quinta-feira, 23 de junho de 2016

O Analista Morto e o Analista Continente

A universalidade sentimental de uma necessidade de reconhecimento, por parte da criatura humana, abrolha na literatura psicanalítica desde os seus primórdios até a atualidade, em diversos autores de distintas correntes psicanalíticas, com denominações, abordagens e contextos díspares. Partindo desta reflexão, Zimerman (1999) apresenta algumas acepções acerca da valorização do vínculo do reconhecimento:
 “A existência e valorização do Vínculo do Reconhecimento, nas seguintes quatro acepções possíveis: 1) Reconhecimento (o prefixo “re” tem significado de “voltar a acontecer”). 2) A aquisição de um reconhecimento do outro. 3) Ser reconhecido ao outro. 4) Ser reconhecido pelo outro” (ZIMERMAN, 1999, p. 162).

Segundo este autor, este último vínculo, acolá enfatiza o fato de que em bondosa parte a estruturação da personalidade de qualquer indivíduo é calcada na necessidade de resguardar-se a autoestima e o senso de identidade, e isto, além de diferentes fatores psicogênicos, igualmente está intimamente interligado com o reconhecimento por parte dos outros de que, de fato, ele existe e é valorizado como indivíduo autônomo, digno de ser amado e aceito pelos demais.
De acordo com Martino (2011), para que o analista não se torne um analista morto, precisará identificar acontecimentos do mundo externo, possibilitando ao analisando transformar seus vínculos fragilizados, em vínculos saudáveis, permita melhor discernimento entre o que é real e o que é imaginário, acresce o autor:
“Dessa forma, podemos descobrir os limites entre o eu e o outro. Quantas vezes nos pegamos querendo saber sobre o outro, porém, será que queremos saber realmente o que ele deseja ou, na verdade o que nos interessa é confirmar se ele quer aquilo que esperávamos que ele quisesse?” (MARTINO, 2011, p.24).

A reflexão proposta pelo autor vai de encontro tanto com o imaginário do analista, quanto com o imaginário do analisando, que retrata a perspectiva de que o analista morto, não conseguirá saber o que é dele e do outro, impossibilitando empatia e vínculo que será imprescindível para que o aspecto transferencial do analisando para o analista possa acontecer. É neste momento, que a mãe morta é projetada no analista, buscando aspectos desta mãe que se identifique com o analista. Martino (2011) propõe ainda que:
“Quando somos guiados por “certo vértice” de pensamento que compreenda o modelo continente/conteúdo, entendemos que aprender é doar espaço do eu para o outro (em ideia) se instale” (MARTINO, 2011, p.24).

Entende-se que um analista morto não capaz de ser continente também não será capaz de receber conteúdo algum trazido pelo analisado. Para Martino (2011), acolher o conteúdo coincide com receber a demanda do que no real compete ser ensinado, para levar a idealização fragilizada com a mãe morta, para uma compreensão simbólica de uma mãe que, dentro da sua capacidade, pode proporcionar certa afetividade, por mínimo que tenha sido.
Faz-se importante descrever nesta ocasião, o que Zimerman (2004) relata sobre o pensamento de Freud (1940), que é primordial para que o analista não se torne um analista morto:
“Por mais tentado que possa se sentir o analista a se tornar o educador, o modelo e o ideal de seus pacientes, qualquer que seja o desejo que tenha de moldá-los à sua imagem, ele precisa lembrar-se de que esse não é o objetivo que procura atingir na análise e até de que fracassará em sua tarefa entregando-se a essa tendência” (ZIMERMAN,2004, p.86).

O autor retrata que, assim agindo, o analista apenas repetiria o erro dos pais do paciente cuja influência sufocou a independência deste último quando criança e substituiria a antiga sujeição por uma nova.

