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2.7.19

DIAS COMPRIMIDOS

Desabraçar o que mais se amava, às vezes é a forma mais lúcida de amar. Não se trata de uma questão de escolha, talvez seja mais por sobrevivência mesmo. Você certamente já deve ter convivido com esse assombroso sentimento de limite entre viver ou morrer simbolicamente. Talvez a saúde física seja mais consequência de alguns não que aprendemos a dizer mesmo com medo de que tudo desmorone. 

Dizer não dói na pele, faz furo impossível de tamponar por toda alma, ressoa os equívocos no simbólico do corpo. Esvazia dos excessos. O dizer velado nessa palavra minúscula não é qualquer, tem peso e medida, e há o risco de que tudo escorra pelo ralo no mal-entendido que ecoa em som pesado no próprio ouvir e no ouvir do outro. 

Recuso ficar adormecido, tudo na vida tem limites. Viver dias compridos e tentar comprimir a realidade deixando-a minúscula com os efeitos desse comprimento positivista e passivo é o atentado mais massacrante que pode-se tentar contra si mesmo. A vida não tem nada de bela, mas desejar não sentir a dor socando goela abaixo uma substância não tornará a vida mais bela mas mais ainda o pior do seu horror. 

Prefiro continuar a ser esquizofrênico por inventar uma realidade paralela ao ter que me sujeitar a esmagar os meus dias em comprimidos que dizem poder salvar-me de mim mesmo. Isso é blasfêmia. A vida urge e exige de cada um de nós o mínimo: aprender a falar do que dói, e não onde dói; a tentar dizer mesmo que não existam palavras. 

Se fomos tão criativos em criar um comprimido que alivie o sintoma, podemos muito bem aprender a salvar a nós mesmos através dos mal-entendidos que aprendemos a ouvir quando aprendemos como falar melhor para nós mesmos e, como consequência, também para o outro. 

Talvez, mas talvez mesmo... a análise seja para o psicanalista a aposta de que o sujeito aprenda nos dejetos de sua fala endereçada ao analista, aprender a falar com o que resta do dejeto da fala faltante do seu vazio. E meu caro, o que resta é sempre o pior, e haja sabedoria para criar desse lugar.

Maicon Jesus Vijarva

3.8.17

CAMINHOS E PERCALÇOS DO CORPO: SUJEITO DO DESEJO EM MOVIMENTO

Dance II - Henri Matisse - 1910

A técnica e a expressividade são questões muito intrínsecas aos debates em dança. Embora exista ainda a tendência em considerar a dança um movimento direto e espontâneo de manifestação das emoções no intenso e árduo da elaboração/criação para aproximar-se à expressão de sentimentos e afetos pela dança.

Nesse processo de elaboração dos movimentos, equivale ao despertar para realidade, para encontrar uma forma de transformar a angústia imobilizadora em criativa; a rigidez em flexibilidade; a moral da necessidade em ética do desejo, através do movimento do corpo em dança.

A pulsão de vida e de morte estão intrínsecas nesse processo de elaboração do suposto corpo que se enxerga antes, durante e após a dança. Freud (1906-1909) descreve que tanto a arte e a literatura moderna se ocupam predominantemente dos mais delicados problemas, que envolvem todas as paixões, que encorajam a sensualidade e a ânsia do prazer, o desprezo de todos os princípios éticos e todos os ideais. Elas apresentam ao espírito do leitor figuras patológicas, problemas psicopático-sexuais, revolucionários e outros mais, nossos ouvidos são estimulados e superexcitados por uma música ministrada em grandes doses, importuna e ruidosa. 

A arte é uma possibilidade de expor o que somos de forma menos caótica ao outro. Através da sublimação¹ o sujeito pode pela dança canalizar seus instintos à margem do padrão social, para um movimento que traz uma linguagem que transmite uma reflexão para quem está observando, faminto por algo que capture todos seus sentidos, excitando e desnudando à alma.

O lugar que o texto propõe sustentar é a questão psíquica da imagem corporal no autoconhecimento pelo corpo, que é submetida à transformação/elaboração do não-dito, que se expressa pela associação livre da palavra e do não-corpo, que se inscreve, escreve e descreve em sua temporalidade e no espaço através de movimentos muitas vezes sutis à distração.

Recorrer à psicanálise é importante para investigação de passagens que não minimizem a condição fundante da imagem que se tem de si mesmo e refletir a respeito de um corpo diante à dualidade em que está submetido: o espelho matéria e espelho do olhar do outro, que demarca uma limitação real do corpo-movimento que se vê e é visto. 
“Sem ter como se esconder frente ao imperativo dos movimentos corporais escancarados no campo de visão de quem dança e de quem ensina dança, o corpo não consegue trapacear, ele é seu início e próprio limite”, Braga (2014). 

Deste modo, este texto busca refletir a linguagem do corpo não-dito ao corpo que se diz em dança sob à luz do olhar psicanalítico, um movimento de estranhamento sobre esse corpo que se constrói, descontrói e ressignificar na trama cotidiana das relações com o outro, na tentativa sustentar a ética do seu desejo.

