12.7.19

resto que permanece ressoa

Em seu pior momento da vida, encontrava-se em estado esgotável da natureza humana. Nesses agraves, necessitava deixar escoar até a última gota do insuportável de sua tristeza. Extenuado e sem qualquer ânimo, trajava o seu horror ao se colocar em convívio social. Não havia energia para opinar ou pensar nos adornos de amor próprio para seguir bem arrumado aos olhos dos Outros. Era só mais desserviço com ele mesmo, mais uma traição para conta. 

Perto demais de ser petrificado, foi capturado pela imagem dos passantes e vê em cada um deles o seu horror refletido. Pressentiu uma leve pontada de angústia no peito, achou que fosse um AVC. Para seu azar, não era. Em estado de vertigem, cobiçou embarcar em qualquer ônibus para mudar a rota e se livrar de tudo que estava alcançando. 

O sofrimento é mais latente e estranho de caber nas palavras, mas sabia que era respeitável apostar na criação de palavras para não enlouquecer em si mesmo. Era através desse esforço de se fazer dizer, que inventava laços para além do habitual. Necessitava do toque de um outro, alguém que pudesse oferecer um olhar mais amável e menos sufocante para escuridão. 

De dentro da tempestade é possível se fazer saber sobre o indomável de nós mesmos. Precisava embarcar no próximo ônibus, que indicava para direção da responsabilidade com a própria história, com o acaso e a surpresa que a vida trouxe e trará. Detalhes irão transformá-lo pouco a pouco, não por completo. O passado faz sempre presença, e sabe que caberá a ele fazer melhor com isso que se desenrola no depois que se escreve sem sua vontade. 

O ônibus chega, reluta aflito se será capaz de suportar o caminho. O medo de ser medíocre era mais ululante que fracassar. Desatento, entra e se senta com vontade de desistir. Acelerado, percebe lentamente o ônibus ganhar movimento, já não dá mais para fugir. Nem tudo está perdido, depois de uns tombos, perdas e lágrimas salgadas, pode-se saborear o amargo do saber que emerge de retalhos que ficam, na tentativa de criar coisa outra para se fazer existir. O resto que permanece ressoa certo mal-entendido, sensato contorno que implica desejo e um provável impulso para o próximo ato.
                                         
maicon jose de jesus vijarva
txt escrito para @aconfrariadostrouxas. 

5.7.19

diabetes: a doçura acumulada


Na alteridade do seu interior, ela sentia uma responsabilidade em viver. Embora a conta jamais fechasse, ela levava a vida sempre a se cobrar sob o grande olhar do Outro. Ainda que soubesse lá no fundo, confiava que esse outro não fosse a sua própria criatura, mas algo que fazia morada do lado de fora de si. Mulher profunda, uma grande menina sonhadora. A realidade sempre fora cruel, mas não mais que ela consigo mesma. Ela conseguia se ferir mergulhando de cabeça no ideal que a matava pouco a pouco. A religião foi sua aposta de volta por cima, na reviravolta que a vida sempre lhe trazia como oferta de ressurreição. No entanto, estava tão mergulhada nas palavras que soavam seguras da boca dos lobos vestidos de cordeiros, que o inquietante estranho que a habitava se transformou em inimigo declarado. A vida sempre fora injusta, mas ela não se poupou em fazer pior por si mesma. Escriva sobre si em fragmentos que ressoavam entre a carne, alma e o que imagina ser ou vir a se tornar. Tudo era muito profundo e ela insistia mesmo permanecendo por si mesma afogada em seu estomago, inundada pela doçura que economizava nos dias de vida. Havia muita doçura acumulada, ela não contava que essa mania obsessiva de acumular se tornaria uma diabetes mellitus tipo 1. As complicações foram de certa maneira uma espécie de alívio. A vida lhe era muito cara, e ela já não produzia mais insulinas criativas para sustentar o seu corpo simbólico. A vida nos exige e é necessário tolerar o cair do símbolo, para que o simbólico se reproduza de outras maneiras menos sorrateiras no corpo que tenta recitar palavras que ainda não existem.

um abraço, 
Maicon Jesus Vijarva

2.7.19

DIAS COMPRIMIDOS

Desabraçar o que mais se amava, às vezes é a forma mais lúcida de amar. Não se trata de uma questão de escolha, talvez seja mais por sobrevivência mesmo. Você certamente já deve ter convivido com esse assombroso sentimento de limite entre viver ou morrer simbolicamente. Talvez a saúde física seja mais consequência de alguns não que aprendemos a dizer mesmo com medo de que tudo desmorone. 

