quinta-feira, 14 de julho de 2016

O silêncio em análise: não é um silêncio associado ao nada.

 

A relação do silêncio com a linguagem, da ordem da linguística, da elipse e do implícito, pode ser considerada sob um enfoque negativo - do “que não é” - mas o silêncio não fala, ele significa! Faz sentido essa reflexão?  A perspectiva do pensamento retratado, nos permite significar que o silêncio não está na ausência das palavras ou sons. Trata-se da questão de que o silêncio seja de propósito fundante, que estabelece um princípio de toda a significação. Por consequente, o silêncio guarda uma analogia essencial com o seu significado – aquilo “que ele é”, os seus sentidos.
Essas provocações do silêncio ocorrem no setting terapêutico, de maneira explícita. Nomeadamente nos processos psicanalíticos, numa dialética pulsante entre o silêncio por parte do analista, próprio da técnica, e os silêncios que conduzem à constituição de significado e elaboração de novos sentidos pelo analisando. Em contrapartida, dentro de todo esse ponto de vista de pensamento, a afasia psíquica precisará ser tocada, para que o silêncio seja quebrado e permita ao corpo falante gozar da própria vida.
Mas para que essa fórmula aconteça, permitindo ao sujeito nomear seus sentimentos, faz-se necessário que o analista seja capaz de dar conta do “não dito” no setting terapêutico, ou seja, parte de que o analista contenha o seu desejo de gozo da descoberta do analisando, forçando-o a falar; se apresentar e dizer qualquer coisa para para satisfazer o seu ego.
Para psicanálise o silêncio será mecanismo de defesa inato na análise, durante todo o processo psicanalítico, por levar em conta os papéis exercidos pelo silêncio na estrutura psíquica do analisando, com os quais se pode ter contato na prática analítica, em que revelam não existe destituição subjetiva que conduza ao ato analítico senão por efeito do silêncio, em outras palavras, é a partir do silêncio que se chega ao ato analítico. Na clínica contemporânea, portanto, o silêncio é o ponto de partida e o ponto de chegada do processo psicanalítico. 
A sua ocorrência durante o processo terapêutico emana de fatores variantes, sendo distintos também os papéis os quais acolhe, segundo o referencial epistemológico adotado pelo analista. O que possibilita ou não a comunicação na análise é, em essência, o silêncio. A pintura desta reflexão é que o silêncio nos conta uma história, tanto quanto a fala. Em contramão, é a vertente clássica psicanalítica que só pode pensar na psicanálise por meio da palavra verbalizada. Entretanto, ocorre que o silêncio, em si mesmo é uma comunicação que pode ter/trazer inúmeros sentidos. O que corrobora que mesmo que o silêncio se apresente como resistência, delata territórios nos quais evadimos pisar e, assim, promove uma fresta para a manifestação do inconsciente.
Nesse momento é que a interpretação do analista pode cooperar para um “se dar conta”, na tentativa de se proporcionar um sentido para o não-dito. É exatamente o que Reik (1926) retrata: “a psicanálise prova o poder das palavras e o poder do silêncio”. O peso de que o silêncio é um acontecimento intrigante na psicanálise, por estar atrelada ao talking cure – a cura pela palavra.  Exemplo é o da Ana O., analisanda de Freud.
As películas de estudo psicanalítico deste texto têm a intenção de instigar o leitor às indagações, questionamentos, posicionamentos frente ao cotidiano, à vida. Na tentativa de decifrar questões da metáfora da mãe morta cunhado pelo psicanalista Green, aprofundando-se sobre o silêncio na clínica do vazio, em que enquadra os efeitos nocivos dos fracassos, dos insucessos das relações objetais para constituição do psiquismo humano, em decorrência da ausência da figura materna.
O que permite ao analista – dar sentido a relevância do conceito de narcisismo primário como base, alicerce da estruturação psíquica do sujeito – curvar-se perante o sofrimento psíquico do sujeito: de que nada se sabe e que somente a escuta permitirá revelá-lo. O analista deixa de ser uma pintura das projeções das fantasias do sujeito, para ser continente, alicerce para conduzi-lo ao contato humano e possibilidade reconhecer e simbolizar a angústia trazida em análise.