A linguagem tornar-se-á espaço para reflexão sobre o corpo como uma possibilidade de sublimação dos instintos humano, para produção do fazer artístico em dança, que aborda a expressão da imagem do corpo na dança a partir de uma leitura psicanalítica, ao considerar que os corpos se lançam em movimentos por não poderem se dizer única e suficientemente em palavras, desenhando, assim, trajetória no espaço. 

No terreno da arte e da vida, em que há muito para falar, mas, muitas vezes, não existem vocábulos que possam sustentar o que o corpo deseja exprimir, a dança apresenta-se como alternativa para expurgar pela via da expressão, conhecimento e reconhecimento de si próprio e do outro. O que traz movimento ao corpo que dança e ao sujeito que se escreve, inscreve e descreve em sua temporalidade e no espaço?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREUD, Sigmund (1906-1909). Obras completas, vol. 8: O delírio e os sonhos na Gradiva, Análise da fobia de um garoto de cinco anos e outros textos; trad. Paulo César de Souza – 1 ed. – São Paulo.
BRAGA, Cristina Santaella (2014). Psicanálise, Dança e Educação: Caminhos e percalços.
VIJARVA, Maicon (2017).  A Nova Dinâmica do Eterno: Sujeito do Real ao Virtual (Clique aqui).
FORBES, Jorge. Artigo publicado na Revista Psique - número 51, março 2010 Link direto do site do autor: (Clique aqui).
________________________
¹ Sublimação: processo em que a energia ou impulso sexual (libido) é direcionada para atividades com valor social aceitável.

26.4.17

SOBRE PULSÃO SEXUAL E VIDA SOCIAL


A pulsão sexual foi a primeira subversão freudiana, citada no artigo MORAL SEXUAL ‘CIVILIZADA’ E DOENÇA NERVOSA MODERNA (1908). Nele, Freud utiliza-se de um elemento fundamental, abordado em sua obra anterior, TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE (1905), para sustentar a distinção conceitual entre instinto e pulsão. Segundo Coutinho (2013), “trata-se da falta de conexão unívoca, na sexualidade humana, entre a pulsão e a atividade reprodutora, que constitui a dimensão essencialmente autoerótica da pulsão”.

O que podemos confirmar em Freud (1908): “perspectivas mais amplas se abrem quando consideramos o fato de que a pulsão sexual do ser humano não está em sua origem a serviço da reprodução, mas sim que tem como meta determinadas variedades de obtenção de prazer”. A realidade contemporânea revela uma sociedade que está vivendo uma época de repressão da pulsão sexual, em que o sujeito sente culpa em investir sua energia sexual em algo que fuja do ideal social, do consumo desorientado.

Ao reprimir o desejo ligado ao cunho sexual – pensemos aqui para além do prazer centrado na área genital –, citado por Freud (1905) em TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE, que descreve o movimento do sujeito para se vincular ao outro se estrutura a partir da pulsão sexual, numa tentativa de desenvolver sua subjetividade em conjunto de +1, ou seja, entre o sujeito e o outro.
Em sua reflexão da teoria da sexualidade, o pai da psicanálise instaura um corte conceitual, nomeado de pulsão, sendo uma concepção dualística de vida e de morte, que sustenta um mecanismo de movimento do sujeito, inato a sua existência. Freud (1920) descreve as pulsões sexuais de forma simples e com uma amplitude atemporal:

As pulsões de vida [leia-se: pulsões sexuais] têm muito mais contato com nossa percepção interna, surgem rompendo a paz e constantemente produzindo tensões cujo alívio é sentido como prazer, ao passo que as pulsões de morte parecem efetuar seu trabalho discretamente. O princípio de prazer parece, na realidade, servir às pulsões de morte (Freud, 1920).

O conceito freudiano nos leva à expansão de que sob o domínio da moral sexual cultural, a saúde e a capacidade vital do indivíduo seriam fragilizadas, e que seus ultrajes, causados pelos constantes sacrifícios a eles impostos, alcançariam um nível tão elevado que comprometeriam todo objetivo cultural final contemporâneo.

Sob esta perspectiva podemos perceber um crescente nervosismo moderno, fruto do desequilíbrio da relação entre a pulsão de vida e de morte, sobre o qual Freud já nos alertava em sua época, e agora, em passo acelerado, torna-se metástase na sociedade contemporânea. Tal circunstância faz antagonismo entre constituição e exigência cultural, causa dos sintomas do sujeito moderno.

A forte oposição de ideias constitui uma estrutura familiar em que todos os membros são doentes dos nervos, a velar o idealismo de ser mais do que podem ser pela sua origem. O desejo de ser robusto ao olhar do outro faz com que o indivíduo patriarca da família cobre dos seus filhos elevar-se a um alto nível cultural. Os desejos recalcados dos pais trazem à consciência a esperança de se realizarem através dos filhos.

Assim, a moderna vida civilizada causa de modo desenfreado uma ansiedade crescente. As exigências feitas à capacidade de luta pela sobrevivência aumentaram sensivelmente, utilizando as duas forças intelectuais, exclusivamente para sustentar essa existência: pulsão de vida, pulsão de morte.

