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6.4.15

A Escuta Terapêutica: Acolhimento Individual e em Grupo

“... Um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas, num último recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em conseqüência de frustrações, formos incapazes de amar...” (FREUD, 1914, p. 92).

Quando nos propomos a pensar, certamente, faz-se necessário mais de uma pessoa.Visto que, um só indivíduo dificilmente conseguiria pensar, no máximo imagina. Em grupos terapêuticos essa perspectiva é muito enriquecedora. Mas antes de todo desdobramento do grupo-terapêutico, o atendimento individual, que podemos pensar como “Acolhimento individual”, é uma proposta oferecida como meio para conhecer a história do paciente, saindo do pr(é)conceitos diante da fala do paciente, no qual é um veneno para pesquisa terapêutica, que relata um diagnóstico desprovido de contribuição e tratamento.

O acolhimento individual é uma intervenção interessante, quando pensamos como uma forma de captar por meio da escuta, o universo do paciente. Com um colóquio bem estruturado, é possível coletar ricas informações históricas do paciente, trazendo a superfície questões de vínculo: se existe uma influência mútua entre o indivíduo, seus familiares e a sociedade. Esse primeiro contato, sendo suficientemente bom, tanto para o familiar quanto para o indivíduo analisado, pode enriquecer ainda mais na elaboração da autonomia do pensar do deste último, na reflexão sobre os amores e dissabores da sua vida. Deste modo é possível analisar sua fala e correlacioná-la aos aspectos clínicos que o levaram à instituição/clínica.

O sofrimento psíquico e, em outros casos, físico, é muito presente na clínica/hospital psiquiátrico. No entanto, esse quadro não limita os profissionais, uma vez que o grupo, além do acolhimento individual, intervém nesse sofrimento, levando os pacientes a interagir, buscando meios subjetivos e sociais, para compreensão do seu tratamento, impulsionando a elaboração da sua autonomia. Há casos crônicos, que levam a internações consecutivas do paciente, mas até mesmo este paciente crônico é humanizado, encorajando-o a criar meios independentes e estimulando a estruturação do seu ego; levando-o a uma vida psíquica cada vez mais saudável. Essa estimulação ocorre quando é acolhido pelo grupo-terapêutico.


Em consonância, não deixemos de levar em conta que, em todo tratamento, a familiar além da equipe multiprofissional é de suma importância, para que essa humanização ocorra de forma saudável, para atender a harmonia dessa família, que necessita proporcionar ao seu familiar adoecido, um tratamento satisfatório, cuidando para que o paciente cumpra com todas as exigências do tratamento, para que seja eficaz.

Na teoria, as palavras são mais fáceis de ser imaginada, é um sistema fantástico, bem como o SUS e outros projetos de apoio à sociedade na área da saúde, mas não deixemos de levar em conta que na prática é preciso que todos inseridos sejam cooperativos, para que o sistema da saúde ocorra de forma satisfatória, claro que podem ocorrer eventualidades, mas é necessário sermos “pacientes” para humanizar todas as falhas que ocorrerem. Contudo, os psicólogos junto com a equipe multiprofissional podem oferecer ao paciente, meios para que seu sofrimento durante e depois do tratamento, sejam amenizados, com informações de sua doença e tratamento.

É evidente que, dentro dos grupos desenvolvidos em uma Instituição, os estímulos do meio são múltiplos e levam o indivíduo ao contato com outros indivíduos no mundo externo, que é sugerido à ele, devido ao meio social vivido, considerando eu que é cada vez mais difícil “ser” individual dentro do grupo-terapêutico, sendo assim, um processo saudável para todos os envolvidos. Mesmo que seja sabido, que o desenvolvimento cognitivo do ser humano implica em suas experiências e entendimentos internos, isso é um fato – as exigências do meio.

Além disso, a relação entre o psicólogo, a equipe multiprofissional e o paciente dá-se a partir da entrada do indivíduo na instituição. Porém, é no calor do desenvolvimento das atividades terapêuticas, que o indivíduo que antes se encontrava isolado de outras pessoas e, estando em um momento difícil na sua vida, começará a se sentir valorizado pelos outros pacientes, através do acolhimento e participação nos grupos terapêuticos.