Dizer não dói na pele, faz furo impossível de tamponar por toda alma, ressoa os equívocos no simbólico do corpo. Esvazia dos excessos. O dizer velado nessa palavra minúscula não é qualquer, tem peso e medida, e há o risco de que tudo escorra pelo ralo no mal-entendido que ecoa em som pesado no próprio ouvir e no ouvir do outro. 

Recuso ficar adormecido, tudo na vida tem limites. Viver dias compridos e tentar comprimir a realidade deixando-a minúscula com os efeitos desse comprimento positivista e passivo é o atentado mais massacrante que pode-se tentar contra si mesmo. A vida não tem nada de bela, mas desejar não sentir a dor socando goela abaixo uma substância não tornará a vida mais bela mas mais ainda o pior do seu horror. 

Prefiro continuar a ser esquizofrênico por inventar uma realidade paralela ao ter que me sujeitar a esmagar os meus dias em comprimidos que dizem poder salvar-me de mim mesmo. Isso é blasfêmia. A vida urge e exige de cada um de nós o mínimo: aprender a falar do que dói, e não onde dói; a tentar dizer mesmo que não existam palavras. 

Se fomos tão criativos em criar um comprimido que alivie o sintoma, podemos muito bem aprender a salvar a nós mesmos através dos mal-entendidos que aprendemos a ouvir quando aprendemos como falar melhor para nós mesmos e, como consequência, também para o outro. 

Talvez, mas talvez mesmo... a análise seja para o psicanalista a aposta de que o sujeito aprenda nos dejetos de sua fala endereçada ao analista, aprender a falar com o que resta do dejeto da fala faltante do seu vazio. E meu caro, o que resta é sempre o pior, e haja sabedoria para criar desse lugar.

Maicon Jesus Vijarva

21.6.19

O AMOR É SINTOMA QUE IMPLICA A FAZER MELHOR COM O PIOR


Querido amor, desde o dia que resolveu me deixar... eu fiquei sem equilíbrio nos pés para sustentar o caminhar. Estou cambaleando de cá para lá na esperança de tropeçar em ti e desmoronar em teus braços ao contornar a próxima esquina. Quero me despencar em pecado se for necessário para me deliciar da sua impureza. Será que alguém iria entender essa sacanagem que me faz ajoelhar todos os dias? Te amo a ponto de querer me tomar de ti para que não caia em tentação em se render aos meus desejos. Peço que venha, mas desejo que nunca diga sim. 

O meu fim constituiu em você realizar todos os meus caprichos e picotar a imagem que ficou de nós. As palavras viram carne quando ressoadas por mim, meus lábios espumam e vomitam sangue vermelho vida. Sinto-me tão miserável em parar meu mundo por esse sintoma que faz flashblack de um passado que sequer vivemos. Ei, meu amor... preciso te contar que estou abandonando a gente, deixei tudo no teatro em que nos conhecemos. Ou seria essa mais uma das minhas tentativas infrutíferas de ensaiar a despedida que nunca acontece? 

Caramba, o que tu levaste de mim que sequer eu mesmo tenha noção do que se foi com sua saída repentina? Certeza que o álcool te salvou das lembranças boas e permitiu que fosse homem o suficiente para partir sem que eu fizesse isso por você. Mas queria eu ter partido, porque esse era também o meu maior problema ao me confundir com ti. Nunca tenho coragem de partir por mim mesmo. O outro sempre se figura divino e me faz ajoelhar buscando perdão por erros que jamais empreendi. 

Por isso desejo em tão alto grau cair em tentação, conhecer a maldade que poupei por anos e que sorria para o mundo como bondade ao outro enquanto queria eu que todos experimentassem o que há de mais horroroso em cada um de nós humanos. Amar é tão abstruso que nos faz encarar de frente o nosso pior! Sorte foi a minha que tenha nos partido em vários pedaços e me deixado com o resto que ficou de mim para minha responsabilidade. 

O resto é sempre o processo mais caloroso que um ser humano pode trabalhar o seu próprio dejeto e reciclar o que ainda pulsa vida: a palavra que faz a carne viva sangrar pela boca na tentativa de fazer saber sobre o que nos amarrota a vida.