Freud (1906-1909) complementa:

Ao mesmo tempo, as necessidades do indivíduo, as exigências de fruição da vida cresceram em todos os círculos, um luxo inaudito disseminou-se em camadas da população que antes o desconheciam; a ausência da religião, a insatisfação e a cobiça aumentaram em amplos círculos do povo; graças a comunicações, que atingiram crescimento incomensurável, graças às redes de fio do telégrafo e do telefone, que envolvem o mundo, as condições do comercio mudaram inteiramente: tudo se faz com pressa e agitação, a noite é utilizada para viajar, o dia, para os negócios, até mesmo as ‘viagens de lazer’ tornaram-se fadigantes para o sistema nervoso; grandes crises políticas, industriais e financeiras levam sua agitação a esferas da população bem mais amplas; tornou-se generalizada a participação na vida política: lutas políticas, religiosas e sociais, as lidas partidárias, as campanhas eleitorais, o desmesurado aumento das associações inflamam as mentes e obrigam os espíritos a envidar esforços sempre novos; a vida das grandes cidades tornou-se cada fez mais inquieta e refinada.

As investidas esquizofrênicas da sociedade são inúmeras, e levam os nervos exaustos em busca de recuperação em estímulos exacerbados, em prazeres bastante condimentados, entediando e estagnando o sujeito cada vez mais.

Freud (1906-1909) descreve ainda que as pulsões de vida e de morte estão tão intrínsecas no sujeito que o delírio se torna o seu mundo paralelo de refúgio. Tanto que a arte e a literatura moderna se ocupam predominantemente dos mais delicados problemas, que envolvem todas as paixões, que encorajam a sensualidade e a ânsia do prazer, o desprezo de todos os princípios éticos e todos os ideais. Elas apresentam ao espírito do leitor figuras patológicas, problemas psicopático-sexuais, revolucionários e outros mais, nossos ouvidos são estimulados e superexcitados por uma música ministrada em grandes doses, importuna e ruidosa.

A psicanálise faz alusão a uma série de perigos em nossa evolução cultural, e é possível expandir sempre mais a reflexão sobre ela a partir dos conceitos freudianos. São facilmente perceptíveis as estreitas relações que a doença nervosa tem com a vida moderna, como a desenfreada busca por dinheiro e posses e os tremendos progressos na área técnica, que tornaram ilusórios todos os empecilhos temporais e especiais às comunicações.

O modo de vida de inúmeras pessoas “civilizadas” apresenta, na contemporaneidade, uma quantidade de hábitos anti-higiênicos à alma. Tais hábitos fazem com que o sujeito se prive na intensidade dos seus sentimentos e, em alguns casos, perca a sensibilidade e a identificação do símbolo de cada sentimento. A doença dos nervos oferece um desequilíbrio do sujeito, em que os valores perdem o significado, confirma-se o desmerecimento com o próximo, a generosidade a cada dia vai se extinguindo diante do vazio.

Para que o sujeito possa reconhecer alguns sentimentos é imprescindível que seja tocado por emoções que o levem ao corte entre a rigidez externa e interna, para que possa revelar a sua causa, sintomas. São nos momentos mais miseráveis que o sujeito reaprende a valorizar, respeitar e sentir compaixão por si mesmo e pelo outro.

As reflexões aqui são um ensaio de expansão do pensamento, não um saber absoluto. O intuito é transmitir um efeito/causa que desperte o corpo para o movimento do pensar o que não está em harmonia, interna e externa, do sujeito contemporâneo.


