sexta-feira, 24 de junho de 2016

O Pai Morto e o Desenvolvimento do Indivíduo: Da Dependência à Independência

      A idealização deste texto traz à baila a tentativa de compreender sobre como o analista/psicoterapeuta seja de qual linha for, está contribuindo para auxiliar os pais, tios, avós ou cuidadores, nessa tarefa árdua de “preparar” os filhos, netos, afilhados, sobrinhos na sua construção de si mesmo, examinando o crescimento em termos de dependência, transformando gradualmente no sentido à independência.
Seguramente, às mudanças pelas quais a imaturidade cede lugar à maturidade em termos de progressão na vida instintiva do indivíduo, está totalmente intrínseco à fase oral e à anal, à fálica e à genital e, do mesmo modo.  O crescimento emocional em termos da jornada do indivíduo da dependência à independência, em epítome, é um tanto que arriscado na contemporaneidade.
A psicanálise sempre ponderou sobre a importância da presença materna na constituição do eu da criança. Embora, bem se faz verdade, que a psicanálise nunca culpabilizou a mãe por não ser capaz de ser suficientemente boa.
Freud (1923) reflete que para amar é preciso ser amado e, consequentemente, acrescenta Winnicott (1979), que para que a mãe seja suficientemente boa, precisará ter experiência sobre esse âmbito.  Em Introdução ao Narcisismo (1914), Freud inova ao ir além, quando retrata que sua parte mais importante do narcisismo, pode ser isolada sob a forma do ‘complexo de castração’ (nos meninos, a ansiedade em relação ao pênis; nas meninas, a inveja desse pênis) e tratada em conexão com o efeito da coerção inicial da atividade sexual.
Dependendo do ambiente que a figura paterna, proporciona para a figura materna, dará subsídios para que a criança consiga sentir essa mãe viva e possa vivenciar o processo de castração de forma sadia.
Freud (1914) faz certa discussão sobre o amor próprio no indivíduo normal e no neurótico:
“O amor-próprio nos aparece de imediato como expressões da grandeza do Eu, não sendo aqui relevante o caráter composto dessa grandeza. Tudo o que se tem ou que se alcançou, todo resíduo do primitivo sentimento de onipotência que a experiência confirmou, ajuda a aumentar o amor-próprio” (FREUD, 1914, p. 45).

Em consonância com o autor, temos que reconhecer para o amor-próprio uma dependência bem íntima da libido narcísica. Apoiando-se em dois fatos fundamentais: o de que nas parafrenias o amor-próprio é aumentado, nas neuroses de transferência é diminuído; e de que na vida amorosa não ser amado rebaixa o amor-próprio, enquanto ser amado o eleva. Em alusão à reflexão de Freud (1914) ser amado representa o objetivo e a satisfação na escolha narcísica de objeto.
Se jazermos de acordo até nesta ocasião, então tenderemos a refletir que o bebê viverá a experiência que o conduzirá ao reconhecimento do “outro” e, posteriormente, a sua importância. Deste modo, Martino (2012) acrescenta:
“O bebê só admitirá que existe alguém além dele mesmo no mundo se sentir muito seguro com esse “outro alguém”, além dele. Passa então a desenvolver o que chamaríamos de amor narcísico. Na realidade só admitirá o outro se o outro for para ele um espelho. No narcisismo primário, ele se vê no outro (mãe). Nesse modelo, ele é (deve ser) o desejo da mãe: ‘ela vive para e por mim’” (MARTINO, 2012, p.64-5).