Maicon Jesus Vijarva

NADA SERÁ COMO DEPOIS

Ernesto Artillo
O amor faz presença não-toda, para amar é preciso fazer mais com o significante Eu te amo. Não se ama como a nós mesmos, se isso fosse possível seria catastrófico. Bem sabemos como amamos a nós mesmos: sempre da forma mais trágica por sermos apaixonados pela ignorância. Desse lugar-não-todo o amor instaura o Outro como fonte de implicações, de questionamentos. Quando se ama a ignorância se torna implicação, deixa de velar nossas fragilidades para colocá-la na mesa e servisse do horror de si mesmo enquanto se ama. Freud faz saber dessa questão quando diz que a demanda de uma análise é sempre de amor. O amor ensina o quanto gozamos mal, e que não amamos mal só o outro mas a nós mesmos. Amar não é dar limite mas reconhecê-lo ao ser somatizado pelo amor. Amar não é ver qualidades no outro, mas perceber que algo falha e que há uma enorme falta na estrutura dos amantes, que por tal existir inviabiliza tornar 1+1=1, e ainda sim fazer movimento para insistir nessa via de mão dupla que faz borrão e desencontros.

Amar é tarefa difícil, não amar é cataclísmico. Amar é desejar ser amado, embora se insista quando o outro falta. Mas o amor não se sustenta apenas pela falta de um, é necessário que o outro coloque sua falta em jogo. Quando ambos desejam amar, e não apenas ser salvo pelo amor do outro. Amar é ceder algumas vezes para compreender que o vazio do outro também precisa de amparo. Amar não se trata de amenizar o desamparo do outro, mas esse desencontro no encontro do amor possibilita tocar o mais criativo que existe, porque amar toca o que nos inquieta: a vida. Por isso que amar sempre beira o caos, é na ralação da experiência de inventar o amor que se aprende novas formas de amar a mesma pessoa e, mais ainda, a amar a si mesmo atravessado do que resta da experiência de insistir no amor. O outro nos salva de amá-lo como a nós mesmo, para que se possa reconhecer as novas formas de amar para além de nós, a do outro que nos possibilita conhecer o vazio e falta que nos habita e faz sintomas. 

Maicon Jesus Vijarva

12.6.19

Fevereiro - Matilde Campilho


Escute só, isto é muito sério.

Anda, escuta que isso é sério!

O mundo está tremendamente esquisito. Há dez anos atrás o Leon me disse que existe uma rachadura em tudo e que é assim que a luz entra, não sei se entendi. Você percebe alguma coisa da mistura entre falhas e iluminação?

Aliás, me diga, você percebe alguma coisa de carpintaria? Você sabe por que meteram um boi naquele estábulo ao invés de um pequeno rinoceronte? Deve ter tido alguma coisa a ver com a geografia. Ou com os felizmente insolussionáveis mistérios que só podem vir do misticismo asiático. Um boi é um bicho tão… inexplicável. Ainda bem.

O amor é um animal tão mutante, com tantas divisões possíveis.
Lembra daqueles termômetros que usávamos na boca quando éramos pequenininhos? Lembra da queda deles no chão?

Então, acho que o amor quando aparece é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo. Quando o vidro do termômetro se quebra, o elemento químico se espalha e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas. Mercúrio se multiplicando. Acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor.

Ah é! Eu gosto de você. A luz entrou torta por nós a dentro, mas, olha, eu gosto de você! A luz do verão passado quebrou o vidro da melancolia e agora ela fica se expandindo pelas ruas todas. Desde aquele outro lado do Sol até esse tremendo agora.

Hoje ainda faz bastante frio. As cinzas ainda não aterraram sobre as cabeças disfarçadas, tem gente batucando suor e cerveja pelas ruas de nossa cidade sul. Na cidade norte, há ondas de sete metros tentando acertar no terceiro olho dos rapazinhos disfarçados de cowboys.

[suspiro]

O mestre ainda não veio decretar o começo da abstenção e, olha, a luz ainda está conosco. Sim, o mundo está absurdamente esquisito. Já ninguém confia nas imposições dos prefeitos, a esta hora na terra é um tanto carnaval, um tanto conspiração, um tanto medo. Metade fé, metade folia, metade desespero. E, provavelmente, a esta hora, uma metade do mundo está vencendo e a outra metade dormindo, há ainda outra metade limpando as armas, outra limpando o pó das flores. Mas, por causa do que me ensinou o místico, eu acredito que exista, agora, alguém profundamente acordado. Alguém que esteja vivendo entre o intervalo tênue entre o sonho e a agilidade. Suponho que ele saiba perfeitamente que este começo de século será nosso batismo do voô para nossa persistência no amor.João molhou a testa de Manuel. Os gritos das ruas molham as testas de nossos corações.

