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12.12.17

ANGÚSTIA DE SUSTENTAR UMA ANÁLISE


A psicanálise é para todo ser humano que excede, que transborda os próprios limites e, numa obsessão desmedida, o limite do outro. O amor e desejo estão presentes nessa disputa de amor e ódio. Ama-se e odeia-se o mesmo objeto de desejo. 

A obviedade de se ouvir muito sobre amor na análise às voltas do ódio, do ressentimento, da amargura são próprio da singularidade de viver tal amor rodeado de sofrimento que antecede o presente. Trata-se de um passado que ainda persiste em se desenhar no presente, pulsante [...] vivo. Que atuará como um superego invejoso diante das novas configurações afetivas.

Não há uma receita que possa autorizar o sujeito a se haver com seus sofrimentos, eliminando-os de forma permanente.  A angústia de uma análise é construir [sem recurso nenhum] algo a partir de uma perda. É deixar de sustentar um ideal para redescobrir novos meios para se reinventar.

A angústia é um sentimento intenso e muito presente no trabalho analítico. O osso é duro de ser roído, por estar diante da impossibilidade de ser possível ser feito algo a respeito. No entanto, é atravessado pelo acolhimento da escuta do analista que o analisante sente-se o mínimo de segurança possível para encontrar em seus próprios insights ferramentas que o possibilite a ultrapassar os semblantes que o impedem de se constituir como singular.

O preço que se paga na análise não é o valor investido nela, mas trata-se mais, ainda. Os efeitos de uma sessão analítica podem durar dias, semanas e meses. A psicanálise implica que o sujeito se responsabilize por seu sofrimento, por sua escolha, por como deseja gozar. Se dá conta ou não do que se propõe. Se é viável ou não.

A análise psicanalítica é viajar diante do mar aberto com uma única ferramenta: a bússola. E saber utilizá-la é o que fará toda a diferença frente ao acaso e surpresas que esperam por cada sujeito em sua singularidade.

Pode-se planejar muito, mas é preciso saber que existe uma força que rompe planos, trajetórias e devastam ideias. É a partir da devastação que a vida dá autonomia para o sujeito se reinventar. Por isso, não se prenda aos ideais culturais, convencionais e conservadores.

Há dois caminhos na vida. Ser irresponsável com o próprio desejo e inconsciente, gozando de forma desastrosa ou ser responsável com o seu desejo e inconsciente, percorrendo um caminho que beira a loucura, ao desespero e angústia. Mas que o leva cada vez mais próximo do que possa ser o seu destino, com uma forma singular de contribuir com ele.


26.10.17

ENTRE O CERTO E O ERRADO, EXPERIMENTE VIVER

Artista EDUARDO-BERLINER, obra ROSTO
A vida é selvagem e doce, a sua medida. Mas, nunca agridoce. Para ela não existe meio termo, é tudo ou nada. Viver é apostar tudo [mesmo quando não se tenha nada], por isso temos tanto medo de estar fazendo tudo errado.

Não há remédio que dê conta dessa rasura que se traduz muitas vezes em vazio, produtora de um medo de estar a fazer de modo errado, mas com certa porcentagem de intuição de estar no caminho que aponta para uma realização que está mais, mais ainda além do que podemos descrever em palavras.

Viver em outros tempos, quando não se havia nada, tinha um peso caro para o sujeito. Mas, o que pesa mais para o sujeito do século XXI é estar diante de um horizonte de infinitas possibilidades e com a difícil tarefa de escolher o que fazer.

O moderno nos convoca a escolher entre o prazer do gozo e o caminho árduo que está escrito em nós [estrutura que se constituiu nosso inconsciente], que infinitamente nos leva a produz [repetições] sem nosso consenso.

É possível lutar no terreno do impossível, mas é preciso conhecer o mínimo e, mais ainda, das ferramentas que nos utilizaremos para pintar nosso percurso. Entre o certo e o errado, experimente viver.

Maicon Vijarva
Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica
📞 (17) 98151-6943
Snapchat I Instagram @acuradefreud

20.9.17

DESAMPARO DE SI MESMO


A responsabilidade com o percurso que se desenha é, em parcial, exclusividade do sujeito do inconsciente. Sujeito que se responsabiliza pelo acaso e surpresa que o seu inconsciente aponta perante o desejo. Dedicação é algo que pouco se ambiciona refletir, ainda mais quando não existe ganho em curto prazo. 

