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29.1.19

SOBRE A VIDA: PACIÊNCIA, OBSERVAÇÃO E TEMPO



Na relação da construção de laços afetivos consigo mesmo e, consequentemente, com o outro necessitam de um pouco mais de calma, paciência. Mesmo que a vida não pare. O tempo vive a acelerar, mesmo que debrucemos em carne, osso e pele para que a vida seja um pouco menos caótica, ou pouco mais leve. Lenine em sua letra-canção diz: um pouco mais de paciente, um pouco mais de alma...a vida não para, a vida é tão rara.

A gente espera do mundo e o mundo espera de nós, um pouco mais de paciência, ainda acrescenta Lenine. O corpo vive nos pedindo uma conciliação com a alma [ um dos nomes do Inconsciente]. Não é nada fácil sustentar uma vida, ela é rara e singular à cada sujeito, mesmo que partilhada em alguns momentos de existência. 

Os laços mais difíceis e trabalhosos são os que não podem ser rompidos sem deixar um rasgo e uma ferida que jamais poderá ser cicatrizada por completo. Lembro-me numa visita a um hospital, em que me vestia de jaleco branco com cara pintada e nariz de palhaço, fiz um homem com uma expressão triste, sorrir. Não ganhei um dia ali, mas algo despertou em mim um vazio insuportável. 

Não sabia ao certo a razão, eu chorei. Ele vendo algumas lágrimas mancharem minha máscara, disse sorrindo: a vida é muito difícil meu jovem. Eu não sei se vou morrer, mas de alguma forma morro aos poucos nessa solidão que eu mesmo criei para mim. O que fazer quando a vida te coloca à prova para refleti-la de forma nua e crua? Faltavam palavras que pudessem representar a imensidão que aquela experiência me provocava. Ainda sinto ela a cada experiência com meus pacientes. 

A vida é uma incerteza, e não há culpados, mas é preciso se responsabilizar pelo que fica, pelo que resta do resto de uma experiência. A minha atitude foi colher o seu sofrimento pela escuta, que naquela época com 15-16 anos, sequer sabia alguma coisa da vida, ou que essa atitude teria algum efeito ou mais ainda, que me esbarraria com a Psicanálise no caminhar do meu percurso.

David Levisky em seu Livro A vida?... É logo ali,Editora Blucher, implica ao escrever: a paciência, a observação e o tempo colaboram para que um e outro descubram a linguagem da relação que poderá ou não ser transformada em códigos sociais de comunicação. A espera de que eles nos compreendam conflita com a nossa incompreensão do que eles necessitam. Isso é desesperador e faz parte do processo de desenvolvimento. Querer alterar o processo é violentar a si e ao outro.

Escrever é um ato de coragem e amadurecimento dos próprios defeitos e qualidades.

Imagem: @gertscheerlinck

26.10.17

ENTRE O CERTO E O ERRADO, EXPERIMENTE VIVER

Artista EDUARDO-BERLINER, obra ROSTO
A vida é selvagem e doce, a sua medida. Mas, nunca agridoce. Para ela não existe meio termo, é tudo ou nada. Viver é apostar tudo [mesmo quando não se tenha nada], por isso temos tanto medo de estar fazendo tudo errado.

Não há remédio que dê conta dessa rasura que se traduz muitas vezes em vazio, produtora de um medo de estar a fazer de modo errado, mas com certa porcentagem de intuição de estar no caminho que aponta para uma realização que está mais, mais ainda além do que podemos descrever em palavras.

Viver em outros tempos, quando não se havia nada, tinha um peso caro para o sujeito. Mas, o que pesa mais para o sujeito do século XXI é estar diante de um horizonte de infinitas possibilidades e com a difícil tarefa de escolher o que fazer.

O moderno nos convoca a escolher entre o prazer do gozo e o caminho árduo que está escrito em nós [estrutura que se constituiu nosso inconsciente], que infinitamente nos leva a produz [repetições] sem nosso consenso.

É possível lutar no terreno do impossível, mas é preciso conhecer o mínimo e, mais ainda, das ferramentas que nos utilizaremos para pintar nosso percurso. Entre o certo e o errado, experimente viver.