A partir de uma das várias observações dos grupos terapêuticos, foi possível concluir que o grupo observado “Conta Outra” proporcionou um ambiente favorável para as manifestações dos conteúdos encobertos. O grupo tem ajudado os pacientes a expressarem suas histórias de vida, por meio da escrita, e, em outras, por meio da fala, como uma forma de estimular a busca do conhecimento de si mesmo. Com isso se percebe que os pacientes estando num ambiente em que recebem atenção, sentindo-se acolhidos, são aguçados a sensibilidade na escuta do integrantes do grupo, estando mais motivados a executar as atividades, como também, falar sobre as suas vivencias e da sua família, ajuda-os a desenvolver a capacidade de autonomia, com tendência a mostrar uma capacidade maior de interação junto ao grupo.

Fica evidente a importância do papel do psicólogo e da equipe multiprofissional trabalhando em seus projetos em comum, mediando relações pessoais dos integrantes do grupo. Por conseguinte, tendo em vista as vivências dessa pesquisa, foi possível concluir a importância da escrita como estímulo a descoberta que cada um pode produzir, quando encontram como elementos positivos, a empatia, o acolhimento e a compreensão no interior das atividades terapêuticas.

Assim, concluo este texto com a seguinte frase:


"Só o amor pode curar as feridas da Alma".

8.2.15

OBSERVAÇÃO CLÍNICA: O ACOLHIMENTO DOS GRUPOS TERAPÊUTICOS


Objetivo deste texto será relacionar e analisar as abordagens psicológicas com as práticas realizadas na instituição de saúde. O estágio de saúde proporcionou atrelarmos à prática com o conhecimento adquirido em sala de aula. Observamos o trabalho do psicólogo nos principais âmbitos de saúde.

A Psicologia na Saúde é um campo que estuda as influencias psicológicas na saúde, os fatores responsáveis pelo adoecimento e as mudanças de comportamento das pessoas no adoecer, não se restringe apenas a ambientes hospitalares ou a centros de saúde, mas se dedica também a todos os programas que venham a enfocar a saúde física e mental coletiva.

A psicologia na saúde pode ser compreendida como um domínio da psicologia que utiliza vários conhecimentos resultantes de estudos e de pesquisas psicológicas, com o intuito de promover e proteger a saúde dentro das instituições.

É também seu objetivo, prevenir e tratar enfermidades, bem como identificar etiologias e disfunções associadas às doenças, além da análise e melhoria do sistema de cuidados de saúde e aperfeiçoamento da política de saúde.

Por isso, segue abaixo algumas das formas terapêuticas desenvolvidas no âmbito do hospital psiquiátrico, e quão importante essa experiência é importante para o paciente e para os profissionais. Lembrando, que este texto é um ensaio, uma visão particular sobre os grupos, visto que há muitas possibilidades de se ver as experiências em grupo, de vários ângulos.



GRUPO TERAPÊUTICO: “ATITUDES E VIRTUDES”

A terapêutica proposta na observação clínica, dentro do âmbito do Hospital Psiquiátrico para os adictos – dependentes químicos –, é o grupo “Atitudes e Virtudes”, o qual desenvolve uma abordagem diferenciada, psicodinâmica, tendo como objetivo estimular o pensamento e desenvolver a autonomia dos pacientes.

Em grupo, os pacientes são estimulados a expressarem-se, por meio de uma história contada, na qual confronte, de alguma forma, a “realidade” do paciente em grupo-terapia. Algumas vezes, o enfoque passa a ser os sentimentos trazidos por eles, dentro da problemática que os levou a se tornarem adictos: dependentes químicos.

A psicodinâmica inicia-se a partir dos comentários que os membros do grupo fomentam, assumindo a condição de pensar sobre seus conflitos internos – mesmo que de forma fragmentada, compartilhando-os com os demais membros do grupo. A posteriori apresentada pelos pacientes interligando-se com a priori, da supervisão, interagem de forma espontânea em nossa visão do holístico, o que interessa nesta terapêutica não é somente as patologias, mas a forma como o paciente traz seus sentimentos conflitantes, por vezes arcaicos num inconsciente não realizado, para se pensar em grupo.

Nesse grupo específico, há pacientes com diversos transtornos, neste trabalho os transtornos mais observados: a esquizofrenia, transtorno bipolar, transtorno depressivo.