20.3.16

SOBRE A INVEJA: UMA VISÃO PSICANALÍTICA


Em algum momento da jornada do viver, por ligeiro instante seja, observamos ao nosso redor e nos pegamos em flagrante interrogando sobre certas circunstâncias da vida humana. Por assim ser, reflito, na ocasião, sobre os aspectos da inveja.
Muitos amigos e pessoas do cotidiano articulam em alto grau sobre essa questão tão intrínseca ao humano. Alguns de feitio irônico, outros amedrontados e aterrorizados por não sentir apreço algum sobre o sentimento de inveja.
O apreço que falo é ser capaz de pensar sobre tal sentimento, consciente de que é inato ao ser humano. O psiquiatra e pensador Jung (1983) afirma que a sombra é o que nos torna humanos e que o mal (o não adequado socialmente) é imprescindível para a completa harmonia psíquica.
De acordo com o pensador, fica claro que todos nós temos uma sombra e, quanto menos ela for incorporada, mais intensamente negra e enfadonha ela será, se desenvolvendo em plano inconsciente, com ressentimento reprimido.
Lidar com os aspectos da sombra, pode nos possibilitar a adequada harmonia com os instintos e, com o modo com que as suas manifestações serão controladas por nós coletivamente. É infactível erradicar a sombra, devido seu conteúdo ser projetado de forma intensa e irracional, positiva ou negativa sobre o próximo. Por isso que, em sua essência, admitir a sombra é romper com a influência compulsiva e se abrir ao crescimento de si mesmo. Estes são ensejos que ajudam a tornar o mote inveja um tanto que abstruso e quase sempre pouco compreendido.
Para a psicanálise a inveja, a priori, é um impulso ocasionado pelo ódio, inato ao sujeito, desde a puerícia. Já para a filosofia a inveja é a odiosidade que afeta o sujeito de tal modo, que ele se entristece com a felicidade do outro, e o adverso, se alegra com a infelicidade do mesmo.
Nota-se que o sentimento de inveja cunha impulsos negativos com a intenção de aniquilar ou usurpar os bens de outra pessoa, para abrandar uma pulsão de infelicidade do invejoso. Desta forma, a inveja é o ódio que se energiza, podendo de tal modo ser considerado um sentimento. Este sentimento se intensifica quando o ser humano se sente desestabilizado, devido ao complexo de inferioridade em relação a um ou mais ser humano.
Klein (1882-1960) em seu ensaio Inveja e gratidão (1947) utiliza de uma fábula para elucidar o funcionamento da psique daquele que vivencia veementemente o sentimento de inveja.  A fábula narra a história de certa ocasião, em que um homem extremamente invejoso de seu vizinho, recebe a visita de uma fada, que lhe dá a possibilidade de realizar um único desejo, então disse a fada ao homem: peça o que desejar, desde que seu vizinho receba em dobro. O invejoso em seguida responde: quero que lhe arranque um olho.
A moral da fábula é nítida, o prazer do ser humano em ver o seu próximo se prejudicar prevalece sobre qualquer desejo de benefício pessoal. Não é preciso ir muito longe, na perspectiva do pensar, para chegar à conclusão da psicanalista Klein (1882-1960) de que a inveja é uma característica poderosíssima na erosão das raízes do sentimento de amor e gratidão, de modo a afetar a relação mais ancestral de todas: a relação com a figura materna.
A voracidade radical da manifestação da inveja é o seu impulso destrutivo, por levar o sujeito a incidir e destruir o objeto bom, cujo introjeção é o alicerce do funcionamento psíquico. Esse afeto, por nem sempre ser consciente, inibe a assimilação de experiências boas e, deste modo, a possibilidade de integração com a psique.
De acordo com a autora, a inveja não é produto da decepção ou frustração, ela é parte da vida psíquica do sujeito desde a tenra infância independente das atitudes da figura materna e do seu ambiente oferecido. Pelo adverso, a inveja emana do próprio sujeito, sendo sentimento endógeno. Em contrapartida, para Winnicott a inveja é fator secundário, proveniente de uma falha na elaboração do ambiente, sendo a relação mãe-bebê fator primordial para acolher o sentimento de inveja da criança, contribuindo para uma boa resiliência do sentimento de inveja.
De acordo com esta tese, invejamos o seio materno que nos alimenta e acolhe desde pequenos. A fantasia de que o objeto bom e reconfortante não nos pertence surge acompanhado ao sentimento de impotência. Assim faz-se importante, em epítome, que o indivíduo seja capaz de compreender que a inveja é inata a sua persona, e a aceitação deste sentimento poderá ajudá-lo a evoluir esse sentimento para o reconhecimento e construção de si mesmo, assim o que é do outro, não será mais interessante do que suas realizações, o seu interior.

21.3.15

Na ausência da fala

Em meados dos últimos anos de faculdade, muitas pessoas passaram em minha vida. Ouvi professores, desconhecidos, orientadores, pacientes, amigos de faculdade, de trabalho e me ouvi. Mas muitas dessas pessoas falavam comigo pelos olhos, emitindo uma vibração de pensamento de alma para alma. 

Em nossa vida, há aspectos que não conseguimos externalizar na fala. Algo que não pode ser dito, mas talvez sentido pelo toque ou imaginado pela ausência da fala. Ficamos muitas vezes apreensivos, sob o olhar do outro, se seremos julgados, rejeitados ou ignorados. Antes de todo esse sentimento vivenciado pelo Eu-Externo, o SuperEgo já nos corrói e nos pune por dentro. Ou seja, ficamos amedrontados com o Outro que criamos dentro de nós, deixando de perceber o que esse Outro realmente é. 

Cometer erros é o que nos faz humanos... é como nós aprendemos, é como encontramos alegria. Mas alguns erros fazem comunhão com a culpa e isso é o que nos adoece. Ou seja, sofremos por antecipação, numa perspectiva imaginária. Talvez pensar sobre a dor faz com que possamos elaborá-la e desfazer as pazes com a culpa. Entretanto, não podemos ficar estagnados sob a latência do que é pessimista. Há uma dor saudável e enriquecedora, que nos faz crescer, evoluir. 

A presença do Outro é essencial para construção da nossa identidade. Não somos os mesmos de 10 segundos atrás, estamos sempre mudando. No entanto, não deixamos nossa essência por fazer novas escolhas, assumir um erro ou reformular toda uma vida. Não há identidade estável, ela muda conforme nos relacionamos com o Outro, esse que é tão essencial a nós, quanto para às realizações individuais. Realizar-se com o Outro é muito valioso para nossa saúde psíquica. O individualismo gera conflitos internos que adoece a consciência, trazendo mal-estar para o corpo e a psique.

É por issoque independentemente se somos analistas ou não, devemos estar sempre atentos e ser o mais acolhedor possível, proporcionando um ambiente suficientemente bom para que quem é ouvido sinta-se  seguro em ser a nosso lado, que possa pensar sobre seus erros, refletir sobre a culpa que sente, para então externalizar a fala oculta e se libertar do sentimento repressores.