Maicon Vijarva
Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica
📞 (17) 98151-6943
Snapchat I Instagram @acuradefreud

11.10.17

PSICANÁLISE: UM ATO DE MOVIMENTO


 “a Psicanálise é uma terapêutica, a da neurose, e é ao mesmo tempo uma teoria psicológica, uma teoria geral da natureza humana e especificamente da existência do inconsciente e das manifestações deste em sonhos, sintomas, no caráter e em todas as produções simbólicas" (Erich Fromm,1969).

A psicanálise é um movimento de tratamento elaborado por Sigmund Freud, através de estudos sobre o sujeito de sua época, que apontou ao seu criador o caminho para a descoberta do inconsciente. O tratamento analítico, em sua constante descoberta de novos elementos, está na escuta investigativa do discurso [entre o real e a fantasia] do sujeito em seu sofrimento psíquico.

Essencialmente é uma teoria que se propõe estar junto com o sujeito do inconsciente em seu percurso na elaboração de um saber a respeito da estrutura que o constitui.  Faz necessário trazer em alto relevo, que negar o sofrimento psíquico ou realocá-lo não basta para extinguir seus sinthomas.

A dinâmica do que causa o sujeito oferece à psicanálise elementos para pensar o que constitui o sujeito. Na análise com crianças e adolescentes, o dinamismo está em percorrer o que há no saber desses sujeitos e como ele está se constituindo. De acordo com Françoise Dolto, “as crianças são os sintomas dos pais”.

O que nos aponta a pensar o contexto familiar e que nele, estrutura um saber inconsciente para cada membro que o compõe. A escuta analítica ouve o que falta ao sujeito e, mais ainda, o que ele fez/faz com o que lhe falta. O nome recebido pelo sujeito, o seu lugar no desejo dos pais, a dinâmica que o constitui nessa família, o estágio que vivenciava em seu desenvolvimento quando certos eventos ocorreram, a relação com a função paterna, – entre outros elementos – são reveladores na elaboração do pensar a posição o sujeito se coloca frente ao outro e aos acontecimentos da vida. A psicanalista lacaniana Flávia Albuquerque (2011), 
“a partir destes detalhes, o sujeito constrói um certo ‘discurso inconsciente’. Discurso este que o analista está apto a escutar e desenvolver, em forma de interpretações, ao sujeito que busca. A escolha da profissão, dos parceiros amorosos e decisões tomadas estão intimamente ligadas a todo este contexto”.
A autora levanta uma questão importante, quando direcionamos para a pergunta de quanto tempo dura uma análise. A psicanálise apresenta um percurso de tratamento longo, por oferecer a possibilidade de pensar o que causa o sujeito frente o desenrolar da vida. Para Flávia Albuquerque, uma análise levada ao pé da letra é um osso duro de se roer, mas o que não quer dizer que os seus efeitos sejam morosos.

Entrar em análise, não isenta o sujeito das repetições que o estrutura até o momento da busca por tratamento, tampouco, tantos outros acontecimentos que virão a ser importantes de ser trabalhados. Para além disso, existe uma outra questão que borbulha os sujeitos que buscam à análise. O valor do investimento. Muitos pensam que o valor das sessões em psicanálise seja caro. Sim, pode até ser.

Mario Sérgio Cortella, faz a consideração de que caro é aquilo que não tem valor, que não vale o que se paga. Para Flávia Albuquerque, a psicanálise ser um tratamento cara, não significa que o menos favorecido não possa se submeter a uma análise. O que nos revela que a análise é cara para cada um à sua maneira.

Aquele que arrisca e aposta tudo em sua análise, é um sujeito que ousa ao trabalho árduo de se propor à questionamentos sobre a relação consigo mesmo e com o outro. É impossível atravessa a vida ileso de sofrimento, porque na vida é preciso se reinventar e conviver da melhor forma possível com as causas da dor de existir.

Ao se submeter a uma análise bem conduzida, o sujeito é informado pelo analista sobre a existência e funcionamento do inconsciente que o estrutura, esse ato proporciona ao sujeito um movimento de transformação ante a vida. Os efeitos de uma análise é subjetivo, não existe um saber uniforme [na psicanálise] que dê conta de padronizar um método, pela ética de que cada sujeito é único em sua maneira de existir no mundo.

