sexta-feira, 24 de junho de 2016

O Pai Morto e o Desenvolvimento do Indivíduo: Da Dependência à Independência

      A idealização deste texto traz à baila a tentativa de compreender sobre como o analista/psicoterapeuta seja de qual linha for, está contribuindo para auxiliar os pais, tios, avós ou cuidadores, nessa tarefa árdua de “preparar” os filhos, netos, afilhados, sobrinhos na sua construção de si mesmo, examinando o crescimento em termos de dependência, transformando gradualmente no sentido à independência.
Seguramente, às mudanças pelas quais a imaturidade cede lugar à maturidade em termos de progressão na vida instintiva do indivíduo, está totalmente intrínseco à fase oral e à anal, à fálica e à genital e, do mesmo modo.  O crescimento emocional em termos da jornada do indivíduo da dependência à independência, em epítome, é um tanto que arriscado na contemporaneidade.
A psicanálise sempre ponderou sobre a importância da presença materna na constituição do eu da criança. Embora, bem se faz verdade, que a psicanálise nunca culpabilizou a mãe por não ser capaz de ser suficientemente boa.
Freud (1923) reflete que para amar é preciso ser amado e, consequentemente, acrescenta Winnicott (1979), que para que a mãe seja suficientemente boa, precisará ter experiência sobre esse âmbito.  Em Introdução ao Narcisismo (1914), Freud inova ao ir além, quando retrata que sua parte mais importante do narcisismo, pode ser isolada sob a forma do ‘complexo de castração’ (nos meninos, a ansiedade em relação ao pênis; nas meninas, a inveja desse pênis) e tratada em conexão com o efeito da coerção inicial da atividade sexual.
Dependendo do ambiente que a figura paterna, proporciona para a figura materna, dará subsídios para que a criança consiga sentir essa mãe viva e possa vivenciar o processo de castração de forma sadia.
Freud (1914) faz certa discussão sobre o amor próprio no indivíduo normal e no neurótico:
“O amor-próprio nos aparece de imediato como expressões da grandeza do Eu, não sendo aqui relevante o caráter composto dessa grandeza. Tudo o que se tem ou que se alcançou, todo resíduo do primitivo sentimento de onipotência que a experiência confirmou, ajuda a aumentar o amor-próprio” (FREUD, 1914, p. 45).

Em consonância com o autor, temos que reconhecer para o amor-próprio uma dependência bem íntima da libido narcísica. Apoiando-se em dois fatos fundamentais: o de que nas parafrenias o amor-próprio é aumentado, nas neuroses de transferência é diminuído; e de que na vida amorosa não ser amado rebaixa o amor-próprio, enquanto ser amado o eleva. Em alusão à reflexão de Freud (1914) ser amado representa o objetivo e a satisfação na escolha narcísica de objeto.
Se jazermos de acordo até nesta ocasião, então tenderemos a refletir que o bebê viverá a experiência que o conduzirá ao reconhecimento do “outro” e, posteriormente, a sua importância. Deste modo, Martino (2012) acrescenta:
“O bebê só admitirá que existe alguém além dele mesmo no mundo se sentir muito seguro com esse “outro alguém”, além dele. Passa então a desenvolver o que chamaríamos de amor narcísico. Na realidade só admitirá o outro se o outro for para ele um espelho. No narcisismo primário, ele se vê no outro (mãe). Nesse modelo, ele é (deve ser) o desejo da mãe: ‘ela vive para e por mim’” (MARTINO, 2012, p.64-5).

Voltando ao texto Introdução ao Narcisismo (1914), Freud distinguiu duas formas da libido: a libido do ego ou libido narcísica; e a libido do objeto, que é dirigida ao mundo externo, onde se encontra o objeto, fixando-o, abandonando-o ou passando de um objeto para o outro (modelo analítico de ligação). A segunda permite maior observação e estudo, enquanto a primeira se faz oculta, por se tratar de um processo interno.
“As relações do amor-próprio com o erotismo (com investimentos de objetos libidinais) podem ser apresentadas, concisamente, da maneira que segue. Em ambos os casos é preciso destinguir se os investimentos amorosos estão em sintonia com o Eu ou se, ao contrário, experimentaram uma repressão.  No primeiro caso (em que a utilização da libido é sincronizada com o Eu), amar é visto como qualquer outra atividade do Eu. O amar em si, enquanto ansiar, carecer, rebaixa o amor-próprio, e ser amado, achar amor em troca, possuir o objeto amado, eleva-o novamente. Sendo a libido reprimida, o investimento amoroso é sentido como grave diminuição do Eu, a satisfação amorosa é impossível, o reenriquecimento do Eu torna-se possível apenas retirando a libido dos objetos. O retorno da libido objetal ao Eu, sua  transformação em narcisismo, representa como que um amor feliz novamente e, por outro lado, um real amor feliz corresponde ao estado primordial em que libido de objeto e libido do Eu não se distinguem uma da outra” (FREUD, 1914, p. 47-8).

