quinta-feira, 3 de agosto de 2017

CAMINHOS E PERCALÇOS DO CORPO: SUJEITO DO DESEJO EM MOVIMENTO

Dance II - Henri Matisse - 1910

A técnica e a expressividade são questões muito intrínsecas aos debates em dança. Embora exista ainda a tendência em considerar a dança um movimento direto e espontâneo de manifestação das emoções no intenso e árduo da elaboração/criação para aproximar-se à expressão de sentimentos e afetos pela dança.

Nesse processo de elaboração dos movimentos, equivale ao despertar para realidade, para encontrar uma forma de transformar a angústia imobilizadora em criativa; a rigidez em flexibilidade; a moral da necessidade em ética do desejo, através do movimento do corpo em dança.

A pulsão de vida e de morte estão intrínsecas nesse processo de elaboração do suposto corpo que se enxerga antes, durante e após a dança. Freud (1906-1909) descreve que tanto a arte e a literatura moderna se ocupam predominantemente dos mais delicados problemas, que envolvem todas as paixões, que encorajam a sensualidade e a ânsia do prazer, o desprezo de todos os princípios éticos e todos os ideais. Elas apresentam ao espírito do leitor figuras patológicas, problemas psicopático-sexuais, revolucionários e outros mais, nossos ouvidos são estimulados e superexcitados por uma música ministrada em grandes doses, importuna e ruidosa. 

A arte é uma possibilidade de expor o que somos de forma menos caótica ao outro. Através da sublimação¹ o sujeito pode pela dança canalizar seus instintos à margem do padrão social, para um movimento que traz uma linguagem que transmite uma reflexão para quem está observando, faminto por algo que capture todos seus sentidos, excitando e desnudando à alma.

O lugar que o texto propõe sustentar é a questão psíquica da imagem corporal no autoconhecimento pelo corpo, que é submetida à transformação/elaboração do não-dito, que se expressa pela associação livre da palavra e do não-corpo, que se inscreve, escreve e descreve em sua temporalidade e no espaço através de movimentos muitas vezes sutis à distração.

Recorrer à psicanálise é importante para investigação de passagens que não minimizem a condição fundante da imagem que se tem de si mesmo e refletir a respeito de um corpo diante à dualidade em que está submetido: o espelho matéria e espelho do olhar do outro, que demarca uma limitação real do corpo-movimento que se vê e é visto. 
“Sem ter como se esconder frente ao imperativo dos movimentos corporais escancarados no campo de visão de quem dança e de quem ensina dança, o corpo não consegue trapacear, ele é seu início e próprio limite”, Braga (2014). 

Deste modo, este texto busca refletir a linguagem do corpo não-dito ao corpo que se diz em dança sob à luz do olhar psicanalítico, um movimento de estranhamento sobre esse corpo que se constrói, descontrói e ressignificar na trama cotidiana das relações com o outro, na tentativa sustentar a ética do seu desejo.

A linguagem tornar-se-á espaço para reflexão sobre o corpo como uma possibilidade de sublimação dos instintos humano, para produção do fazer artístico em dança, que aborda a expressão da imagem do corpo na dança a partir de uma leitura psicanalítica, ao considerar que os corpos se lançam em movimentos por não poderem se dizer única e suficientemente em palavras, desenhando, assim, trajetória no espaço. 

No terreno da arte e da vida, em que há muito para falar, mas, muitas vezes, não existem vocábulos que possam sustentar o que o corpo deseja exprimir, a dança apresenta-se como alternativa para expurgar pela via da expressão, conhecimento e reconhecimento de si próprio e do outro. O que traz movimento ao corpo que dança e ao sujeito que se escreve, inscreve e descreve em sua temporalidade e no espaço?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREUD, Sigmund (1906-1909). Obras completas, vol. 8: O delírio e os sonhos na Gradiva, Análise da fobia de um garoto de cinco anos e outros textos; trad. Paulo César de Souza – 1 ed. – São Paulo.
BRAGA, Cristina Santaella (2014). Psicanálise, Dança e Educação: Caminhos e percalços.
VIJARVA, Maicon (2017).  A Nova Dinâmica do Eterno: Sujeito do Real ao Virtual (Clique aqui).
FORBES, Jorge. Artigo publicado na Revista Psique - número 51, março 2010 Link direto do site do autor: (Clique aqui).
________________________
¹ Sublimação: processo em que a energia ou impulso sexual (libido) é direcionada para atividades com valor social aceitável.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Agradeço sua visita, deixe um comentário e compartilhe o conteúdo do blog com seus amigos.