Quando o ser humano for capaz de ouvir seu semelhante, sem medo de perder tempo, certamente não haverá mais ressentimento, culpa ou guerra. Haverá mais sensibilidade, afetividade e gentileza entre nós, humanos.



9.3.15

O Analisado: Uma Visão Bilateral do Analista-Analisado

Realmente parece simples ouvir ou falar, no teórico, porém na prática é totalmente diferente e difícil. Venho pensando muito sobre essa questão. Afinal, como falar se também desejamos ouvir nosso analista? Saber por menos que seja, algo dele, que seja repartido. Por que só eu devo falar? Talvez muitos vão dizer: a resposta é simples, você quem procura ajuda, e assim quem fala é você. Mas se não for o caso de querer ajuda, e sim de um estudante de psicologia que precisa apenas de supervisão, para manutenção de sua vida psíquica? São perguntas muitas vezes sem respostas, ao menos de imediato.

A realidade é que ficamos curiosos em saber como é a vida de quem nos ouve. Quando assumimos o papel de analisados, ficamos inseguros em falar sobre quem fomos/somos nós. Já que no cotidiano omitimos muito sobre tais características, ou até mesmo respondemos somente o que nos é perguntado. O que é normal, instinto de preservação.

Todavia, quando estamos em terapia, queremos falar ao mesmo tempo em que queremos ouvir. Penso que o ideal analisado é o paciente que vivencia seus sentimentos, seus impulsos e medos em terapia. Numa reflexão mais rasa, serão esses sentimentos que nos ajudará a evoluir nossos estados reprimidos, processando-os e dando corda a novas possibilidades. No entanto, quando aprendemos como usar as ferramentas em terapia, o papel de analisado se torna ainda mais difícil. O sentimento de insegurança se torna ainda mais latente.

Entretanto é importante relembrar que para que o processo terapêutico ocorra de forma harmônica, o analista precisa estar atento a todos os gestos verbais e não verbais. E quando houver necessidade de dar limites ao analisado, que seja com amor. Já dizia Renato Dias Martino, psicoterapeuta contemporâneo.

“Verdade sem amor, resulta em crueldade.”

E também diz “Mas o amor não é um sentimento, é uma capacidade.” Por isso é preciso ser capaz em dizer a verdade com amor, ensinando os limites que devem existir em terapia, para que o processo ocorra de forma sadia.

As experiências que o analisado viveu, será a base para a sua compreensão ao ouvir enquanto analista. Escutar é a ponte que nos leva a sentir, sendo assim, fica mais simples compreendermos a dor do outro quando já nos colocamos em tal posição de sofrimento. Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão menciona em seus ensinamentos uma frase muito própria para o momento: “Experiência sem teoria é cega, e teoria sem experiência é vazia”.


Para compreendermos a posição de analisa-analisado, é essencial que nasça o vínculo confiança. É necessário nutrir um vínculo real e verdadeiro entre analista e paciente, só através desta condição que iremos conseguir ver/ser uma base para a compreensão.

Sigmund Freud (1856-1939), pai da psicanálise, citou em uma de suas obras: 


“A finalidade de uma análise é recuperar a capacidade de amar”.



8.2.15

OBSERVAÇÃO CLÍNICA: O ACOLHIMENTO DOS GRUPOS TERAPÊUTICOS


Objetivo deste texto será relacionar e analisar as abordagens psicológicas com as práticas realizadas na instituição de saúde. O estágio de saúde proporcionou atrelarmos à prática com o conhecimento adquirido em sala de aula. Observamos o trabalho do psicólogo nos principais âmbitos de saúde.

A Psicologia na Saúde é um campo que estuda as influencias psicológicas na saúde, os fatores responsáveis pelo adoecimento e as mudanças de comportamento das pessoas no adoecer, não se restringe apenas a ambientes hospitalares ou a centros de saúde, mas se dedica também a todos os programas que venham a enfocar a saúde física e mental coletiva.

A psicologia na saúde pode ser compreendida como um domínio da psicologia que utiliza vários conhecimentos resultantes de estudos e de pesquisas psicológicas, com o intuito de promover e proteger a saúde dentro das instituições.

É também seu objetivo, prevenir e tratar enfermidades, bem como identificar etiologias e disfunções associadas às doenças, além da análise e melhoria do sistema de cuidados de saúde e aperfeiçoamento da política de saúde.

Por isso, segue abaixo algumas das formas terapêuticas desenvolvidas no âmbito do hospital psiquiátrico, e quão importante essa experiência é importante para o paciente e para os profissionais. Lembrando, que este texto é um ensaio, uma visão particular sobre os grupos, visto que há muitas possibilidades de se ver as experiências em grupo, de vários ângulos.



GRUPO TERAPÊUTICO: “ATITUDES E VIRTUDES”

A terapêutica proposta na observação clínica, dentro do âmbito do Hospital Psiquiátrico para os adictos – dependentes químicos –, é o grupo “Atitudes e Virtudes”, o qual desenvolve uma abordagem diferenciada, psicodinâmica, tendo como objetivo estimular o pensamento e desenvolver a autonomia dos pacientes.