Referências
ALBUQUERQUE, Flavia - Afinal, o que é psicanálise? (2011) Link:  https://goo.gl/cdJrGc
FROMM, Erich – A missão de Freud, 1969. Rio de Janeiro, Editora Zahar.

31.8.16

A MARCA DA MÃE: O DESAMPARO E O AMOR SEQUESTRADO


A trajetória de nós seres humanos, não é simplificada, justamente por oferecer um caminho de infinitas possibilidades, com conservas culturais e zonas de conforto idealizadas pela própria sociedade, que ofusca à visão do indivíduo frente a si mesmo, no enfrentamento de suas próprias adversidades.
Metaforicamente, o desamparo é um amor sequestrado, que leva o indivíduo às angústias vinculadas à perda do seio materno, que faz alusão ao luto, numa textura de cor escura, preta como a depressão grave e branco como os estados de vazio. O que conduz a refletir a respeito, que o desmame precisa ser contemporâneo à apreensão da figura materna quanto objeto total e implica que o processo de desligamento do cordão umbilical simbólico, entre a criança e a figura materna tenha se realizado de forma saudável.
A separação saudável deve dar lugar à criação de uma mediação para paliar os efeitos traumáticos da ausência e elaborar a integração no interior do ego da criança. Essa mediação constitui subjetivamente o quadro materno como estrutura enquadrante, em outras palavras, a imaginação da criança simboliza a figura materna internamente, possibilitando lidar com o mundo externo.
 A partir dessa agudeza, quando o processo de rompimento, que deveria ocorrer naturalmente no tempo em que a criança se sentisse suficientemente acolhida, segura e confiante para buscar novos objetos de interesse, torna-se uma passagem incompreensível e traumática, levando à criança a eliminar a figura materna que estava em processo de simbolização, introjetando uma mãe morta à sua vida psíquica.
Na perspectiva de Green (1988), o afastamento e falta de interesse materno, surge uma perda de sentido que regerá a criança a assumir medidas drásticas, como desenvolver indiferença ante o mundo externo e identificação inconsciente com a mãe melancólica, desenergizada. A estrutura do complexo de mãe morta nos revela uma característica do funcionamento psíquico, quando o retrato interno que estrutura o narcisismo – partindo da gradativa separação materna – não se manifesta, pela ausência da mãe, a vida psíquica se transforma em uma lacuna, vazio impreenchível.
O que fortalece a reflexão de que a ausência de composição de um pano de fundo que suporte as representações e simbolizações abandona a criança à mercê de um mundo constituído de objetos internos peculiares e sem vida que não podem se vincular entre si e preencher o seu mundo afetivo. Nas palavras de Simon (1933, p.73):
“Conforme mudam as relações do objeto, mudam os conteúdos da angústia e mudam os mecanismos de defesa. É claro que, entre todas as condições, é a capacidade do ego de tolerar angústia que vai determinar sua possibilidade de estabelecer relações com o objeto total” (SIMON, 1933, p.73).

Diante dessas premissas, percebe-se que desde o nascimento até o segundo terço do primeiro ano de vida, a libido (interesse) da criança se concentra quase que exclusivamente na figura materna. No entanto, as consequências da ausência do vínculo da figura paterna são tão mais graves quanto à ausência da figura materna.
Das contribuições de Martino (2012, p. 66):
A presença do pai, a princípio, se faz importante enquanto ideia no interno da figura materna, entretanto essa experiência simbólica carece do encontro com o “outro real”. Não se pode criar uma imagem interna sem um representante no mundo externo (MARTINO, 2012, p. 66).