De que lado você está, eu não me importo! De que garfo você come, de que copo você bebe, que posto certo você escolhe, qual é seu orixá, seu partido, sua altura, de qual de suas cicatrizes cuida, que pássaro você prefere, quem é seu pai, qual é seu samba, Pinot noir ou Chardonay, que protetor você usa, qual é sua pele, seu perfume, qual político, quantos amores você sonha, em que Fernando, em que Ofélia, em que cinema, em que bandeira, em que cabelo você mora, qual dos túneis de Copacabana. Rezo para seus santos quando atravessar.

É… é impossível viver no país de Deus. Isso eu te dou de barato. Mas, atravessar o gramado de Deus em bicicleta, isso não é impossível, não.

Escuta, isso é sério!

Andamos crescendo juntos, distraidamente. As árvores crescem conosco. Nossa pele se estende, nosso entendimento, teso, também. O século cresce conosco. O amor pelas ventas da cara do mundo, também.
Quanto a um pra um entre nós dois, isso logo se vê. Não sei nada sobre a paixão, suspeito que você também não. Mas, começo a entender que o compasso da fé está mudando a passos largos. Dois pra lá e dois pra cá.


Portanto, escute.
Isto é muito serio!
Isto é uma proposta aos trinta anos.

Agora que o mercúrio assumiu sua posição certa, vem comigo achar o meu trono mágico entre a folhagem. E, no caminho até lá, vem dançar comigo, vem!

Matilde Campilho - Fevereiro

31.5.19

O FIM CHEGOU ÀS AVESSAS

Nino Cais
Faz um tempo que nosso amor se transformou na fotografia nunca revelada do seu porta-retrato invisível que ficava na sua cômoda vermelho bordo. O seu quarto era de tom nublado, de uma frieza ímpar, mas de sons aconchegantes quando tu se fazia presente pelo desejo de ser querido. Detestava sua cortina de tom laranja brega, embora era ela que fazia mesclas de tonalidades incomuns daquele cômodo estreito mas proveitoso para nossos encontros amorosos. 

Estávamos sempre em desencontros mesmo que na ralação do amor que nos unia. Era belo mas apavorante como queria ser livre se prendendo as ilusões. As aventuras dos quartos dos hotéis deixavam marcas de excitação e desejo em alcançar o desconhecido que desses encontros se fazia existir. Engraçado é saber que o nosso hotel favorito tinha os tons bregas da cortina do seu quarto, e fazíamos amor pela manhã entrelaçados com a preguiça, com o desejo de permanecer ali mas com a insistência das obrigações do dia que ecoavam em nossos ouvidos. 

O café da manhã me bastava um cafezinho, e você sempre se empanturrava de tudo que o hotel nos oferecia. Não dá pra desperdiçar, você dizia... eu amo comer. Que bom, pensava eu. Não sinto fome, me alimento do nosso amor pela manhã. Mas às 10:00 me abasteço de um pãozinho e mais um café para saborear as lembranças de cada quarto daquele hotel, branco e canta a metrópole interior. Meu interior estará sempre cheio de ti, embora não mais de perto. A vida e minhas palavras às avessas que diziam vá, querendo que você ficasse, fizeram dança e fomos nos afastando. Mas há tanto de mim em você, que me faz lembrar as razões por te amar e te odiar tanto. 

A recepcionista do hotel tropeçou em mim enquanto caminhava solto em recordações pela rua, e me perguntou porque não tinha mais meus encontros com você no hotel. Disse para ela que estamos em desencontros, nos encontrando com novos amores. Ela sorriu, e me disse que a vida é uma loucura, que precisamos aproveitar o que nos faz bem zelando para não nos destruirmos com o fim de tudo que é bom. 

Sorri, e disse preciso ir. E tenho seguido a vida, insistindo, buscando tocar o que me inquieta, embora sempre chegue alguns minutos depois. Lacan estava certo em suas considerações, não há só desencontros com o amor, mas com o que nos faz desejar. Talvez seja a morte o momento de tocar e brincar com a imagem final desse quebra-cabeça.

8.5.19

MÃE IDEAL HEROÍNA NÃO EXISTE


A função materna é um dos papéis mais complexos que uma mulher pode assumir. Deixar cair o ideal nunca foi tarefa fácil para elas, ainda mais em nosso tempo. A problemática é que muitas mulheres defendem esse ideal que não somente elas, mas como seus filhos acabam por adoecer desse delírio coletivo instaurado. Amar, cuidar, zelar e tantas outros significantes são demandas que sufocam a mulher. Antes elas sofriam sem palavras, hoje elas podem fazer melhor com as questões com o ideal, desconstruindo-o com implicações sob suas experiências às voltas desse impossível no limite que a palavra oferece.

