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23.8.19

sei lá, talvez seja nada disso

A vida é ramela nos olhos. Ainda ontem te vi sorrindo no ônibus, alguns minutos do desembarque no terminal. Foi quase que um sentimento terminal que me abraçou as pernas. Ou foi o coração, que me quebrou as pernas? Você tem o místico de me deixar sem oxigênio nos pulmões por dois longos minutos. Quase uma vida inteira.

Amor é teorema que nunca se completa, ele fica ali repousado em busca de uma nova face para se reinventar. Sei, eu tô avisado de que não mais existirá a junção da nossa singularidade: o laço da nossa pluralidade. Nossas vidas estão tão baralhadas de futuro, passado e presente que não sei qual via me desvia de você. Sempre tropeço em você em nome do amor.

Não vou negar, tenho apreciado a falta que tu me faz. Talvez essa falta me faz percebe que precisava de ficar mais íntimo comigo mesmo. Estive tempo demais com você. Quiçá possa ser uma questão. O que me atropela a vida é alcançar o saber que esse texto fala mais da degradação de uma intimidade com o Outro, que como garoto mimado desamparou.

Um Outro que é familiar, embora tenha a forma de um estranho que encarna em meio ao corpo e a alma produzindo uma linguagem que me faz falar de você para refletir mais sobre mim. O amor é travesti, é inconsciente sem sexo, sem corpo, sem gênero e faz da gente turbilhão.

Eu sei lá, pode ser que não seja nada disso, talvez seja tudo loucura. Pode ser que seja só um delírio Sei lá, gosto de brincar com as palavras!

12.7.19

resto que permanece ressoa

Em seu pior momento da vida, encontrava-se em estado esgotável da natureza humana. Nesses agraves, necessitava deixar escoar até a última gota do insuportável de sua tristeza. Extenuado e sem qualquer ânimo, trajava o seu horror ao se colocar em convívio social. Não havia energia para opinar ou pensar nos adornos de amor próprio para seguir bem arrumado aos olhos dos Outros. Era só mais desserviço com ele mesmo, mais uma traição para conta. 

Perto demais de ser petrificado, foi capturado pela imagem dos passantes e vê em cada um deles o seu horror refletido. Pressentiu uma leve pontada de angústia no peito, achou que fosse um AVC. Para seu azar, não era. Em estado de vertigem, cobiçou embarcar em qualquer ônibus para mudar a rota e se livrar de tudo que estava alcançando. 

O sofrimento é mais latente e estranho de caber nas palavras, mas sabia que era respeitável apostar na criação de palavras para não enlouquecer em si mesmo. Era através desse esforço de se fazer dizer, que inventava laços para além do habitual. Necessitava do toque de um outro, alguém que pudesse oferecer um olhar mais amável e menos sufocante para escuridão. 

De dentro da tempestade é possível se fazer saber sobre o indomável de nós mesmos. Precisava embarcar no próximo ônibus, que indicava para direção da responsabilidade com a própria história, com o acaso e a surpresa que a vida trouxe e trará. Detalhes irão transformá-lo pouco a pouco, não por completo. O passado faz sempre presença, e sabe que caberá a ele fazer melhor com isso que se desenrola no depois que se escreve sem sua vontade. 

O ônibus chega, reluta aflito se será capaz de suportar o caminho. O medo de ser medíocre era mais ululante que fracassar. Desatento, entra e se senta com vontade de desistir. Acelerado, percebe lentamente o ônibus ganhar movimento, já não dá mais para fugir. Nem tudo está perdido, depois de uns tombos, perdas e lágrimas salgadas, pode-se saborear o amargo do saber que emerge de retalhos que ficam, na tentativa de criar coisa outra para se fazer existir. O resto que permanece ressoa certo mal-entendido, sensato contorno que implica desejo e um provável impulso para o próximo ato.
                                         
maicon jose de jesus vijarva
txt escrito para @aconfrariadostrouxas. 

21.6.19

O AMOR É SINTOMA QUE IMPLICA A FAZER MELHOR COM O PIOR


Querido amor, desde o dia que resolveu me deixar... eu fiquei sem equilíbrio nos pés para sustentar o caminhar. Estou cambaleando de cá para lá na esperança de tropeçar em ti e desmoronar em teus braços ao contornar a próxima esquina. Quero me despencar em pecado se for necessário para me deliciar da sua impureza. Será que alguém iria entender essa sacanagem que me faz ajoelhar todos os dias? Te amo a ponto de querer me tomar de ti para que não caia em tentação em se render aos meus desejos. Peço que venha, mas desejo que nunca diga sim. 

O meu fim constituiu em você realizar todos os meus caprichos e picotar a imagem que ficou de nós. As palavras viram carne quando ressoadas por mim, meus lábios espumam e vomitam sangue vermelho vida. Sinto-me tão miserável em parar meu mundo por esse sintoma que faz flashblack de um passado que sequer vivemos. Ei, meu amor... preciso te contar que estou abandonando a gente, deixei tudo no teatro em que nos conhecemos. Ou seria essa mais uma das minhas tentativas infrutíferas de ensaiar a despedida que nunca acontece? 

Caramba, o que tu levaste de mim que sequer eu mesmo tenha noção do que se foi com sua saída repentina? Certeza que o álcool te salvou das lembranças boas e permitiu que fosse homem o suficiente para partir sem que eu fizesse isso por você. Mas queria eu ter partido, porque esse era também o meu maior problema ao me confundir com ti. Nunca tenho coragem de partir por mim mesmo. O outro sempre se figura divino e me faz ajoelhar buscando perdão por erros que jamais empreendi. 

Por isso desejo em tão alto grau cair em tentação, conhecer a maldade que poupei por anos e que sorria para o mundo como bondade ao outro enquanto queria eu que todos experimentassem o que há de mais horroroso em cada um de nós humanos. Amar é tão abstruso que nos faz encarar de frente o nosso pior! Sorte foi a minha que tenha nos partido em vários pedaços e me deixado com o resto que ficou de mim para minha responsabilidade. 

O resto é sempre o processo mais caloroso que um ser humano pode trabalhar o seu próprio dejeto e reciclar o que ainda pulsa vida: a palavra que faz a carne viva sangrar pela boca na tentativa de fazer saber sobre o que nos amarrota a vida.

Maicon Jesus Vijarva