Na clínica, o indivíduo poderá reviver esse complexo de mãe morta, na tentativa de reorganizar o seu mundo interno. Para isso, é importante que o analista seja continente, vivo e atento à dor interna que o paciente traz. Entende-se que um analista morto que não é capaz de ser continente também não será capaz de receber conteúdo algum trazido pelo analisando. Acolher o conteúdo coincide com receber a demanda do que no real compete ser ensinado, para levar a idealização fragilizada com a mãe morta, para uma compreensão simbólica de uma mãe que, dentro da sua capacidade, pode proporcionar certa afetividade, por mínimo que tenha sido (MARTINO, 2011).
A psicanálise, norteadora da reflexão até nesta ocasião, não oferece uma resposta finda, mas encoraja o pensar, que é primordial, para que o analista não se torne um analista morto: “por mais tentado que possa se sentir o analista a se tornar o educador, o modelo e o ideal de seus pacientes, qualquer que seja o desejo que tenha de moldá-los à sua imagem, ele precisa lembrar-se de que esse não é o objetivo que procura atingir na análise e até de que fracassará em sua tarefa entregando-se a essa tendência” (ZIMERMAN, 2004, p.86).
Por mais que as técnicas e métodos de intervenção sejam eficazes, nada pode sobrepujar o contato de uma alma humana com outra alma humana (JUNG, 1961-1975). O que nos revela que não basta dominar as técnicas se não existir a “presença sensível” do terapeuta: estar atento ao que acontece nas sessões e corroborar com o cuidado para que a genealogia criativa de cada paciente se estenda. O que a psicanálise se propõe em análise é privilegiar a singularidade de cada analisando e o pundonor de seu sofrimento.
Torna-se propício volver ao conceito de Klein (1957-1974) a respeito de a importância da presença e, consequentemente, a ausência da mãe na primeira infância. O instante em que a criança deve esperar pela saciedade da fome, pelo “estar acolá” da figura materna e todo o ambiente proporcionado por ela.
Está ausência é o tempo saudável, imprescindível, ecúmeno, e que se fará necessário na configuração analítica. Não se discursa acolá o desamparo, mas as ocasiões adequadas para que o analisando reflita a partir desta ausência. Relembrando ou construindo experiências em que logo, empós certo tempo, possa sentir (recordar) os cuidados da análise e, por fim, simbolizar todo processo analítico.
Simbolizar é remeter-se ao real na ausência deste (KLEIN, 1967-1970). Constitui-se “daquilo que permite estar ligado ao ausente” (MARTINO, 2012, p. 43). Só podemos simbolizar quando estamos suficientemente protegidos, confiantes de que o real volverá para nos acolher. Winnicott (1979-2007, p. 34) acrescenta que “a capacidade de ficar só depende da existência de um objeto bom na realidade psíquica do indivíduo”, caso esse indivíduo tenha identificado com a mãe morta, poderá, na análise, reorganizar esse objeto, dando um novo sentido ao enfrentá-lo e observar com o olhar de reconhecimento.
A perspectiva traz à baila a figura paterna, que se estiver presente e quiser conhecer o próprio filho, esta é, certamente, uma criança de sorte e nas circunstâncias mais felizes o pai enriquece, de maneira abundante, o mundo do próprio filho.
Desta maneira, completamos com Winnicott (1957/[1979], p.130): “quando o pai e a mãe aceitam facilmente a responsabilidade pela existência da criança, o cenário fica montado para um bom lar”.
Este vínculo de afeto, onde afeta e se é afetado pelo outro, pode auxiliar o indivíduo em seu trajeto, no trato de si mesmo. Em concordância de que uma das coisas que a figura paterna suficientemente boa faz pelos filhos é estar vivo e continuar vivo durante os primeiros anos das crianças. O valor desse simples ato é suscetível de ser esquecido. Mas que serão forças pulsantes para que o indivíduo transforme de dependente a um ser independente, capaz de se relacionar consigo mesmo e com o outro.
Embora seja natural que os filhos idealizem seus pais, é também muito valioso, para os primeiros anos, ter a experiência de conviver com eles e de conhecê-los como seres humanos, até o ponto de os descobrirem.
Como percebemos, a criança traz angústia das quais, a mãe, mesmo abalada pela situação, deve velá-lo. O pai suficientemente bom, por sua vez, sente e participa da mesma dor, que inunda esse complexo processo, tentando elaborar os sentimentos invejosos gerados pela atenção da companheira, que se desloca dele para criança.
O indivíduo quando desinvestido motiva uma ferida interna, um buraco afetivo na relação com a figura materna e se repetirá, posteriormente, na incapacidade do sujeito de estabelecer e sustentar vínculos afetivos satisfatórios. Mas a psicanálise traz a possibilidade de repensar esse vínculo, dando possibilidade de pensá-lo e reorganizá-lo junto com o analista, para que o analisando possa energizar sua alma e reconhecer as novas formas de viver com essa dor interna.
Assim para que uma mãe não se torne uma mãe morta, será necessário que a figura paterna se faça um ambiente suficientemente bom, vivo, amando e confortando todos os medos e frustrações da mãe no cuidado com o bebê. Só assim, poderá se fazer um lar adequado para que a criança desenvolva toda sua potencialidade, tornando um adulto com um inconsciente mais próximo a realização.
A psicanálise propõe trazer à consciência aquilo que reprimimos, ou seja, tudo aquilo que nos traz incômodo e desprazeres (FREUD, 1917-1920/2010). Mas não se trata de masoquismo, e sim de uma maturidade emocional necessária à elaboração dos conflitos mais íntimos de nosso ser.
 É preciso capacidade e coragem de sofrer e entristecer-se para pôr fim transformar conteúdos vazios de significado em conteúdos que nos ajudem a suportar a falta de nossa satisfação, uma vez que, nem sempre nossos desejos serão realizados.
Por um caminho de amor, pelo afeto, cuidado e sensibilidade à vida, podemos amadurecer de forma segura, ainda que com angústias, a título de encontrarmos quem verdadeiramente constituímos e aprendermos a valorizar e reconhecer nossa subjetividade.