Neste limite, em que o desejo e o gozo disputam a representatividade do sujeito, dedicar-se ao outro, enquanto o Ego se faz em pedaços até pouco sobrar dele, é fugir a responsabilidade. Há quem diga que se dedicar totalmente ao outro seja amor, quiçá seja a forma mais simplista de articular que pouco [ou nada] se investe no amar a si mesmo. O desamparo de si mesmo torna-se a energia de viver para o outro, apelidando essa experiência de amor.

O aspecto econômico da psique, o quantum de energia libidinal que estrutura o movimento que aponta à força selvagem que duela entre amor e desamor, esboça uma pintura de que quanto mais o sujeito investe o seu desejo no desejo do outro, mais à mercê do investimento fica o seu desejo no passado. No experimento da paixão, o sujeito direciona toda sua energia psíquica ao endeusar o Outro a ponto de alocar a si mesmo em segundo plano.

A rigor da incapacidade de se responsabilizar por seu percurso, o sujeito é capaz de lidar com o impossível, até mesmo desconstruir a estrutura do seu discurso de que jamais faria algo que repudia. Na lei rigorosa de evitar o caos de olhar para o que lhe causa, o sujeito projeta no externo o que acredita ser fonte da energia de sua existência. 

O sujeito ao articular do lugar de dependência a ponto de realocar toda sua energia libidinal na dedicação de algo externo, assume a responsabilidade de beijar a morte, a conta gotas, do seu desejo.  O mais próximo que podemos chegar à conclusão deste texto, a narrativa do sujeito que narra um discurso de que muito se ama ao se colocar à disposição do outro, está retratando uma pintura esquizofrênica de que é incapaz de amar a si mesmo, de olhar para o que lhe causa, de seguir um percurso que não há garantia senão a de sustentar até as últimas consequências o que aponta para realização do seu destino: o desejo.


Abraço, 
Maicon Vijarva

28.2.16

ENTRE O PSIQUISMO E A PELE: UM ENSAIO PSICANALÍTICO SOBRE A MÃE MORTA NA CLÍNICA DO VAZIO

A relação do indivíduo com seu mundo interno e externo pode ser examinada na qualidade e característica das relações constituídas ao longo da vida. As relações primárias estabelecidas com objeto se dão no grau corporal: cuidados, alimentação, toque na pele do bebê, reconhecimento do ambiente. A criança faz, inicialmente, o reconhecimento de seu mundo através do físico – corpo, edificando a partir dele seu universo interno em relação com universo e os objetos externos, posteriormente internalizados. Freud (1923/1976) acentua que o ego é, principal e acima de tudo, um ego corporal, não sendo meramente uma entidade de superfície, mas, ele próprio, a projeção de uma superfície.
A forma como se dá a estruturação do ego tem o corpo como veículo e se dá pelo contato com o outro, que ocorre, em primeiro lugar, pela pele. A qualidade das relações é o que, na maior parte das vezes, produz um certo tipo de sofrimento às pessoas. O impacto dessas relações acontece num primeiro momento em nível psíquico, das construções internas, através das relações objetais. Já num segundo momento, podem estender-se no campo somático, quando não elaboradas no plano psíquico, esses aspectos são nomeados de eclosões psicossomáticas, quando a vivência dos afetos pode ser tão desagregadora que exceda a elaboração psíquica, afirma McDougall (1978/1989).
No curso das relações, objetos internos são representações intrapsíquicas das relações com o outro. Nesse andamento, essas relações objetais acontecem na internalização do objeto e suas qualidades, e a internalização é um processo fundamental para o desenvolvimento da estrutura psíquica, já que é por meio dessa que o sujeito vai assumindo gradualmente as funções originalmente supridas por outros.
Tais relações, ou, mais que isso, o formato como são patenteadas pode apresentar como consequência o adoecimento orgânico e/ou psicossomático, especialmente nas questões referentes ao adoecimento de pele, compreendida como órgão de relação, limite entre o eu e o outro – mundo interno e mundo externo. Para melhor compreensão, partiremos para as considerações pertinentes ao universo da clínica do vazio, quadro clínico alcunhado por Green (1988) através de um de seus ensaios titulado Complexo da Mãe Morta, de acordo com Teixeira (2009), no contexto amplo de sua obra, inserem-se na “significação clínica e metapsicológica do vazio” (Green, 1988, p. 267).
As reflexões e elaborações ao que se alude ao Complexo da Mãe Morta, relacionam-se à problemática do luto, o que resulta num traço marcante nas análises contemporâneas, o alusivo diagnóstico da psicanálise contemporânea, de acordo com GREEN (1988).  Outro importante concernente teórico constante nas obras de Green (1990) e que também integram à psicanálise contemporânea, trata-se das discussões acerca das relações objetais e o seu caráter cerne do psiquismo humano.  
No início dos anos 1980, uma série de artigos, compõem a coletânea Narcisismo de vida, narcisismo de morte (1988) e em De loucura privadas (publicado primeiro em inglês em 1986, depois em francês em 1990 em uma versão diferente e ampliada com o subtítulo “Psicanálise dos Casos-limites”). De acordo com Urribarri (2010):
“Desenvolve e consolida uma concepção original do funcionamento, e do tratamento, dos casos limítrofes, dando conta de uma profunda transformação do campo analítico. As classificações psicopatológicas  estão subordinadas à consideração da analisabilidade (e dos seus limites). E a própria analisabilidade já não depende tanto do diagnóstico do paciente, mas também das características e possibilidades singulares de cada par analítico, da relação entre um determinado paciente e um determinado psicanalista. Consequentemente, a “loucura privada” é definida na relação analítica, expressando-se nos movimentos de transferência e contratransferência, conforme a singularidade do campo e do processo” (URRIBARRI, 2010, P.15).