Em grupo, os pacientes são estimulados a expressarem-se, por meio de uma história contada, na qual confronte, de alguma forma, a “realidade” do paciente em grupo-terapia. Algumas vezes, o enfoque passa a ser os sentimentos trazidos por eles, dentro da problemática que os levou a se tornarem adictos: dependentes químicos.

A psicodinâmica inicia-se a partir dos comentários que os membros do grupo fomentam, assumindo a condição de pensar sobre seus conflitos internos – mesmo que de forma fragmentada, compartilhando-os com os demais membros do grupo. A posteriori apresentada pelos pacientes interligando-se com a priori, da supervisão, interagem de forma espontânea em nossa visão do holístico, o que interessa nesta terapêutica não é somente as patologias, mas a forma como o paciente traz seus sentimentos conflitantes, por vezes arcaicos num inconsciente não realizado, para se pensar em grupo.

Nesse grupo específico, há pacientes com diversos transtornos, neste trabalho os transtornos mais observados: a esquizofrenia, transtorno bipolar, transtorno depressivo.

GRUPO TERAPÊUTICO: “CONTA OUTRA”

A terapêutica do grupo “Conta Outra” utiliza-se de métodos inovadores, aposta na escrita como ferramenta para mediar os estímulos entre a própria autoestima, como também, contribui para que o indivíduo desenvolver a sua autonomia.

Os textos produzidos pelos pacientes tende a mostrar uma busca incessante de algo não mensurado, mas questionável e consciente sobre tempo e lugar. Traz ainda ricos argumentos em distinção à loucura em meio às reflexões num momento oportuno de conhecer a si mesmo.

Os pacientes encontram, na escrita, uma forma de almejar encontrar um ponto de equilíbrio, em nome da Razão. Onde pode depositar a fé e a esperança de cada dia ser uma pessoa melhor. Escrever e compartilhar sua vivencias, é atividade árdua, que apresenta uma atitude de coragem ao apresentar seus sentimentos descritos no papel, tomam emprestado o verbo da razão para expressar em meio à loucura, sua mais lúcida e retórica mensagem ideológica que muitas vezes o sujeito da razão não consegue proferir com tal precisão.

“Entre o homem da razão e o homem de loucura, não há discurso da loucura sobre a razão diálogo outrora existente entre elas se interrompeu” (FREYZE-PEREIRA, 2006, p. 48).

Há escritas em que o sentimento de tristeza, acondicionado na emoção que brota as palavras escritas, termina com um momento muitas vezes lírico. No entanto, quando alguns pacientes começam a descrever suas histórias, a fantasia figura – dá corpo – à realidade, que numa singularidade concebe uma forma – capacidade – de viver.



O indivíduo está sempre além dos limitados instrumentos que a ciência nos oferece. Ele permanece sempre como uma individualidade que não se reduz ou se deixa aprender nas teorias. (...) Compreender o indivíduo é, sem dúvida, o ponto chave de toda a ação psicológica e psiquiátrica (DUARTE JUNIOR, 1983, p. 25-26).

Segundo estudos práticos da psicanálise, Freud (2006) verbalizados os conteúdos reprimidos na dor, é possível pensar-se numa superação dos traumas ocorridos na infância e nas suas relações interpessoais. Em uma de suas teorias Freud vai descrever que as neuroses traumáticas podem proclamar em alta voz os efeitos do perigo mortal, bem como podem ficar em silêncio ou apenas falar apenas em surdina dos efeitos das frustrações.

Em sua teoria o autor descreve: “o estranho é a categoria assustadora que remete ao que é conhecido de velho, e há muito familiar. Como isso é possível em que circunstancia o familiar pode se tornar um estranho e assustador” (FREUD, 2006, p. 238).

Para Freud (2006) o neurótico em sua infância teria sido vítima de uma ação sexual real e que esse fato traumático teria sido recalcado e se transformado em patogênico. Sua remoção só seria obtida com a ab-reação e a elaboração psíquica da experiência traumática.

Em sua proposta, também vai dizer que, nesse caso, “o indivíduo impossibilitado de se defender da ação trágica de forma normal o indivíduo empreende uma defesa que nada mais era do que a censura exercida pelo ego sobre a ideia que despertavam sentimentos de vergonha e de dor” (FREUD, 2006 apud GARCIA-ROZA, 2008, p. 155).

Em um esboço o autor descreve:

Por detrás dos fenômenos da neurose, não são quaisquer emoções afetivas que agem, mas sim, regularmente emoções de origem sexual, sejam elas conflitos sexuais atuais ou então consequências de acontecimentos sexuais anteriores. As manifestações infantis da sexualidade não determinam apenas os desvios, mas também as formas da vida sexual adulta (FREUD, s/d apud CLARET, 1986, p. 61).
Assim sendo, a compreensão do grupo indica que o mesmo contribui para o desabafo e reflexão sobre si mesmo, para que o paciente possa se perceber quanto humano, procurando uma forma de continuar a viver, em meio aos destroços de sentimentos vivenciados.