1.3.16

O ANALISTA E O ANALISADO: O SILÊNCIO NA ESCUTA PSICANALÍTICA


No penúltimo e, atualmente, último ano letivo de graduação, vem sendo enriquecido por sentimentos de medo, ansiedade, gratidão, ódio, felicidade e muitos outros. Há também as alianças, o aprendizado e outros atributos que vão se construindo nas experiências, que resultam na reformulação do eu-coletivo – esse que compartilhamos com o outro, que construímos através desse contato estupefato com o outro mágico.
É perceptível, para mim, o quanto venho aprendendo e reaprendendo na experiência com a clínica escola, especialmente com “meus” pacientes, mesmo tendo a consciência que não são meus, e fico muito feliz por isso, já que estamos caminhando juntos nessa troca de experiências.  A confiança que os pacientes depositam em você na terapia é excitante, nutrem em nós terapeutas iniciantes e/ou profissionais renomados, o desejo de buscar sempre mais o conhecimento e reconhecer nossas experiências vivenciadas. É fato que alguns pacientes procuram a terapia na tentativa de que você resolva a dor deles, outros na busca de encontrar um continente suficientemente bom, que possa ouvir ou simplesmente acolher o seu silêncio, quando acontece.
Em geral, a psicoterapia é procurada num momento de dor e angústia, quando o indivíduo já não sabe mais o que fazer com sua vida. A psicoterapia não é algo fácil de fazer, ela traz movimentos internos e externos, sem soluções prontas. Quando o processo terapêutico começa a se desenvolver, o analisado tem dificuldade em lidar com aquilo que traz em terapia. Muitas vezes estão acostumados a serem condenados por seus atos, por isso tendem a resistência ao tratar do que lhe causa dor. Por conta, mas não somente, da resistência, o analisado verbaliza a fala mais comum em terapia: não sei o que dizer. No entanto, como diz minha orientadora da linha psicanalítica, não saber o que dizer, não significa que não há o que ser dito.
A questão que venho propor neste texto é o silêncio no universo terapêutico, recordo-me que nos primeiros textos publicados aqui no blog, traziam a baila questões sobre o silêncio, e o quão importante é para nós analistas e para os analisados, no setting terapêutico, lidar com essa qualidade interna. Por ser um fato clinico inconteste, o silêncio tem sido abordado de forma distinta pelos principais teóricos da Psicologia e, em especial, da Psicanálise, sendo, deste modo, bastante diversificados os aspectos clínicos e epistemológicos alusivos à questão. No setting terapêutico nada pode ser displicente, nada é displicente.
Na Psicanálise a temática silêncio, à primeira vista, historicamente, nos remete, à resistência ao processo de mudança, por parte do paciente, e, tecnicamente, à intensidade dos não-ditos no processo de investigação clínica a partir da fala. A sua ocorrência durante o processo terapêutico emana de fatores variantes, sendo distintos também os papéis às quais acolhe, segundo o referencial epistemológico adotado pelo analista.
No ponto de vista de Cañizal, pesquisador das manifestações não-verbais na comunicação, assegura que “o que possibilita ou impossibilita a comunicação é, em última instância, o silêncio” (CAÑIZAL, 2005 apud PADRÃO, 2009, p. 93), preconizando que em um enunciado verbal se escondem “frases do silêncio” (CAÑIZAL, p. 95).
O que o autor retrata é que o silêncio nos conta uma história, tanto quanto a fala. Mesmo que o silêncio se apresente como resistência, delata territórios nos quais evadimos pisar e, assim, promove uma fresta para a manifestação do inconsciente. Nesse momento é que a interpretação do analista pode cooperar para um “se dar conta”, na tentativa de se proporcionar um sentido para o não-dito.
§  “Não seria justo [...] atribuir os resultados da psicanálise unicamente ao poder das palavras. Seria mais exato dizer que a psicanálise prova o poder das palavras e o poder do silêncio.” (REIK, 1926 apud NASIO, 2010, p. 19).