GRUPO TERAPÊUTICO: “CONTA OUTRA”

A terapêutica do grupo “Conta Outra” utiliza-se de métodos inovadores, aposta na escrita como ferramenta para mediar os estímulos entre a própria autoestima, como também, contribui para que o indivíduo desenvolver a sua autonomia.

Os textos produzidos pelos pacientes tende a mostrar uma busca incessante de algo não mensurado, mas questionável e consciente sobre tempo e lugar. Traz ainda ricos argumentos em distinção à loucura em meio às reflexões num momento oportuno de conhecer a si mesmo.

Os pacientes encontram, na escrita, uma forma de almejar encontrar um ponto de equilíbrio, em nome da Razão. Onde pode depositar a fé e a esperança de cada dia ser uma pessoa melhor. Escrever e compartilhar sua vivencias, é atividade árdua, que apresenta uma atitude de coragem ao apresentar seus sentimentos descritos no papel, tomam emprestado o verbo da razão para expressar em meio à loucura, sua mais lúcida e retórica mensagem ideológica que muitas vezes o sujeito da razão não consegue proferir com tal precisão.

“Entre o homem da razão e o homem de loucura, não há discurso da loucura sobre a razão diálogo outrora existente entre elas se interrompeu” (FREYZE-PEREIRA, 2006, p. 48).

Há escritas em que o sentimento de tristeza, acondicionado na emoção que brota as palavras escritas, termina com um momento muitas vezes lírico. No entanto, quando alguns pacientes começam a descrever suas histórias, a fantasia figura – dá corpo – à realidade, que numa singularidade concebe uma forma – capacidade – de viver.



O indivíduo está sempre além dos limitados instrumentos que a ciência nos oferece. Ele permanece sempre como uma individualidade que não se reduz ou se deixa aprender nas teorias. (...) Compreender o indivíduo é, sem dúvida, o ponto chave de toda a ação psicológica e psiquiátrica (DUARTE JUNIOR, 1983, p. 25-26).

Segundo estudos práticos da psicanálise, Freud (2006) verbalizados os conteúdos reprimidos na dor, é possível pensar-se numa superação dos traumas ocorridos na infância e nas suas relações interpessoais. Em uma de suas teorias Freud vai descrever que as neuroses traumáticas podem proclamar em alta voz os efeitos do perigo mortal, bem como podem ficar em silêncio ou apenas falar apenas em surdina dos efeitos das frustrações.

Em sua teoria o autor descreve: “o estranho é a categoria assustadora que remete ao que é conhecido de velho, e há muito familiar. Como isso é possível em que circunstancia o familiar pode se tornar um estranho e assustador” (FREUD, 2006, p. 238).

Para Freud (2006) o neurótico em sua infância teria sido vítima de uma ação sexual real e que esse fato traumático teria sido recalcado e se transformado em patogênico. Sua remoção só seria obtida com a ab-reação e a elaboração psíquica da experiência traumática.

Em sua proposta, também vai dizer que, nesse caso, “o indivíduo impossibilitado de se defender da ação trágica de forma normal o indivíduo empreende uma defesa que nada mais era do que a censura exercida pelo ego sobre a ideia que despertavam sentimentos de vergonha e de dor” (FREUD, 2006 apud GARCIA-ROZA, 2008, p. 155).

Em um esboço o autor descreve:

Por detrás dos fenômenos da neurose, não são quaisquer emoções afetivas que agem, mas sim, regularmente emoções de origem sexual, sejam elas conflitos sexuais atuais ou então consequências de acontecimentos sexuais anteriores. As manifestações infantis da sexualidade não determinam apenas os desvios, mas também as formas da vida sexual adulta (FREUD, s/d apud CLARET, 1986, p. 61).
Assim sendo, a compreensão do grupo indica que o mesmo contribui para o desabafo e reflexão sobre si mesmo, para que o paciente possa se perceber quanto humano, procurando uma forma de continuar a viver, em meio aos destroços de sentimentos vivenciados.