Para a teoria psicanalítica o termo “objeto” é qualquer pessoa ou coisa do mundo externo, que tem importância psíquica (investimento libidinal) para o sujeito podendo ser animadas ou inanimadas. A atitude do sujeito para com o objeto é designada “relações de objeto”. A energia psíquica – libido – busca no mundo externo um modelo em que se ligar e esse modelo nomearemos de objeto. Quando essa energia encontra o objeto, o que era simples libido livre torna-se então cartexia.  

A criança, nos primórdios da vida, ainda não é capaz de distinguir os objetos de si – identificação, no entanto, essa capacidade será adquirida nos primeiros meses de seu desenvolvimento. Para Martino (2012), a erotização, já presente, se faz de uma forma designada autoerotismo (amor-próprio).  
Na busca pelo objeto, se dá o desenvolvimento da libido. A personalidade se organiza em torno de zonas erógenas, com vivencias e sensações muito especificas. Uma área do corpo físico que fica especificamente disposta para o contato com o outro. As zonas erógenas concentram um elevado grau de excitação. Cada fase deste desenvolvimento é acompanhada de uma orientação libidinal, que se desloca pelas zonas do corpo, até que se desenvolva e concentrem-se predominantemente nos órgãos genitais, para assim se encontrar sob a influência da função reprodutora.  
Nas reflexões de Martino (2012) a predominância das zonas erógenas se modifica ao longo do desenvolvimento caracterizando fases. São tentativas de ligação com os pais, inicialmente com a figura materna (objeto), de quem fisicamente se desligou há pouco tempo.
Percebe-se que desde o nascimento até o segundo terço do primeiro ano de vida, a libido (interesse) da criança se concentra quase que exclusivamente na figura materna. Entretanto, as consequências da ausência do vínculo da figura paterna são tão mais graves quanto a ausência da figura materna. Partindo das contribuições de Martino (2012):
“A presença do pai, a princípio, se faz importante enquanto ideia no interno da figura materna, entretanto essa experiência simbólica carece do encontro com o “outro real”. Não se pode criar uma imagem interna sem um representante no mundo externo” (MARTINO, 2012, p. 66).

O papel da figura masculina, no caso, a paterna, é tanto mais importante quanto à feminina, materna. A resposta para essa reflexão, segundo Winnicott (1979) é clara, o pai precisará ser um ambiente suficientemente bom para essa mãe, para que assim, ela possa ser ambiente suficientemente bom para o bebê. Na ausência da figura paterna nesse ciclo de construção, trará grande demanda psíquica para a figura materna, que pode não suportar vivenciar toda essa experiência sozinha.
O pleito interno é muito amplo para que a mãe possa suportar frustrações no cuidado com essa criança, sem as contribuições e auxílio do ambiente seguro da figura masculina, paterna. Quando se cogita neste trabalho sobre a mãe morta, retratamos, justamente, não só a ausência desta mãe, mas figura-se um retrato tríade: o pai, que possa ser um ambiente para a mãe, para que essa possa então ser um ambiente de extensão para o bebê, quando iniciar sua aventura no rompimento do cordão umbilical.
Faz-se exclusivo, citar novamente, o grande pensador e psicoterapeuta contemporâneo Martino (2012), visto que sua teoria se sustenta no âmbito de pensar os vínculos fraternos da família. E, se confiarmos em Martino sobre a base dos vínculos, chegaremos ao seguinte pensar:
“É de extrema importância que, ao se arriscar nesse abismo chamado bebê, a mãe conte com um alguém (marido/pai) que mantenha a mão seguramente dada. De outra forma existirá sempre um grande risco de se perder nesse abismo. A mãe e o bebê se confundem, e essa importante experiência da discriminação entre um e outro só pode ocorrer com a entrada de mais alguém (o pai) na relação” (MARTINO, 2012, p.66).

É a partir dessa perspectiva do autor, que podemos supor, que dessa tríade que a mãe buscará a resposta para o viver, ou a confirmação da existência: “Sou amada”, já que o bebê ocupa uma posição incapaz de retribuir o amor dessa mãe, uma vez que ele e a mãe são um só, nesse primeiro momento da vida. De tal modo, a presença da figura paterna é justamente o que conduzirá a qualidade de vínculo com o objeto – a mãe.
Em Winnicott (1957/[1979]), destrinça as diversas maneiras em que o pai é valioso no vínculo triangular e, posteriormente, na vida social:
“A primeira coisa que quero dizer é que o pai é preciso em casa para ajudar a mãe a sentir-se bem em seu corpo e feliz em seu espírito. Uma criança é realmente sensível às relações entre seus pais e se tudo correr bem entre as paredes do lar, por assim dizer, a criança é a primeira a mostrar seu apreço por encontrar a vida mais fácil, mostrando-se mais contente e mais dócil de conduzir. Suponho ser isso o que uma criança entenderia por ‘segurança social’” (WINNICOTT, 1957/[1979], p.129).