Um teórico Theodor Reik (1926), que lança o ensaio “No início é o silêncio” um dos mais antigos textos sobre este tema na psicanálise testemunha uma presença positiva do silêncio nas sessões de psicoterapia, tanto na perspectiva do âmbito do paciente quanto do analista.
§  Sim, o silêncio está presente no setting terapêutico e “seus efeitos são tão decisivos quanto os de uma palavra efetivamente pronunciada.” (NASIO, 2010, p. 7).
O peso que o silêncio é um acontecimento intrigante em psicanálise, por ser estar atrelada ao talking cure – a cura pela palavra.  Exemplo clássico é a analisada Ana O. que apresenta OLIVEIRA (2009):
§  Mas foi propondo a seu médico Joseph Breuer que se calasse, para que ela pudesse falar, que Anna O. descreveu o que Freud descobriria e confirmaria como o ponto de partida do processo analítico e sua definição – a qualidade da escuta (em silêncio) do analista, as associações do analisando, que propiciam a fala do analista. O silêncio do analista, atitude de sua abstinência e de sua escuta, instaura a possibilidade e a assimetria necessária no espaço analítico (OLIVEIRA, 2009, p. 118).

O silêncio do analista, caráter de sua abstinência e de sua escuta, instaura a possibilidade e a assimetria imprescindível no espaço analítico. Sabe-se que a psicanálise passou a existir da prática clínica freudiana com histéricas e que, a partir dessa clínica constituíram os conceitos fundamentais da teoria psicanalítica, ancorados na singularidade da escuta terapêutica. De acordo com a história, a psicanálise foi estabelecida a partir da constatação das faculdades terapêuticos da verbalização, o que abandonava o silêncio em uma posição de obstáculo à rememoração daquilo que jazia por trás do sintoma exposto pelo paciente. Em determinados momentos da prática freudiana procurava-se induzir o paciente a expor aquilo que não estivesse sendo dito, em direção à reversão do fluxo da associação livre e à catarse redentora do sintoma.
 Segundo (HENRIQUES, 2012 APUD GOMES, 2011):
§  Quando o silêncio se fazia presente na sessão era atribuído a fatores, em geral, cerceadores do processo analítico: ao retraimento do sujeito diante do analista, à censura diante de algum pensamento (recalque inconsciente), à dificuldade na transferência – como uma resistência à análise, ou à ação da pulsão de morte engendrada pelo aparelho psíquico (HENRIQUES, 2012 APUD GOMES, 2011).