GRUPO TERAPÊUTICO: “ARTE-TERAPIA”


A compreensão que o terapeuta ou grupo terapêutico busca não pode ser apenas deduzida logicamente de uma teoria que ele já tenha pronta, em sua cabeça. Tais teorias psicológicas ajudam, mas não se constituem no núcleo de processo de compressão. É necessário que o psicoterapeuta ou grupo psicoterapêutico procure também sentir como o indivíduo se sente. Compreender, aqui, não é meramente uma atividade intelectual, lógica. É um processo que envolve a inserção do terapeuta, na relação, como um ser humano pleno. Laing, (1960), apud Duarte Junior (1983).

Portanto, seguindo a fala do autor, o terapeuta tem que estar atento ao paciente e ter um olhar diferenciado, uma visão holística de sua atuação e perceber também o ambiente. Mesmo porque o indivíduo portador de transtorno mental encontra-se tolhido frente ao outro, e em todo seu convívio social e familiar.

Jung em 1920 começa a utilizar a expressão artística como coadjuvante no tratamento psicoterápico favorecendo o contato terapeuta cliente. Estimulava seus pacientes a pintarem livremente, a partir de imagens de seus sonhos e de suas fantasias como inspiração. Gradativamente, seus pacientes desenvolviam a leitura de seus próprios trabalhos e os possíveis significados simbólicos de suas obras. Jung vê o homem como um ser essencialmente social e a psique humana não podendo existir sem uma cultura de origem, em que a individualidade vai se processar por diferenciação deste contexto maior (CARVALHO, 1995).

Uma figura que se destacou no Brasil, no que se refere ao trabalho de arteterapia no hospital psiquiátrico, foi Dra. Nise da Silveira, que é considerada a introdutora do estudo sistemático da psicologia analítica no Brasil, sendo responsável pela formação do Grupo de Estudos C.G. Jung, de que foi presidente desde 1968. Foi Jung (1962-63) que através de pesquisas, chegou ao conceito de Inconsciente Coletivo, que ultrapassa as fronteiras do Inconsciente Pessoal. O Inconsciente Coletivo possui camadas profundas com heranças comuns a toda a humanidade. Ele tem como elementos estruturais os arquétipos Tommasi (2008).

No ano de 1952, Dra. Nise reuniu os trabalhos dos pacientes e criou o Museu de Imagens do Inconsciente, na cidade do Rio de Janeiro, considerado atualmente um acervo de imenso (são milhares de obras), repleto dessas imagens e também de imagens que representam a visão do pintor do mundo externo, sua percepção do mundo, além de vivências subjetivas na relação com o espaço e com o outro (TOMMASI, 2008, p. 7).
“É na linguagem não verbal que são estimuladas pelas mais variadas atividades como o desenho, o pintar e outros, que o paciente consegue manifestar-se e se expressar-se, melhorando a qualidade da sua relação com o mundo” (SILVEIRA, 1992).

A arte terapia dinamicamente orientada baseia-se no reconhecimento de que os pensamentos e sentimentos fundamentais do homem derivam do inconsciente e frequentemente exprime-se melhor em imagens do que em palavras. As técnicas da arte-terapia baseiam-se no conhecimento de que todo indivíduo, tenha ou não treinamento em arte, possui capacidade latente para projetar seus conflitos internos sob formas visual (SILVEIRA, 1992).
A arterapia, como descreve a autora, não se baseia como principal fonte o cognitivo e sim se constitui através das emoções e sentimentos que estão contidos em toda sua esfera. O trabalho em arte-terapia pode ser desenvolvido individualmente ou em grupo. Sua essência consiste em estimular e auxiliar seu paciente e/ou grupo a utilizar técnicas expressivas, que podem ser verbais ou não-verbais, por intermédio do corpo.

O objetivo é o de expressar-se espontaneamente sentimentos, emoções e atitudes que possam ser liberadas e trabalhadas. O objetivo de um terapeuta não é o da produção de obras de arte e nem o de transformar seus pacientes em um artista, porém, sabe-se que algumas pessoas descobriram-se artistas por intermédio desse processo (TOMMASI, 2008).

No momento em que o paciente está envolvido em uma atividade, não se está se desenvolvendo de maneira aleatória. A autora leva-nos a perceber que o artista interno começa a fluir impelindo o sujeito a se descobrir através da arte.

