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26.9.18

MAIS, AINDA AMOR


A vida é uma montanha de escombros. A arte de viver é justamente reconhecer o pior que existe em cada sujeito, para que seja possível desenvolver a capacidade de suportar ultrapassar a leveza do que tange a [des]ordem do amor.

O antagônico do amor é o ódio que se nega pelo outro, sendo ambos constituído por uma dupla face de um mesmo corpo que sustenta a atemporalidade ilógica da gravidade da vida, a força fraca e a força forte que endereça o sujeito em direção à experiência com o mundo externo, atravessado pela falta do outro.

A dança das cadeiras no que implica o relacionamento, é uma maneira pueril de negar a possibilidade de cair de joelhos pela incapacidade de suportar o que o amor oferece, a impossibilidade de caber na falta [demanda] do outro.

Amar não é simples, mas é uma belezura insuportável de sentir. O amor não causa desgaste, dor ou sofrimento. O que convoca o amor a sair de cena é o narcisismo desmedido, mas sem certa dose de narcisismo é impossível que o amor se sustente e atravesse a dupla amorosa. O amor nasce na capacidade de sustentar a frágil linha da singularidade.

Em última pontuação, completo a reflexão com uma implicação da psicanalista Ana Suy, “Amor é aquela coisa que, por vezes, quando sobra, é porque está faltando”.

Abraço,
Maicon Vijarva

29.10.17

DA ESCRITA À FALA: DESATAR PARA NÃO ADOECER




É difícil ultrapassar um pensamento que antecede à nós mesmos. Com certa frequência, nos debatemos na dor de existir, sem tomar qualquer atitude. O sujeito rende-se ao que lhe assegura [mesmo que imaginariamente], num trabalho braçal de criar meios de controle sobre à vida.

Planeja sua morte, onde repousar seu corpo sem vida e o que deixar para quem fica. O medo não é de deixar desprotegido os que ficam, mas de não ser lembrado por estes. Quer-se moldurar-se-a-si-mesmo, para que possa ser sempre lembrado. Mas a vida não pode ser captada pelas lentes de uma câmera, com a perfeição da psique humana. Retratos podem ser quebrados, fotos podem ser rasgadas, mas não há nada que possa apagar o que se inscreveu e se inscreve em nós.

O sujeito é denunciado pelo inconsciente através dos detalhes, pelas bordas da ação. Entre as palavras do poema, da poesia, do roteiro de um teatro, de um texto curto ao longo, da curta ou longa frase dita, do discurso menos elaborado ao erudito. Ele sempre nos atravessa. Somos inocentes em acreditar que podemos ter algum domínio sobre nós mesmos.  O inconsciente é uma força que nos governa.

É nitidamente possível se habituar a viver mal, pela impossibilidade de tomar as rédeas da própria vida. Mas é possível se reinventar diante desse impossível que é desenhado pelo inconsciente. A arte em suas infinitas faces, nos apresenta um movimento de criatividade frente ao acaso e a surpresa da vida.

Mas também existe a psicanálise, que nos propõe a ideia de movimento, oferecendo um lugar para que o sujeito trabalhe duro para criar um saber a respeito de si mesmo e, assim, poder dar cor a sua existência no real e fazer as pazes com esta força selvagem, pode se haver e se responsabilizar com o que lhe impede de caminhar.

A única maneira de viver no real é se reinventando atravessado pela fantasia. Na fantasia o sujeito dá cor ao real. É preciso saber o que dói, para que se possa entender do que se trata e aprender a fazer algo com esse sentimento. É repetindo que se constrói um saber. É preciso pensar a respeito do que nos causa, para que seja possível ser criativo e não arriscar a ser iludido por algo que nos petrifica e nos deixe à mercê do destino.

O sujeito escreve para compreender o que lhe habita, fala para poder se ouvir e construir meios para fazer algo novo com o antigo que se repete. Em ambos os tempos criativos [escrita e fala], faz-se necessário que exista um Outro humano [ignorante das certas] que possa ler e ouvir. É pelas vias do amor que se faz possível [re]pensar e [re]organizar o que não funciona em nós mesmos.

O sujeito passa a vida se concentrando no que funciona, tolerando a desordem que lhe habita. Fracassa-se na vida na vã tentativa de planejar a proteção uns dos outros e a de si mesmo. O medo que se cultiva não é do que se perde, mas do que ainda há de se perder pelo caminho.

Que atravessados pela arte, literatura e psicanálise não percamos a sensibilidade, a capacidade de se emocionar e de se permitir ser tocado pelo sofrimento do outro. Na simplicidade se desnuda qualquer que seja a estrutura intelectual mais sofisticada da palavra. Para se aproximar do que se pode compreender de natureza selvagem do ser humano, é necessário que nos desarmemos para desenvolver uma escuta que torne possível acessar [pelo discurso oculto] a estrutura que o analisante denúncia. 

Maicon Vijarva
Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica
📞 (17) 98151-6943
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