Voltando ao texto Introdução ao Narcisismo (1914), Freud distinguiu duas formas da libido: a libido do ego ou libido narcísica; e a libido do objeto, que é dirigida ao mundo externo, onde se encontra o objeto, fixando-o, abandonando-o ou passando de um objeto para o outro (modelo analítico de ligação). A segunda permite maior observação e estudo, enquanto a primeira se faz oculta, por se tratar de um processo interno.
“As relações do amor-próprio com o erotismo (com investimentos de objetos libidinais) podem ser apresentadas, concisamente, da maneira que segue. Em ambos os casos é preciso destinguir se os investimentos amorosos estão em sintonia com o Eu ou se, ao contrário, experimentaram uma repressão.  No primeiro caso (em que a utilização da libido é sincronizada com o Eu), amar é visto como qualquer outra atividade do Eu. O amar em si, enquanto ansiar, carecer, rebaixa o amor-próprio, e ser amado, achar amor em troca, possuir o objeto amado, eleva-o novamente. Sendo a libido reprimida, o investimento amoroso é sentido como grave diminuição do Eu, a satisfação amorosa é impossível, o reenriquecimento do Eu torna-se possível apenas retirando a libido dos objetos. O retorno da libido objetal ao Eu, sua  transformação em narcisismo, representa como que um amor feliz novamente e, por outro lado, um real amor feliz corresponde ao estado primordial em que libido de objeto e libido do Eu não se distinguem uma da outra” (FREUD, 1914, p. 47-8).

Para a teoria psicanalítica o termo “objeto” é qualquer pessoa ou coisa do mundo externo, que tem importância psíquica (investimento libidinal) para o sujeito podendo ser animadas ou inanimadas. A atitude do sujeito para com o objeto é designada “relações de objeto”. A energia psíquica – libido – busca no mundo externo um modelo em que se ligar e esse modelo nomearemos de objeto. Quando essa energia encontra o objeto, o que era simples libido livre torna-se então cartexia.  

A criança, nos primórdios da vida, ainda não é capaz de distinguir os objetos de si – identificação, no entanto, essa capacidade será adquirida nos primeiros meses de seu desenvolvimento. Para Martino (2012), a erotização, já presente, se faz de uma forma designada autoerotismo (amor-próprio).  
Na busca pelo objeto, se dá o desenvolvimento da libido. A personalidade se organiza em torno de zonas erógenas, com vivencias e sensações muito especificas. Uma área do corpo físico que fica especificamente disposta para o contato com o outro. As zonas erógenas concentram um elevado grau de excitação. Cada fase deste desenvolvimento é acompanhada de uma orientação libidinal, que se desloca pelas zonas do corpo, até que se desenvolva e concentrem-se predominantemente nos órgãos genitais, para assim se encontrar sob a influência da função reprodutora.  
Nas reflexões de Martino (2012) a predominância das zonas erógenas se modifica ao longo do desenvolvimento caracterizando fases. São tentativas de ligação com os pais, inicialmente com a figura materna (objeto), de quem fisicamente se desligou há pouco tempo.
Percebe-se que desde o nascimento até o segundo terço do primeiro ano de vida, a libido (interesse) da criança se concentra quase que exclusivamente na figura materna. Entretanto, as consequências da ausência do vínculo da figura paterna são tão mais graves quanto a ausência da figura materna. Partindo das contribuições de Martino (2012):
“A presença do pai, a princípio, se faz importante enquanto ideia no interno da figura materna, entretanto essa experiência simbólica carece do encontro com o “outro real”. Não se pode criar uma imagem interna sem um representante no mundo externo” (MARTINO, 2012, p. 66).