O autor apresenta, num contexto histórico, as principais conjecturas teóricas da psicanálise associados ao silêncio:
CENSURA – advinda dos conteúdos inconscientes, interrompe o fluxo da associação livre e dificulta o estabelecimento da transferência. Sob o enfoque da 1ª tópica freudiana, o silêncio-censura pode decorrer de uma falha no recalcamento de uma representação, um “vazio do recalque”;
RECALQUE – impede as representações inconscientes de emergirem em palavras, considerado, assim, na 1ª tópica, como a origem da resistência;
TRANSFERÊNCIA X RESISTÊNCIA – conjugação essencial para o processo de análise; o silêncio-resistência é visto como uma característica muito importante no manejo da transferência, por ser esta o instrumento fundamental na ação terapêutica;
MECANISMOS DE DEFESA – sob a 2ª tópica, o recalcado não opõe resistência à cura; o silêncio passa a ser visto como um mecanismo de defesa ao mundo externo ou à intervenção do analista, na busca de algum caminho que leve à consciência;
PULSÃO DE MORTE – age em silêncio - compulsão (repetição), sem representação no inconsciente, leva à inércia e não à vida. A manifestação do silêncio no psiquismo leva a dificuldades na capacidade de simbolização (GOMES, 2011).
Na psicanálise contemporânea, o silêncio de escuta é ponto de acinte da análise. O silêncio do analista se contrapõe à manifestação de suposto-saber que o analisando espera descobrir. Neste momento, o analista constitui-se como faltante, diante do analisando. É preciso estabelecer um jogo pulsional, Zolty descreve esse jogo como:
§  Ritmado no movimento do tratamento, ainda que o paciente questione ou se inquiete quando, por vezes, o analista parece afastar-se (ZOLTY, 2010).



O analista sabe que a escuta está além da palavra, a escuta do silêncio, promovendo a fala, para produzir início ao processo analítico. O acolhimento dos silêncios dos pacientes significa, por sobre tudo, lhes proporcionar uma escuta verdadeiramente analítica, que está para além do ouvir as palavras, que se determina pelo não-dito, pela comunicação entre o inconsciente do analisando e do analista. Nesta aclive, o silêncio do analista sustenta o “desejo de nada saber” a respeito de seu paciente ou ainda o lugar de mudez do analista – lugar do suposto saber – o qual é nada mais do que sinal de anuência tácita do discurso do paciente.
Em epítome, o discurso do paciente se estabelece por meio de uma comunicação préverbal e infraverbal, lugar da intersubjetividade. Em outros versos, sua função é a de ser um catalizador do discurso comunicado, compreendendo o seu sentido. Essa reflexão nos remete que não são as palavras pronunciadas pela voz que têm acuidade, mas o que nos diz quem discursa. O tom de sua fala se torna mais importante do que o que ele diz. O filosofo Sócrates contribui e encerra a primeira parte deste estudo:

“Fala, para que eu possa vê-lo”, disse Sócrates. (REIK, 1956 apud LAGAAY, 2008, p. 55).

Referências

ZOLTY, Liliane. O psicanalista à escuta do silêncio. In J-D Nasio, O silêncio na psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010.
LAGAAY, Alice. Between Sound and Silence: Voice in the History of Psychoanalysis. Original em inglês. ISSN 1756-8226. Freie Univesitat Berlin. Volume I (1), 2008.
BIRMAN, Joel. Estilo e Modernidade em Psicanálise. São Paulo, Editora 34, 1997
GOMES, Sérgio. O círculo de Viena: o silêncio na psicanálise I. Instituto de Medicina Coletiva da UERJ. Rio de Janeiro, julho 2011. Disponível em: Acesso em 7 out. 2012.
OLIVEIRA, Denise Cabral de. Silêncios: resistência e perlaboração, regressão e repouso. Artigo. Cad. Psicanál.- CPRJ, Rio de Janeiro, ano 31, n. 22, p. 117-138, 2009. Disponível em: , Acesso em 2 out. 2012. OLIVEIRA, Vânia Maria Rocha de; CAMPISTA, Valesca do Rosário. O silêncio: multiplicidade de sentidos. Sinais: revista eletrônica, Vitória, CCHN, UFES, n.2, v.1, p. 107-120, out. 2007.