Segundo Silveira, (1992) que diz:
A imagem não é simples cópia psíquica de objetivos externos, mas uma representação imediata, produto da função imaginativa do inconsciente, que se manifesta de maneira súbita, mas sem possuir necessariamente caráter patológico, desde que o indivíduo a distinga no real sensorial, percebendo-a como imagens internas. Na qualidade de experiência psíquica, a imagem interna será mesmo, em muitos casos, mais importante que as imagens das coisas externas. Acentuemos que a imagem interna não é um simples conglomerado de conteúdos do inconsciente. Constitui uma unidade e contém um sentido particular: expressão da situação do consciente e do inconsciente, constelada por experiências vividas pelo indivíduo. (SILVEIRA, 1992 apud TOMMASI, 2008).
 Dr. Nise da Silveira olhava para aqueles pacientes de forma diferente da psiquiatria tradicional. Valorizava o contato afetivo, pois eram pessoas que estavam sofrendo muito, já que tinham rompido o seu contato com a realidade e “mergulhavam”, sem nenhuma proteção, no inconsciente. Por meio do acolhimento e do respeito, procurava possibilitar o caminho de volta para a realidade e para a recuperação da autonomia perdida (TOMMASI, 2008).


Vista desse prisma a arteterapia em grupos tem a finalidade de promover a representação psíquica e simbólica do paciente. Tem como presuposto básico a expressão verbal, onde os pacientes são convidados e estimulados a escreverem o que estão sentindo e pensando.

Nossa atenção especial segue a um grupo terapêutico de um hospital psiquiátrico situado no interior do Estado de São Paulo, onde se desenvolve um projeto cuja proposta principal é que o interno possa também expressar livremente suas angústias e vivências, e ao mesmo tempo ser estimulada à escrita e à capacidade de exercer a autonomia por meio de atividades expressivas específicas.

Para Cociuffo (2007) a arte como proposta de terapia tem uma função extremamente importante e essencial para o desenvolvimento humano. Ali se integram elementos conflitantes tais como: impulso-controle, amor-acolhimento e em contrapartida, ódio-agressividade, sentimento-pensamento, fantasia-realidade, consciente-inconsciente, verbal, pré-verbal e não-verbal.

“Em diversas teorias reconhece-se a arte-terapia, como função integrante, revelando um poder de unir forças oponentes dentro da Personalidade. Favorecendo, porém, as reconciliações e necessidades que o indivíduo apresenta sobre as demandas do mundo exterior” (CARVALHO, 1995, p. 68).

Fazer arte gera autoestima, encoraja a experimentação, desperta novas habilidades, o que, por si só, já seria terapêutico. Além disso, o processo criativo conduz ao desenvolvimento dos potenciais e flexibilidades, além de oferecer oportunidades para o crescimento e mudança de forma agradável. Assim sendo o processo criativo favorece a saúde psicológica, física e espiritual (MALCHIADI, 1998 apud BILBAO, 2004, p. 63).
Partindo das premissas citadas acima, entendemos que o ser humano vive em constante movimento, em seus pensamentos, ações e sentimentos. E sente a necessidade de estar em contato com objetos externos para poder se organizar internamente.

Segundo o autor discorre em seu trabalho sobre a visão do valor terapêutico que a arte pode produzir por si só. Dizendo que a arte-terapia é o ponto de encontro, vivenciado pelo ser humano, dos mundos internos e externos. E nessa junção arte e terapia, uma potencializa a outra, revelando como objetivo primordial da utilização da atividade expressiva, o favorecimento do processo terapêutico Carvalho (1995).

Visto que o trabalho com a arte-terapia apresenta um significado importante no processo terapêutico, cabe ao profissional da saúde, mais precisamente o terapeuta, estar atento a uma escuta diferenciada. E a presença constante do olhar de compreensão, junto a atitude de acolhimento numa espontaneidade para com o paciente, permitem fazer a diferença em meio ao tratamento terapêutico.
Nesse sentido, a autora nos remete a uma relevante percepção, ao dizer que a arte terapia representa o ponto de encontro vivenciado pelo ser humano em seu contexto interno e externo.