 Em seu estudo sobre as teorias greenianas, (Urribarri, 2010, p.15) retrata que “no artigo programático “Paixões e destino das paixões” Green (1981), distingue a loucura da psicose  (e também do “núcleo psicótico” próprio do modelo anglo-saxão) pelo papel central das pulsões (e das fantasias) sexuais arcaicas. A ideia no artigo mencionado,  propõe-se um “mito etiológico” que segundo Urribarri (2010):
“Visa explicar a origem do duplo conflito limítrofe, narcísico, do Eu com as pulsões do Id e as pulsões do objeto. Em um esforço de elucidação dos casos limítrofes, “O duplo limite” (1982) propõe um modelo que conjuga a consideração de uma tópica ampliada (intra e intersubjetiva) e dos efeitos dinâmicos do “objeto-trauma” (ao mesmo tempo sexual e narcísico) no enquadre” (URRIBARRI, 2010, P.15).

A elaboração teórica em torno do trabalho do negativo, na obra de Green (1988), dá luz ao seu esboço, claramente elucidado no ensaio titulado A mãe morta. No artigo de Freud A negativa (1925), Teixeira (2009), relata que Green (1990) assegura:
“Que mais me faz refletir, em minha prática analítica e em minha elaboração teórica”. E são justamente as reflexões daí advindas que levam Green (1990) a concluir, em sua concepção acerca do trabalho do negativo, que este diz respeito às “diversas formas de dizer não”. E acrescenta: “reprimir, negar, ignorar – tudo isso faz parte de nossos mecanismos de sobrevivência psíquica”, o que confere ao trabalho do negativo o caráter de operação essencial não somente para a estruturação do psiquismo como também para a própria sobrevivência do sujeito humano, sujeito social e cultural: “o que caracteriza o homem é precisamente a negatividade”, afirma (TEIXEIRA, 2009 apud GREEN, 1990, p.79 – p.101).