O papel da figura masculina, no caso, a paterna, é tanto mais importante quanto à feminina, materna. A resposta para essa reflexão, segundo Winnicott (1979) é clara, o pai precisará ser um ambiente suficientemente bom para essa mãe, para que assim, ela possa ser ambiente suficientemente bom para o bebê. Na ausência da figura paterna nesse ciclo de construção, trará grande demanda psíquica para a figura materna, que pode não suportar vivenciar toda essa experiência sozinha.
O pleito interno é muito amplo para que a mãe possa suportar frustrações no cuidado com essa criança, sem as contribuições e auxílio do ambiente seguro da figura masculina, paterna. Quando se cogita neste trabalho sobre a mãe morta, retratamos, justamente, não só a ausência desta mãe, mas figura-se um retrato tríade: o pai, que possa ser um ambiente para a mãe, para que essa possa então ser um ambiente de extensão para o bebê, quando iniciar sua aventura no rompimento do cordão umbilical.
Faz-se exclusivo, citar novamente, o grande pensador e psicoterapeuta contemporâneo Martino (2012), visto que sua teoria se sustenta no âmbito de pensar os vínculos fraternos da família. E, se confiarmos em Martino sobre a base dos vínculos, chegaremos ao seguinte pensar:
“É de extrema importância que, ao se arriscar nesse abismo chamado bebê, a mãe conte com um alguém (marido/pai) que mantenha a mão seguramente dada. De outra forma existirá sempre um grande risco de se perder nesse abismo. A mãe e o bebê se confundem, e essa importante experiência da discriminação entre um e outro só pode ocorrer com a entrada de mais alguém (o pai) na relação” (MARTINO, 2012, p.66).

É a partir dessa perspectiva do autor, que podemos supor, que dessa tríade que a mãe buscará a resposta para o viver, ou a confirmação da existência: “Sou amada”, já que o bebê ocupa uma posição incapaz de retribuir o amor dessa mãe, uma vez que ele e a mãe são um só, nesse primeiro momento da vida. De tal modo, a presença da figura paterna é justamente o que conduzirá a qualidade de vínculo com o objeto – a mãe.
Em Winnicott (1957/[1979]), destrinça as diversas maneiras em que o pai é valioso no vínculo triangular e, posteriormente, na vida social:
“A primeira coisa que quero dizer é que o pai é preciso em casa para ajudar a mãe a sentir-se bem em seu corpo e feliz em seu espírito. Uma criança é realmente sensível às relações entre seus pais e se tudo correr bem entre as paredes do lar, por assim dizer, a criança é a primeira a mostrar seu apreço por encontrar a vida mais fácil, mostrando-se mais contente e mais dócil de conduzir. Suponho ser isso o que uma criança entenderia por ‘segurança social’” (WINNICOTT, 1957/[1979], p.129).

O quatro reflexivo que o autor faz menção traz à baila, outras contribuições, que juntas enriquecem ainda mais o pensar. A união sexual de pai e mãe, de acordo com Winnicott (1957/[1979]), fornece um possível fato concreto em torno do qual a criança poderá construir uma fantasia, uma rocha a que ele se pode agarrar e contra a qual pode desferir seus golpes; e, além disso, fornece parte dos alicerces naturais para uma solução pessoal do problema das relações triangulares. Quando esse processo não ocorre de modo satisfatório e saudável, conduz à díade pai-mãe para construção maciça da mãe morta, em que negligencias do pai, podem causar danos significativos na mãe, no cuidado com o bebê.
Para Winnicott (1957/[1979]), a segunda maneira em que o pai pode ser valioso é:
“O pai ser necessário para dar à mãe apoio moral, ser um esteio para a sua autoridade, um ser humano que sustenta a lei e a ordem que a mãe implanta na vida da criança. Ele não precisa estar presente todo o tempo para cumprir essa missão, mas tem de aparecer com bastante frequência para que a criança sinta que o pai é um ser vivo e real. Grande parte da organização da vida de uma criança deve ser feita pela mãe, e os filhos gostam de sentir que a mãe pode dirigir o lar enquanto o pai não está realmente nele” (WINNICOTT, 1957/[1979], p.129).