GRUPO TERAPÊUTICO: “ARTE-TERAPIA”


A compreensão que o terapeuta ou grupo terapêutico busca não pode ser apenas deduzida logicamente de uma teoria que ele já tenha pronta, em sua cabeça. Tais teorias psicológicas ajudam, mas não se constituem no núcleo de processo de compressão. É necessário que o psicoterapeuta ou grupo psicoterapêutico procure também sentir como o indivíduo se sente. Compreender, aqui, não é meramente uma atividade intelectual, lógica. É um processo que envolve a inserção do terapeuta, na relação, como um ser humano pleno. Laing, (1960), apud Duarte Junior (1983).

Portanto, seguindo a fala do autor, o terapeuta tem que estar atento ao paciente e ter um olhar diferenciado, uma visão holística de sua atuação e perceber também o ambiente. Mesmo porque o indivíduo portador de transtorno mental encontra-se tolhido frente ao outro, e em todo seu convívio social e familiar.

Jung em 1920 começa a utilizar a expressão artística como coadjuvante no tratamento psicoterápico favorecendo o contato terapeuta cliente. Estimulava seus pacientes a pintarem livremente, a partir de imagens de seus sonhos e de suas fantasias como inspiração. Gradativamente, seus pacientes desenvolviam a leitura de seus próprios trabalhos e os possíveis significados simbólicos de suas obras. Jung vê o homem como um ser essencialmente social e a psique humana não podendo existir sem uma cultura de origem, em que a individualidade vai se processar por diferenciação deste contexto maior (CARVALHO, 1995).

Uma figura que se destacou no Brasil, no que se refere ao trabalho de arteterapia no hospital psiquiátrico, foi Dra. Nise da Silveira, que é considerada a introdutora do estudo sistemático da psicologia analítica no Brasil, sendo responsável pela formação do Grupo de Estudos C.G. Jung, de que foi presidente desde 1968. Foi Jung (1962-63) que através de pesquisas, chegou ao conceito de Inconsciente Coletivo, que ultrapassa as fronteiras do Inconsciente Pessoal. O Inconsciente Coletivo possui camadas profundas com heranças comuns a toda a humanidade. Ele tem como elementos estruturais os arquétipos Tommasi (2008).

No ano de 1952, Dra. Nise reuniu os trabalhos dos pacientes e criou o Museu de Imagens do Inconsciente, na cidade do Rio de Janeiro, considerado atualmente um acervo de imenso (são milhares de obras), repleto dessas imagens e também de imagens que representam a visão do pintor do mundo externo, sua percepção do mundo, além de vivências subjetivas na relação com o espaço e com o outro (TOMMASI, 2008, p. 7).
“É na linguagem não verbal que são estimuladas pelas mais variadas atividades como o desenho, o pintar e outros, que o paciente consegue manifestar-se e se expressar-se, melhorando a qualidade da sua relação com o mundo” (SILVEIRA, 1992).

A arte terapia dinamicamente orientada baseia-se no reconhecimento de que os pensamentos e sentimentos fundamentais do homem derivam do inconsciente e frequentemente exprime-se melhor em imagens do que em palavras. As técnicas da arte-terapia baseiam-se no conhecimento de que todo indivíduo, tenha ou não treinamento em arte, possui capacidade latente para projetar seus conflitos internos sob formas visual (SILVEIRA, 1992).
A arterapia, como descreve a autora, não se baseia como principal fonte o cognitivo e sim se constitui através das emoções e sentimentos que estão contidos em toda sua esfera. O trabalho em arte-terapia pode ser desenvolvido individualmente ou em grupo. Sua essência consiste em estimular e auxiliar seu paciente e/ou grupo a utilizar técnicas expressivas, que podem ser verbais ou não-verbais, por intermédio do corpo.

O objetivo é o de expressar-se espontaneamente sentimentos, emoções e atitudes que possam ser liberadas e trabalhadas. O objetivo de um terapeuta não é o da produção de obras de arte e nem o de transformar seus pacientes em um artista, porém, sabe-se que algumas pessoas descobriram-se artistas por intermédio desse processo (TOMMASI, 2008).

No momento em que o paciente está envolvido em uma atividade, não se está se desenvolvendo de maneira aleatória. A autora leva-nos a perceber que o artista interno começa a fluir impelindo o sujeito a se descobrir através da arte.

Segundo Silveira, (1992) que diz:
A imagem não é simples cópia psíquica de objetivos externos, mas uma representação imediata, produto da função imaginativa do inconsciente, que se manifesta de maneira súbita, mas sem possuir necessariamente caráter patológico, desde que o indivíduo a distinga no real sensorial, percebendo-a como imagens internas. Na qualidade de experiência psíquica, a imagem interna será mesmo, em muitos casos, mais importante que as imagens das coisas externas. Acentuemos que a imagem interna não é um simples conglomerado de conteúdos do inconsciente. Constitui uma unidade e contém um sentido particular: expressão da situação do consciente e do inconsciente, constelada por experiências vividas pelo indivíduo. (SILVEIRA, 1992 apud TOMMASI, 2008).
 Dr. Nise da Silveira olhava para aqueles pacientes de forma diferente da psiquiatria tradicional. Valorizava o contato afetivo, pois eram pessoas que estavam sofrendo muito, já que tinham rompido o seu contato com a realidade e “mergulhavam”, sem nenhuma proteção, no inconsciente. Por meio do acolhimento e do respeito, procurava possibilitar o caminho de volta para a realidade e para a recuperação da autonomia perdida (TOMMASI, 2008).