Sob esse aspecto, o insucesso do trabalho do negativo alicerça os quadros clínicos que Green (1990) engloba nos estados-limites. Sua marca essencial, segundo (Teixeira, 2009, p. 17) “refere-se à carência ou insuficiência do estabelecimento dos limites do psiquismo – dentro/fora, eu/outro, subjetivo/objetivo. Desse modo, a clínica do vazio, em essência, o Complexo da mãe morta, faz alusão ao entendimento de que “no contexto do luto, a questão do objeto se articula à da negatividade” (Figueiredo e Cintra, 2004, p. 14). Em consensual, significa que o objeto, imaginado positivo, perde essa positividade, destitui-se de seu caráter estruturante torna-se “o objeto perdido, o que morre ou decepciona” (TEIXEIRA, 2009, P. 17). 
É importante enfatizar que a compreensão das relações objetais se associa, ao conceito de pulsão, para Green (1990) é o revelador da pulsão. Isso denota que a pulsão prende, ligando o sujeito ao objeto. Para compreensão, Teixeira (2009), explica que este, por sua vez, e mais essencialmente sua falta, compõem o fator revelador da pulsão, que segundo (GREEN, 1990, p. 71) “a pulsão satisfeita quase não se faz sentir”. Em consonância. Entretanto, Green (1990) aponta o caráter paradoxal do objeto: destina-se, ao mesmo tempo, a despertar – estimular – a pulsão e a conter a pulsão. Também é a expressão do conceito winnicottiano, conhecido por holding. Entendimento que manifesta Figueiredo (2007), afirmando que:
“As relações entre os objetos e as pulsões não são apenas complementares: são igualmente conflituosas, pois “é da dialética entre pulsão e objeto que o psiquismo nasce” (TEIXEIRA, 2009 APUD FIGUEIREDO, 2007, P. 483).

Quando essa função paradoxal e estruturante falha, Green (1993) apresenta uma junção do objeto à pulsão: uma espécie de fixador que atém um ao outro. Emana deste, o caráter intolerável da pulsão, tornando o objeto em demasia intrusivo, Teixeira (2009) acentua que sua presença sobrevém a ser intolerável, devido ao fracasso do trabalho de negação do objeto. A partir desta perspectiva, o recalcamento não se faz atuante; em seu lugar incide a cisão intrapsíquica, que interfere no pensamento, representação e simbolização.
Em epítome, a clínica do vazio se diferencia pela combinação, miscigenação de desinvestimento, destrutividade, fusão e identificação com o objeto, devastado pela separação. De acordo com Teixeira (2009) o desintricamento pulsional, que possibilita o trabalho da pulsão de morte, induz para Green (1988):
“O Eu a desfazer sua unidade para tender ao zero. Isto se manifesta clinicamente pelo sentimento de vazio”, que é resultado, em última análise, de “uma ferida narcisista com desperdício libidinal” (GREEN, 1988, P. 267). 

Para entendimento,  (Urribarri, 2010, p.17) descreve que a teorização do “narcisismo negativo (ou de morte)” visa elucidar conceitualmente e orientar tecnicamente a clínica do que nomeia “série branca”: “correspondente à alucinação negativa, a o luto branco, ao sentimento de vazio, cridos como resultantes de um desinvestimento massivo e temporário do objeto primário – expressão da destrutividade da pulsão de morte –, que afetou a estrutura do narcisismo primário e que deixou marcas no inconsciente sob a forma de buracos psíquicos” (Green, 1983).  E acrescenta “as descrições kleinianas do ódio e a eventual reparação do objeto são postuladas como posteriores ou secundárias em relação ao trauma narcísico primário” (URRIBARRI, 2010, P.15).
Importante trazer à baila, Winnicott (1979/1983), grande parte de suas contribuições descrevem a luta constante do self entre uma existência individual, mas que ao mesmo tempo permita o estabelecimento de intimidade por meio da proximidade com um outro. Essa possibilidade emana das relações objetais primárias estabelecidas entre o bebê e sua mãe, ou figura cuidadora. Winnicott (1971/1975) compreende a ausência da mãe como a única forma crível de união a um outro distinto. Questiona como, então, se dá o processo de a criança descobrir-se dentro dos cuidados de sua mãe sem perder-se nela. Nessa perceptiva é possível salientar que a mãe tem de dispor de recursos internos e ambientais para cumprir sua função de cuidado, tolerando tal diferenciação.
O conceito de unidade mãe-bebê é cunhado por Winnicott, a partir de suas experiências na observação da relação mãe e criança, e afirma que o ponto de referência de estudo não são os processos que acontecem apenas dentro do universo interno da criança, mas no campo relacional entre a criança e o universo externo – cuidador. Por esse motivo, Winnicott (1979/1983) estabelece as relações objetais em um plano separado dos processos instintivos.
Para o autor, as relações objetais primárias são interações entre as necessidades de desenvolvimentos da criança e os cuidados maternos oferecidos pela figura materna ou cuidadora, inteiramente independentes de satisfação pulsional. O bebê necessita dos cuidados maternos – a mãe suficientemente boa –, o que inclui um ambiente de sustentação à díade. Para Winnicott, o self surge e é estruturado por meio de experiências relacionais com os cuidados maternos específicos. Passa a existir a partir desse momento, a função de holding materno, que concretiza as necessidades físicas e afetivas do bebê, originando a continência de seus impulsos agressivos.
Importante lembrar que nesse estágio inicial o bebê encontra-se em conjuntura fusional com a mãe, incapaz de distinguir objetos internos (que estão sendo introjetados) de objetos externos (ainda não reconhecidos como tal). É um processo de modo relacional eminente, que se produz através da relação e da elaboração de experiências inerentes à existência. Através desses contatos e da qualidade destes, começa a se fundar o que Winnicott nomeou de sentimento de ego, que leva o lactente ao que se pode chamar de estado unitário. Faz-se notório que a pele tem uma função respeitável na formação da imagem física, do mesmo modo no sentimento de integração da criança e na constituição de seu ego, sendo a pele um meio sobre o qual se apoia o sentimento de ego.
Quando o processo mencionado anteriormente por Winnicott falha, trazem a superfície marcas traumáticas, que podem ser vivenciadas na relação primária da criança com uma mãe depressiva.  Essa relação desprovida de afeto materno é representado como a falta de interesse da figura materna em relação à criança, remetendo ulteriormente, na sensação de perda de sentido, apatia e identificação inconsciente com o estado da melancolia, sugerido por FREUD (1921).