Assim sendo, com efeito, toda figura feminina, tem de encontrar-se apta a falar e agir com autoridade; contudo se tiver de ser tudo no lar e tiver de prover todo o elemento de fortaleza ou rigor na vida dos filhos, a par do amor, padecerá sobre seus ombros um fardo deveras enfadonho. Além do mais, é muito mais simples para as crianças estarem capazes a contarem com duas figuras paternas; uma dessas figuras pode ser encarada como a conservação do amor, enquanto que a outra é detestada, e isto funda, em si, uma influência estabilizadora.
Em concordância ao escopo de Winnicott (1957/[1979]), quando vemos uma criança agredir a socos e pontapés a mãe, concluímos que, se o marido a estivesse apoiando, a criança provavelmente quereria agredir o pai e, muito possivelmente, nem sequer tentaria coisa alguma.
“A criança está constantemente predisposta a odiar alguém e se o pai não estiver presente para servir-lhe de alvo, ela detestará a mãe e isso confundi-la-á, visto ser à mãe que a criança mais fundamentalmente ama” (WINNICOTT, 1957/[1979], p.130).

A terceira reflexão de Winnicott (1957/[1979]), na importância do pai no vínculo triangular é que a criança precisa da figura paterna por causa das suas qualidades positivas e das coisas que o distingue de outros homens, bem como da vivacidade de que se reveste a sua personalidade. Durante o momento primário de vida, quando as impressões são vividas, é a ocasião adequada para que a criança esquadrinhe conhecimento com a figura paterna, se isso for possível.  
“Uma criança buscará à sua volta o pai, quando tiver apenas alguns meses de idade, estenderá para ele os braços quando o vir entrar no quarto e escutará seus passos [...] gradualmente consentirá que o pai se converta numa pessoa muito importante em sua vida. [...] quererá saber como ele realmente é, ao passo que [...] usará o pai como alguém que serve de incentivo à imaginação, dificilmente o conhecendo como todos os outros o conhecem” (WINNICOTT, 1957/[1979], p.130).

A perspectiva do autor revela que se o pai estiver presente e quiser conhecer o próprio filho, esta é uma criança de sorte e nas circunstâncias mais felizes o pai enriquece, de maneira abundante, o mundo do próprio filho. Desta maneira, completa Winnicott (1957/[1979], p.130): “Quando o pai e a mãe aceitam facilmente a responsabilidade pela existência da criança, o cenário fica montado para um bom lar”.

Uma das coisas que a figura paterna suficientemente boa faz pelos filhos é estar vivo e continuar vivo durante os primeiros anos das crianças. O valor desse simples ato é suscetível de ser esquecido. Embora seja natural que os filhos idealizem seus pais, é também muito valioso, para os primeiros anos, ter a experiência de conviver com eles e de conhecê-los como seres humanos, até o ponto de os descobrirem.
Confluímos com o complemento da reflexão de Winnicott (1957/[1979]:
“Conheço uma menina e um menino que pensaram estar passando um tempo maravilhoso, na última guerra, quando o pai deles estava no exército. Viviam com a mãe numa casa com um belo jardim e tinham tudo o que era preciso, até mais. Por vezes, caíam num estado de organizada atividade anti-social e quase demoliam a casa toda. Agora, quando olham para trás, podem ver que essas explosões periódicas eram tentativas, inconscientes nessa época, para forçarem o pai a aparecer em pessoa. Contudo a mãe conseguiu percebê-las e dominar a crise, apoiada pelas cartas que recebia do marido; mas podemos bem imaginar quanto ela ansiou por tê-lo em casa a seu lado, para que pudesse ocasionalmente respirar aliviada, enquanto o pai ordenava às crianças que fossem dormir” (WINNICOTT, 1957/[1979], p.130-1).

Como percebemos, a criança traz angústia das quais, a mãe, mesmo abalada pela situação, deve velá-lo. Para Martino (2012) o pai suficientemente bom, por sua vez, sente e participa da mesma dor, que inunda esse complexo processo, tentando elaborar os sentimentos invejosos gerados pela atenção da companheira, que se desloca dele para criança.  

Assim para que uma mãe não se torne uma mãe morta, será necessário que a figura paterna se faça um ambiente suficientemente bom, vivo, amando e confortando todos os medos e frustrações da mãe no cuidado com o bebê. Só assim, poderá se fazer um lar adequado para que a criança desenvolva toda sua potencialidade, tornando um adulto com um inconsciente mais próximo a realização. 

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