Das contribuições de Zimerman (2004), cabe deduzir que a pessoa do analista não é mais do que uma simples lâmpada transferencial, na qual são projetados pelo paciente, provindas de seu psiquismo interior, que remonta os diversos elementos constituintes – pulsões e demandas do id, representações e funções do ego, ameaças e expectativas do superego, além dos objetos e configurações objetais internalizados.
Devido o desinvestimento do objeto materno e a identificação com a mãe morta, Green (1993) assinala que as defesas psíquicas empregadas pela criança para lidar com o sofrimento psíquico vivido pela falta do investimento materno, sufoca as relações interpessoais e intrapessoais. É partindo dessa problemática, que o analista terá que construir um vínculo de reconhecimento, trazendo de forma suficientemente boa, as angústias vivenciadas pelo analisado frente aos relacionamentos ulteriores à identificação com a mãe morta.
Os sentimentos são fontes de energia do psiquismo, e sabe-se em psicanálise que reprimir, negar e ignorar fazem parte de nosso mecanismo de sobrevivência psíquica, que segundo Green (1988):
“Atribui ao trabalho do negativo o caráter de intervenção essencial não apenas para a estruturação do psiquismo, mas também para a própria sobrevivência do sujeito humano, social e cultural” (GREEN, 1988, p. 101).

Nas contribuições das obras de Green (1990) na moderna psicanálise, o autor pinta à colocação na cena das reflexões acerca das relações objetais e seu caráter constitutivo do psiquismo humano. Yalom (2005) faz a seguinte reflexão sobre um analista:
“Não são as ideias, nem a visão, nem as ferramentas que realmente interessam na psicanálise. Se, no final de um tratamento, você perguntar ao paciente qual foi o processo da análise, do que ele se lembra? Nunca das ideias e sempre do relacionamento com o terapeuta. Eles raramente se lembram de uma conclusão importante do terapeuta, mas se lembra com carinho da relação” (YALOM, 2005, P.86-87)

Para Martino (2015), a dificuldade em tolerar o desconforto gerado pelo medo de perder impede o processo que conduz ao desapego, já que o medo de perder é filho do desejo de posse. Em outras palavras, pode-se interpretar a reflexão do autor ao que se trata do terapeuta morto, este que se torna incapaz de nutrir no paciente, a ideia de lidar com seu desconforto, tentando de uma forma inconsciente, curar a dor do paciente.
“O processo de cuidado vai além de explicações técnicas e “à aquisição inteligível de um saber sobre o passado e seus efeitos no psiquismo do sujeito”, porque essa atitude impediria o real conhecimento para cada análise” (KUPERMANN, 2008, p. 30)

Por mais que as técnicas e métodos de intervenção sejam eficazes, nada pode sobrepujar o contato de uma alma humana com outra alma humana (JUNG, 1961-1975). Isso revela que não basta dominar as técnicas se não existir o que Kupermann (2008) designa de “presença sensível” do terapeuta: estar atento ao que acontece nas sessões e corroborar o cuidado para que a genealogia criativa de cada paciente se estenda. É isso que a psicanálise se propõe: privilegiar a singularidade de cada analisando e o pundonor de seu sofrimento (KUPERMANN, 2008).


No livro “A arte de tornar-se um escritor original em três dias”, de Ludwing Borne [Loeb Baruch] (1823/1964-1968), preconizava o método de falar tudo aquilo que viesse à cabeça, para ser um escritor. Freud apreciava tanto esse livro que o carregava sempre consigo. A partir da leitura e de outras contribuições, Freud (1893-1895/2006) aprendera a importância da palavra e como ela é capaz de tocar o corpo. Libertar o inconsciente e dar uma nova perspectiva para aquele que sofre.
Em seu texto derradeiro, “Análise terminável e interminável” (1937/1975) na qual Freud diz que, por melhor que seja conduzida a interpretação em uma análise, sempre haverá um ponto de resistência. No homem, será realizado como “protesto masculino”, e, na mulher, como “inveja do pênis” – como Freud nomeou na sexualidade. [...] O dito em análise jamais será suficiente, e pode continuar indefinidamente, porque nem tudo pode ser nomeado.
“Se quiserem uma comparação, está na criação artística. Imaginemos um pintor. Em que momento ele diz “Este quadro acabou”? [...] O momento em que o artista diz “basta”, o quadro termina – mas também remanesce o infinito da obra. A obra é ao mesmo tempo, terminada e interminada, como uma psicanálise” (FORBES; RIOLFI, 2014, p.11-12).