A mulher por ser não-toda pode ensinar aos homens o quanto é impossível de alcançar esse ideal que o homem vive a criar para dar sentido à vida. Sentido esse que não suporta tocar o real da realidade. Não há sentido na vida, o que há são possibilidades de significar os significantes que dela tocamos. Uma mãe aprende essa função na experiência com não-todo humano que toca seu ventre, toca seu coração, a sua vida. 

O sujeito sofre por querer alcançar um ideal que jamais poderá, porque sua história de vida e a própria vida implica um avesso ao ideal estabelecido. Os joelhos, cotovelos, testa, nariz e o corpo todo ralado são acasos e surpresas da vida para ensinar sobre o real, sobre o que é verdadeiro diante desse impossível existir. Os acontecimentos não são um impedimento, mas um aviso que a vida exige mais de cada um de nós.

A mãe não sabe que sabe de tudo isso, mas toca esse saber quando deixa cair o impulso de impedir que o filho nasça para o mundo com os tombos da vida. Ela não é uma mãe ideal por assim ser, ela está aprendendo sobre o próprio narcisismo a tocar o próprio mundo e aprender de novo a tocar o mundo do outro de um outro lugar. Lugar esse que jamais terá uma fórmula, receita ou qualquer coisa do gênero, senão pela experiência de estar sendo enquanto toca esse impossível do real: viver a vida.

Um abraço, 
Maicon Jesus Vijarva

22.4.19

192


A gente repara que está gozando mal, quando fisga o desejo de viver inundado de um sentimento que não cabe numa única palavra, é quase como estar à beira de uma grande perda e agir com indiferença apostando que nessa deriva estaríamos a enganar a morte. No entanto, ainda não se trata disso, mas é necessário insistir nessa escrita, mesmo que ela não leve a lugar algum. Embora sempre esteja movimentando para um não-lugar. O que se percebe na perda não é necessariamente sobre o corpo físico que se relaciona cotidianamente, é mais sobre o que ultrapassa tudo isso.

É sobre algo que coça a alma, faz barulho e toca o vazio, a falta. A sensação dessa coisa que talvez seja difícil de ser dita, se assemelha ao engolir em seco, que faz tremer o corpo e parecer que exista milhares de borboletas dentro do estômago querendo sair pela boca ou um grande bicho querendo nos devorar por dentro. 

Medo. Medo de perder, não o objeto em si, mas algo da ordem do simbólico que pode emergir na ausência desse objeto. Os significantes desse significado que implica a vida. A independência convoca a cada um a se haver com o desejo e a se responsabilizar pela própria castração. Essa última que puxa o tapete e que ao mesmo tempo causa inquietação, que toca o desejo e implica a insistir em inventar uma saída, um plano B. Que possa talvez ser apenas algo para proteger a si mesmo do superego.

É quase como estar frente ao amor da sua vida e ter que se despedir por não saber se haverá uma próxima vez. Cada beijo, cada afago, cada cheiro, cada abraço, cada momento são impossíveis de ser revividos. A vida nos mostra que há um avesso, e esse avesso cobra caro pelos desperdícios. Na análise se aprende muito sobre a própria castração e, mais ainda, aprende a fazer melhor com o tempo. É sempre no fundo do poço que se pesca a sonoridade dos dizeres do inconsciente. 

Quando se perde não se está perdendo só isso. Se perde muito mais do que se imagina saber de imediato. Quem aprende a perder, aprende não sobre a ganhar, mas a reconhecer o valor de um vínculo, de um laço. Seja ele com o outro ou consigo mesmo. É mais, é saber que a vida é uma aposta, e quase sempre se aposta muito pouco no próprio desejo. 

Mais ainda não é sobre isso, é sobre o desespero de aguardar enquanto acredita estar perdendo algo que não se sabe a dimensão desse laço dentro de si mesmo. É o desespero de se ver castrado diante da vida e ainda sim insistir num plano, numa saída.

192 provoca o desejo em viver melhor.
O inconsciente dá sinais, até demais. Desejar é coisa séria, requer fôlego e insistência. Não dá para ficar desperdiçar o tempo, mas é necessário ter cautela. 

Um abraço
Maicon Jesus Vijarva