Obs.: pesquisa em andamento.


9.8.15

O Transtorno Alimentar e a Visão Psicanalítica



Frequentemente, o paciente chega ao terapeuta, repleto de angústia e sintomas, para os quais não tem descrições.  A situação inicial não é clara nem para o terapeuta, nem para o paciente, que se sente neste período, no mais profundo caos e escuridão, por não conseguir expressar em palavras, as experiências repletas de sentimentos penosos que vem vivendo.

De acordo com W.R. Bion, caracteriza o “conteúdo”, este sentimento, projetado pelo paciente, para dentro do terapeuta, passa a ser representado como “continente”, uma vez que o terapeuta seja suficientemente acolhedor para que o paciente exponha todo seu caos.

A partir desta dinâmica, o terapeuta conhecedor deste mecanismo de conteúdo e continente, desenvolverá compreensão ao receber o paciente, uma vez que saberá interpretar as suas agonias, sendo muitas delas intensas, as quais necessitam encontrar, no terapeuta, a “continência” necessária para reconhecer seu estado de pavor e acolhê-lo; e também de sentir equilibrado para dar continuidade, ajudando o paciente por longo prazo.

A busca pela equipe médica, pelo paciente, é o momento de extrema fragilidade mental, que observada mais minuciosamente, oculta um estado de “terror sem nome”, ante o qual, o paciente se defende, através de defesas muito primitivas, descritas por Melanie Klein, psicanalista europeia, em 1946, em 5 fases:

CISÃO

O paciente chega com a mente dividida em bom e mau. Desta forma, sem condição interna de perceber os bons aspectos lado a lado com os aspectos frustrantes. Julgará a tudo e a todos de forma estanque.

Exemplo:

Ou o terapeuta é lindo, bom e eficiente quando “agrada” o paciente ou é mau e tenebroso, ao frustrá-lo. Há uma intolerância acentuada às frustrações nestes pacientes.

IDEALIZAÇÃO

É típico encontrar uma idealização – ampliação dos aspectos positivos – dos bons aspectos.

Exemplo:

O bom terapeuta é visto como perfeito. Mas, para que isto seja possível é necessário que outra defesa entre em funcionalidade: a negação.

NEGAÇÃO

Corresponde à fantasia de aniquilar aqueles aspectos que são frustrantes e intoleráveis para a mente. Dessa forma, a idealização aumenta espetacularmente os bons aspectos.

Exemplo:

O paciente nega o aspecto frustrante do terapeuta e do trabalho desempenhado, e assim, “constrói” um terapeuta perfeito, via idealização.

IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA

O paciente com TA usa maciçamente a identificação projetiva anormal, quando “evacua” seu desamparo dentro do terapeuta, para obtenção de alivio imediato.

TRIUNFO

Caso o paciente não se sinta “acolhido” nos seus conteúdos mais desesperadores como, por exemplo, sentir que não pode contar com o terapeuta de forma onipotente, passará a desprezá-lo e tentará negar o vínculo de dependência com o mesmo, mostrando-se “independente” e triunfante sobre os esforços terapeutas. Essa defesa é vinculada à onipotência.

Todas essas defesas conferem ao paciente um carácter onipotente e frágil ao mesmo tempo, e não raro, exibindo comportamento auto e hetero-agressivo, dentro de um vinculo extremamente frágil com o terapeuta, pouco tolerante às frustrações inerentes ao tratamento proposto.


A partir desta reflexão, a prática psicanalítica com um paciente dessa desordem, segundo o Escritor e Psicoterapeuta Renato Dias Martino:

Encontra-se na tarefa de reconstruir o ideal do corpo, ou seja, o que se pretende como forma estética física ideal. Entretanto, penso que a questão está bem mais profundamente implicada, do que na superfície do ser humano, onde se encontra o corpo físico. Não é novidade alguma que a alimentação é uma das formas mais primitivas de contato, aproximação e vínculo entre os animais mamíferos e sobre tudo o ser humano. Na relação mãe-bebê, o contato feito a partir da amamentação é sem duvida o ponto de partida do contato da nova vida que nasce com o mundo externo.
As relações entre o terapeuta e o paciente devem seguir o modelo de Bion, conteúdo e continente, levando em conta que, o paciente, não consegue acolher suas frustrações de forma adequada, uma vez que não pode experimentar o mesmo sabor de ser acolhido, assim dificultara de forma inconsciente o tratamento e a relação entre paciente e psicoterapeuta. Se o psicoterapeuta conseguir ser o continente suficientemente bom para o paciente, certamente haverá uma aceitação das verdades experimentadas com amor dentro do set-terapêutico; em que o paciente será preparado para ver a si mesmo, junto ao terapeuta.



REFERÊNCIAS
_Maria Auxiliadora Borges dos Santos – O cuidado com à equipe multidisciplinar (2006)
http://www.fmrp.usp.br/revista/2006/vol39n3/15_cuidado_equipe_multidisciplinar.pdf
_Renato Dias Martino – Funcionamento Alimentar, 2011

21.7.15

Ensaio sobre o Conceito de Libido



Antes de aventurar-me ao tema proposto, gostaria de alertá-los ao cuidado com a formação de preconceitos e pressuposições acerca do ser humano e suas atitudes biológicas e psíquicas. Eu mesmo já o fiz, mas hoje procuro ter o maior cuidado em não me esbarrar novamente no universo limitado do preconceito.

O humano está em completa transformação, em movimento. Suas necessidades e preocupações mudam de acordo com sua relação com o outro. Ressalto. Não poderia deixar de fazê-lo, uma vez que, nenhum ser humano evolui sem a experiência com o Outro.

Sigmund Freud (1856-1939) foi e é um homem brilhante, porém, muito censurado. Muitos simbolizaram a imagem de Freud ao Sexo. Um ser pervertido, que acreditava que tudo girava em torno do sexo.  Em sua época e, quando refletimos com mais atenção, até hoje usar a palavra “libido” traz um desconforto para a sociedade.

Aos leigos, a libido é a necessidade física – carnal – de um sujeito ter a experiência com o outro. Entretanto, não significa que seja necessário o ato sexual, com pessoas desnudas, para que haja o sexo em si. Não. Freud acreditava que o prazer sexual ocorre em junção com o afeto. Isso mesmo. Por que o sexo e a afetividade não podem coexistir numa mesma sintonia? Podem.  Como estava dizendo, Freud, quando falava sobre libido, queria ensinar que o toque é um ato sexual. É o que deixa as pessoas inibidas, abertas.

Você mesmo nunca sentiu uma vergonha, quando alguém lhe abraça, sem que esperasse por isso? A vibração deste toque, abraço inesperado, que Freud associava ao sexo. Não existe sexo sem que haja toque, como não há toque que não seja associado ao sexo. Lembrando que, sexo não é necessariamente o contato com as partes genitais. É mais que isso, podemos dizer que sexo é um contato essencial na comunicação e experiência com o outro.

