somos o velho que teima em viver mais, ainda
para relembrar o tempo de quando era criança,
Somos uma pintura que apresenta falta, 
uma falha que singulariza 
e nos torna únicos no mundo.
Somos o ontem, o agora e o amanhã.