O paciente é levado pelo terapeuta a se soltar da maneira mais espontânea possível, rabiscando, colorindo, desenhando, esculpindo, dançando, o que e como quiser. Será por estas atividades que o paciente poderá expressar seus sentimentos, pensamento, emoções, atitudes, descobrindo aspectos seus que antes não estavam claros, reconhecendo-se no que sai de si (CARVALHO, 1995, p. 24).
Dentre as atividades descritas nos grupos terapêuticos propostos pela autora, faz se necessário ressaltarmos também o uso da escrita como elemento fundamental na elaboração interna e externa do paciente, como ocorre no grupo “Conta Outra”, que vem desenvolvendo um trabalho acolhedor com os pacientes que se integram no grupo.

DINÂMICA DO GRUPO ARTE-TERAPIA:

Inicialmente é distribuída uma folha sulfite em uma prancheta para cada paciente, sendo uma média de cinco a dez pacientes por grupo, e são convidados a utilizar o espaço escrevendo, pintando ou desejando algo que estejam pensando ou sentindo, dando preferência a sentimentos e pensamentos positivos, evitando falar de doenças, tragédias, ainda que seja possível falar disso também.

Quando terminam, cada um compartilha o que desenvolveu e o grupo comenta o que quiser sobre o que foi feito, estimulando o olhar do outro sobre si, ou seja, relacionamento intra e interpessoal. A interatividade entre cada membro do grupo é muito dinâmico, embora, em algumas vezes seja dificultoso desenvolver total dinâmica, pois o grupo caminha de acordo com as relações que ocorre nele, proposto pelos próprios participantes. A ideia inicial, bem como todos os outros grupos proposto pelo Hospital Psiquiátrico, é desenvolver a capacidade de autonomia do indivíduo participante, para que, mesmo em suas limitações, possam ter contato com a realidade deles e do grupo.

Em breve, será publicado no blog um caso-fictício, com algumas observações no estágio em saúde. Espero que essas reflexões aqui narradas, sejam de grande valia para (re)pensar nossas experiências com nós e com o Outro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


CARVALHO, Maria Margarida M. J. A arte cura? Campinas: PSY II, 1995.

COCIUFFO, Tânia. Encontro marcado com a loucura. 2. ed. São Paulo: LUC, 2007.

DESCARTES, Rene. As paixões da alma. Rio de Janeiro, Lafonte, 2012.

DUARTE JUNIOR, João Francisco. A política da loucura. Campinas: Papirus, 1983.

FOUCAULT, Michel. História da loucura. 9. ed. São Paulo: Pesrpectiva, 2010.

______. Doença mental e psicologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

FRAYZE-PEREIRA, João. O que é loucura? São Paulo: Brasiliense, 2006.

______. Olho d’agua: arte em exposição da escuta. São Paulo: Brasiliense, 1995.

FREUD, Sigmund. Uma neurose infantil e outro trabalho. (coleção). Rio de Janeiro: Imago, 226, v. XVII.

______; GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. 23. ed. Rio de Janeiro: Zahar. 2006.

______; CLARET, Martin. O pensamento vivo ou Freud. São Paulo: Ediouro, 1986.

LAING, Ronald David. O eu dividido. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1975.

LAINGA, Ronal David. A política da família. Guarulhos: Martins Fontes, 1971.

TOMMASI, S. M. B. A arteterapia e Loucura. São Paulo: Vetor, 2008.

CHENINUX JUNIOR, Elie, 1965-. Manual de psicopatologia / Elie Cheniaux. – 4.ed. – [Reimpr.]. – Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. il.

American PsuchiatricAssociation. DSM-IV: manual de diagnóstico e estatística de transtornos mentais. 4.ed. Porto Alegre: Artes Médicas; 1995.

JASPERS K. Psicopatologia geral. Rio de Janeiro: Livraria Atheneu; 1987.

ZANON, Lucia Helena. Reflexões de pacientes psiquiátricos. São José do Rio Preto: TCC; 2012. 



29.4.14

Faz de conta: um projeto terapêutico


O ambiente terapêutico é um lugar misterioso, no qual é sabido que você pode sair feliz por ter “solucionado” um “mal-estar”, como pode sair “desgostoso” e com uma vontade de “socar a cara” daquele terapeuta de merda que você paga uma fortuna por sessões, para ele não dizer nada que te encoraje, mas que te cativou, a ponto de você deixar escapar a (merda) dor, que tanto segurava e que fedia dentro de você.