Tal reflexão faz alusão ao processo terapêutico. O momento em que o paciente profere "basta", a análise finda – entretanto ao mesmo tempo remanesce o infinito do vínculo, a base da análise. Se houver um vínculo saudável, satisfatório para o analisando, essa imagem-obra da análise, será reprojetada para os seus amigos e familiares de forma positiva, harmonizando suas relações. Caso seja o contrário, a reprojeção será de um negativo desastroso.
A ideia do analista continente faz alusão às reflexões cunhadas na obra “Para Além da Clínica”, 2011 do escritor e psicoterapeuta Martino, propõe que a responsabilização, diferente da culpa, é um movimento do ego fortalecido, um ego forte qualifica o ”sujeito desejante”, aquele que escolhe e expande em direção ao mundo, em nome da realização (MARTINO, 2011).
Em Freud (1917-1920/2010), encontramos uma dualidade no funcionamento mental: o princípio do prazer, o qual já ponderamos pelo título ter a função de afastar qualquer tipo de desconforto que arrisque dominar o “eu”, e o princípio da realidade, na qual traz a verdade do “eu” o que jaz acolá externo. O princípio do prazer concerne ao processo primário de todo desenvolvimento do indivíduo e o princípio da realidade, ao processo secundário do desenvolvimento mental (FREUD, 1917-1920/2010). O equilíbrio constituiria a configuração mais saudável de enfrentar as situações coloquiais de cada indivíduo, porém o que se nota é a tendência enfarpelada pelo processo primário. O que descrever que a tendência a afastar o desconforto excede o que se pondera saudável, devido aos resultados produzidos pela busca incessante de satisfação.
A tolerância em adiar a satisfação labora como “elemento básico das experiências emocionais” (MARTINO, 2015, p. 15).  É através da tolerância às desilusões da tenra infância, que se torna crível suportar os desapontamentos ao prolixo da vida. É inevitável como o tempo todo, que o ser humano idealize pessoas e situações, a tendência basal está em fantasiar que seus desejos sejam realizados. Tão-somente intuindo que a falibilidade de tal aspiração é uma variável concreta, somos capazes de lidar de forma saudável com a realidade manifesta (FREUD, 1917-1920/2010).
Os pensadores citados retratam um analista continente, que irá caminhar junto nesta descoberta de si mesmo, para identificar não o certo ou o errado, mas o que se faz necessário ao analisando, para sua construção e realização de si mesmo. Torna-se propício volver ao conceito de Klein (1957-1974) a respeito de a importância da presença e, consequentemente, a ausência da mãe na primeira infância. O instante em que a criança deve esperar pela saciedade da fome, pelo “estar acolá” da figura materna e todo o ambiente proporcionado por ela.
Está ausência é o tempo saudável, imprescindível, ecúmeno, e que se fará necessário na configuração analítica. Não se discursa acolá o desamparo, mas as ocasiões adequadas para que o analisando reflita a partir desta ausência. Relembrando ou construindo experiências em que logo, empós certo tempo, possa sentir (recordar) os cuidados da análise e, por fim, simbolizar todo processo analítico.
Simbolizar é remeter-se ao real na ausência deste (KLEIN, 1967-1970). Constitui-se “daquilo que permite estar ligado ao ausente” (MARTINO, 2012, p. 43). Só podemos simbolizar quando estamos suficientemente protegidos, confiantes de que o real volverá para nos acolher. Winnicott (1979-2007, p. 34) acrescenta que “a capacidade de ficar só depende da existência de um objeto bom na realidade psíquica do indivíduo”.

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