Por muitos anos, o sexo foi um tabu na evolução do homem, e continua sendo, mas isso pode mudar. Quase sempre o sexo foi associado ao pecado, o ato impuro. Contudo, o que seria de nós se não houvesse o sexo, a libido? Talvez, se pensarmos a individualidade contemporânea, chegaríamos ao ponto interessante. A falta de sexo – o contato carnal – seja ele um aperto de mão, um abraço, um toque no ombro, deixassem as pessoas mais abertas e mais felizes em permitir-se em ser o que são sem medo de julgamentos. Quem sabe nem houvesse tempo para isso.

Há duas forças que regem o psíquico do ser humano. A Pulsão de Vida e a Pulsão de Morte. A forma lúdica que Freud se utilizava para descrever sua teoria é o mais brilhante. Para a Pulsão de Vida, utilizava a figura de Cupido-Eros, que na mitologia grega aproximava os indivíduos. A ligação de um sujeito com outro é mediada por Eros. Há uma aproximação sexual, sem o contato com o órgão genital. Neste momento só existe o prazer sexo-afetivo: toque.

Não podemos deixar de levar em conta, que o prazer biológico, o ato em que envolve o sexo carnal, o genital, aconteça. Mas, o Eros será o instrumento que busca ligar o outro, num plano mais afetuoso, sem sexo o prazer do órgão genital. É uma busca do eu por alguém em que possa se ligar, construir.

EROS -> PULSÃO DE VIDA -> LIGAÇÃO


Já a Pulsão de Morte, utilizado por Freud pela figura de THANATOS, que na mitologia tem a função de desligamento. Podemos cogitar também, como instinto de autopreservação.

Caso a busca do sujeito não seja bem sucedida, o que irá reger a pulsão é o Thânatos. O mais interessante de toda tragédia grega é que nenhum dos personagens vive sem a existência do outro. O mesmo ocorre entre Thânatos e Eros, um não existe sem o outro. Quando Eros busca a ligação, mas é rejeitado. Ocorre a experiência ruim, onde surge o Estado de Nirvana. Mais um termo utilizado por Freud, entretanto, sem ligação com o utilizado pelos budistas.

O Nirvana do budismo retrata a essência da fala: conheci e experimentei o mundo e agora estou de volta e desapegado de tudo. Em contrapartida, digo que isso seja para poucos privilegiados.

O Nirvana segundo Freud é entrar no estado de estar retraído, quieto. O Eros não conseguiu a experiência idealizada, sendo censurado. Assim, volto para si mesmo, como um caracol, numa reflexão de seu mundo interno. Como nos ensinou Sócrates: conhecer-te a ti mesmo. Eros não tendo sucesso em sua investida dá vazão à Thânatos, pensamento autodestrutivo, bem conhecido na atualidade como depressão.

Tanto a pulsão de morte quanto a pulsão de vida, são vias de mão dupla. Ambas trabalham para suprir as necessidades e em defesa do Eu. Apesar de tudo, a pulsão de morte não é ruim, uma vez que trabalha na defesa do Eu, porém, tudo irá depender de como essa pulsão é administrada pelo Eu.

Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza se faz melhor o coração.
Eclesiastes 7.3


PULSÃO DE MORTE –> THÂNATOS -> ROMPIMENTO

Em resumo, o sexo é regido por Thânatos e Eros, numa tentativa de aproximar os indivíduos, de deixa-los em harmonia. Mas tudo depende de como são feitas as dosagens. O sexo como vimos, não está localizado na genital, mas sim no toque, na afetividade que só pode ocorrer quando sentimos, tocamos. 

Para que ocorra a harmonia de tudo que refletimos até aqui, é necessário que haja um diálogo sincero e sensato entre o Id (parte primitiva, selvagem do Eu), o Ego (a essência do Eu) e o SuperEgo (o que o Eu almeja ser e/ou deveria ser). Que é a tríade psíquica, para que nossa comunicação com o externo seja saudável.

O eu verdadeiro - Eros cria a ilusão, Thânatos tenta proteger dela. Eros é a favor do outro. Thânatos a favor do eu. Thânatos é o choque com o real.

D. Winnicott