Realmente a palavra é um bicho que sai da boca, que tanto pode acariciar ou agredir, quando se volta contra o interlocutor. É como se você desse a sua próxima carta de bandeja para o terapeuta, sem se dar conta do que está fazendo. Neste momento, surge a ideia do faz de conta, que por algum tempo, pode funcionar ou não numa sessão individual, mas num grupo terapêutico dificilmente o faz de conta se sustenta por muito tempo, visto que há mais pacientes a confrontar o que está sendo pronunciado.

De acordo com algumas observações¹, é notável que o faz de conta, acaba se desfigurando e mostrando as raízes que machucam o interior do interlocutor. Explico. Na terapia em grupo, que tenho como certeza, que é de considerável saudável e rica de conteúdos a serem estudados e analisados, o paciente que fala, de forma disfarçada, como por exemplo, no faz de conta, o paciente apresenta um discurso, no qual se moldura como uma pessoa boa e que não faz mal a ninguém, que foi injustiçada pelos familiares, por acharem que ela é uma mulher da vida, por viver nas baladas.

Em primeiro momento, o relato nos remete ao afeto de compaixão, acreditando que essa família estaria sendo um tanto que radical com a paciente. No entanto, quem repudiaria e discriminaria uma pessoa a ponto de não querer mais vê-la por perto, simplesmente por ser tão boa, que quer só curtir a vida? Em vias de boa sanidade, ninguém o faria. A partir deste aparato de informações, onde entra a terapêutica em grupo. Pacientes que ouviram tal história atentamente,questionam a interlocutora:

Será que ela e só baladeira como diz? Será que ela não fez algo para essa família, para mesma ficar com receio e não querer mais vê-la?

Encantador, não é? Sim, é incrível como em uma sessão de terapia em grupo, as pacientes que se põem a par dos fatos, colocam-se a pensar sobre o tema, aquecem sua autonomia. Claro, isso é um processo, nem sempre é possível ter esse ganho. Mas, o que vale é a tentativa no dia a dia, que é propor um tema inicial, para que ramifiquem novos temas.

Pacientes se colocam na posição de co-terapeutas, como se dissessem: contra outra, que faz de conta que eu acredito. Questionada a interlocutora fica constrangida, e se sente na necessidade de se explicar, contar ainda que superficial algo a mais que complemente a linha de pensamento inicial. 

É neste momento em que, sem tomar todos os cuidados necessários para não ser descoberta, a paciente nos dá sinais e dicas da causa de sua dor, da ruptura do afeto familiar e de si mesmo. Ainda podemos acrescentar que, em vias de analise, não se pode descarta que quem sabe a dor de ser uma decepção para família e para si mesmo, cause na paciente a negação de suas experiências negativas.  A negação dos caminhos que a levaram a cometer tais atos, que a sociedade repugna, e que leva a paciente a limitar sua fala, para que não seja ainda mais criticada.

Tais atos de prostituir-se ou viver neste ambiente podem ser desde o desejo de viver essa experiência, o que podemos pensar ser um fetichismo, bem como a necessidade de se manter na zona de conforto, visto que é mais fácil caminhar pelo método mais simples, sem esforços, ao invés de caminhar por caminhos que exijam mais trabalho e doação de si.  Existem incontáveis argumentos e formas de se pensar. Entretanto, a paciente escolhera viver numa casa de “mulher da vida” até conseguir dar seus próprios passos, sozinha.

O que compreendi nesta sessão em grupo é que, na forma mais simples, não há o único culpado, de modo que ninguém caminha para o poço sozinho. Não estou no proposito de dizer que os familiares, aqui no caso, sejam os malfeitores, ou que por trás de toda história haja um, mas há contribuições para essas escolhas. Tudo depende de como a dor afeta o indivíduo. Uns são mais fortes, outros não tanto.

A terapia vem como forma de contribuir com o paciente que se perder da direção do seu ideal e sonhos, ou que procura uma direção. No entanto, a terapia só acontece com a fala do paciente e a escuta minuciosa do terapeuta.

“Quem chora, nem sempre quer mamar”.

¹ - Observações: o caso aqui narrado não é verídico, ou seja, é de teor fictício. Mas, delicie com a possibilidade de imaginar, que o caso poderia ser verdadeiro.  Já que estamos vivendo, então tudo pode acontecer.