Vista desse prisma a arteterapia em grupos tem a finalidade de promover a representação psíquica e simbólica do paciente. Tem como presuposto básico a expressão verbal, onde os pacientes são convidados e estimulados a escreverem o que estão sentindo e pensando.

Nossa atenção especial segue a um grupo terapêutico de um hospital psiquiátrico situado no interior do Estado de São Paulo, onde se desenvolve um projeto cuja proposta principal é que o interno possa também expressar livremente suas angústias e vivências, e ao mesmo tempo ser estimulada à escrita e à capacidade de exercer a autonomia por meio de atividades expressivas específicas.

Para Cociuffo (2007) a arte como proposta de terapia tem uma função extremamente importante e essencial para o desenvolvimento humano. Ali se integram elementos conflitantes tais como: impulso-controle, amor-acolhimento e em contrapartida, ódio-agressividade, sentimento-pensamento, fantasia-realidade, consciente-inconsciente, verbal, pré-verbal e não-verbal.

“Em diversas teorias reconhece-se a arte-terapia, como função integrante, revelando um poder de unir forças oponentes dentro da Personalidade. Favorecendo, porém, as reconciliações e necessidades que o indivíduo apresenta sobre as demandas do mundo exterior” (CARVALHO, 1995, p. 68).

Fazer arte gera autoestima, encoraja a experimentação, desperta novas habilidades, o que, por si só, já seria terapêutico. Além disso, o processo criativo conduz ao desenvolvimento dos potenciais e flexibilidades, além de oferecer oportunidades para o crescimento e mudança de forma agradável. Assim sendo o processo criativo favorece a saúde psicológica, física e espiritual (MALCHIADI, 1998 apud BILBAO, 2004, p. 63).
Partindo das premissas citadas acima, entendemos que o ser humano vive em constante movimento, em seus pensamentos, ações e sentimentos. E sente a necessidade de estar em contato com objetos externos para poder se organizar internamente.

Segundo o autor discorre em seu trabalho sobre a visão do valor terapêutico que a arte pode produzir por si só. Dizendo que a arte-terapia é o ponto de encontro, vivenciado pelo ser humano, dos mundos internos e externos. E nessa junção arte e terapia, uma potencializa a outra, revelando como objetivo primordial da utilização da atividade expressiva, o favorecimento do processo terapêutico Carvalho (1995).

Visto que o trabalho com a arte-terapia apresenta um significado importante no processo terapêutico, cabe ao profissional da saúde, mais precisamente o terapeuta, estar atento a uma escuta diferenciada. E a presença constante do olhar de compreensão, junto a atitude de acolhimento numa espontaneidade para com o paciente, permitem fazer a diferença em meio ao tratamento terapêutico.
Nesse sentido, a autora nos remete a uma relevante percepção, ao dizer que a arte terapia representa o ponto de encontro vivenciado pelo ser humano em seu contexto interno e externo.

O paciente é levado pelo terapeuta a se soltar da maneira mais espontânea possível, rabiscando, colorindo, desenhando, esculpindo, dançando, o que e como quiser. Será por estas atividades que o paciente poderá expressar seus sentimentos, pensamento, emoções, atitudes, descobrindo aspectos seus que antes não estavam claros, reconhecendo-se no que sai de si (CARVALHO, 1995, p. 24).
Dentre as atividades descritas nos grupos terapêuticos propostos pela autora, faz se necessário ressaltarmos também o uso da escrita como elemento fundamental na elaboração interna e externa do paciente, como ocorre no grupo “Conta Outra”, que vem desenvolvendo um trabalho acolhedor com os pacientes que se integram no grupo.

DINÂMICA DO GRUPO ARTE-TERAPIA:

Inicialmente é distribuída uma folha sulfite em uma prancheta para cada paciente, sendo uma média de cinco a dez pacientes por grupo, e são convidados a utilizar o espaço escrevendo, pintando ou desejando algo que estejam pensando ou sentindo, dando preferência a sentimentos e pensamentos positivos, evitando falar de doenças, tragédias, ainda que seja possível falar disso também.

Quando terminam, cada um compartilha o que desenvolveu e o grupo comenta o que quiser sobre o que foi feito, estimulando o olhar do outro sobre si, ou seja, relacionamento intra e interpessoal. A interatividade entre cada membro do grupo é muito dinâmico, embora, em algumas vezes seja dificultoso desenvolver total dinâmica, pois o grupo caminha de acordo com as relações que ocorre nele, proposto pelos próprios participantes. A ideia inicial, bem como todos os outros grupos proposto pelo Hospital Psiquiátrico, é desenvolver a capacidade de autonomia do indivíduo participante, para que, mesmo em suas limitações, possam ter contato com a realidade deles e do grupo.

Em breve, será publicado no blog um caso-fictício, com algumas observações no estágio em saúde. Espero que essas reflexões aqui narradas, sejam de grande valia para (re)pensar nossas experiências com nós e com o Outro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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COCIUFFO, Tânia. Encontro marcado com a loucura. 2. ed. São Paulo: LUC, 2007.

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