O quatro reflexivo que o autor faz menção traz à baila, outras contribuições, que juntas enriquecem ainda mais o pensar. A união sexual de pai e mãe, de acordo com Winnicott (1957/[1979]), fornece um possível fato concreto em torno do qual a criança poderá construir uma fantasia, uma rocha a que ele se pode agarrar e contra a qual pode desferir seus golpes; e, além disso, fornece parte dos alicerces naturais para uma solução pessoal do problema das relações triangulares. Quando esse processo não ocorre de modo satisfatório e saudável, conduz à díade pai-mãe para construção maciça da mãe morta, em que negligencias do pai, podem causar danos significativos na mãe, no cuidado com o bebê.
Para Winnicott (1957/[1979]), a segunda maneira em que o pai pode ser valioso é:
“O pai ser necessário para dar à mãe apoio moral, ser um esteio para a sua autoridade, um ser humano que sustenta a lei e a ordem que a mãe implanta na vida da criança. Ele não precisa estar presente todo o tempo para cumprir essa missão, mas tem de aparecer com bastante frequência para que a criança sinta que o pai é um ser vivo e real. Grande parte da organização da vida de uma criança deve ser feita pela mãe, e os filhos gostam de sentir que a mãe pode dirigir o lar enquanto o pai não está realmente nele” (WINNICOTT, 1957/[1979], p.129).

Assim sendo, com efeito, toda figura feminina, tem de encontrar-se apta a falar e agir com autoridade; contudo se tiver de ser tudo no lar e tiver de prover todo o elemento de fortaleza ou rigor na vida dos filhos, a par do amor, padecerá sobre seus ombros um fardo deveras enfadonho. Além do mais, é muito mais simples para as crianças estarem capazes a contarem com duas figuras paternas; uma dessas figuras pode ser encarada como a conservação do amor, enquanto que a outra é detestada, e isto funda, em si, uma influência estabilizadora.
Em concordância ao escopo de Winnicott (1957/[1979]), quando vemos uma criança agredir a socos e pontapés a mãe, concluímos que, se o marido a estivesse apoiando, a criança provavelmente quereria agredir o pai e, muito possivelmente, nem sequer tentaria coisa alguma.
“A criança está constantemente predisposta a odiar alguém e se o pai não estiver presente para servir-lhe de alvo, ela detestará a mãe e isso confundi-la-á, visto ser à mãe que a criança mais fundamentalmente ama” (WINNICOTT, 1957/[1979], p.130).

A terceira reflexão de Winnicott (1957/[1979]), na importância do pai no vínculo triangular é que a criança precisa da figura paterna por causa das suas qualidades positivas e das coisas que o distingue de outros homens, bem como da vivacidade de que se reveste a sua personalidade. Durante o momento primário de vida, quando as impressões são vividas, é a ocasião adequada para que a criança esquadrinhe conhecimento com a figura paterna, se isso for possível.  
“Uma criança buscará à sua volta o pai, quando tiver apenas alguns meses de idade, estenderá para ele os braços quando o vir entrar no quarto e escutará seus passos [...] gradualmente consentirá que o pai se converta numa pessoa muito importante em sua vida. [...] quererá saber como ele realmente é, ao passo que [...] usará o pai como alguém que serve de incentivo à imaginação, dificilmente o conhecendo como todos os outros o conhecem” (WINNICOTT, 1957/[1979], p.130).

A perspectiva do autor revela que se o pai estiver presente e quiser conhecer o próprio filho, esta é uma criança de sorte e nas circunstâncias mais felizes o pai enriquece, de maneira abundante, o mundo do próprio filho. Desta maneira, completa Winnicott (1957/[1979], p.130): “Quando o pai e a mãe aceitam facilmente a responsabilidade pela existência da criança, o cenário fica montado para um bom lar”.

Uma das coisas que a figura paterna suficientemente boa faz pelos filhos é estar vivo e continuar vivo durante os primeiros anos das crianças. O valor desse simples ato é suscetível de ser esquecido. Embora seja natural que os filhos idealizem seus pais, é também muito valioso, para os primeiros anos, ter a experiência de conviver com eles e de conhecê-los como seres humanos, até o ponto de os descobrirem.
Confluímos com o complemento da reflexão de Winnicott (1957/[1979]:
“Conheço uma menina e um menino que pensaram estar passando um tempo maravilhoso, na última guerra, quando o pai deles estava no exército. Viviam com a mãe numa casa com um belo jardim e tinham tudo o que era preciso, até mais. Por vezes, caíam num estado de organizada atividade anti-social e quase demoliam a casa toda. Agora, quando olham para trás, podem ver que essas explosões periódicas eram tentativas, inconscientes nessa época, para forçarem o pai a aparecer em pessoa. Contudo a mãe conseguiu percebê-las e dominar a crise, apoiada pelas cartas que recebia do marido; mas podemos bem imaginar quanto ela ansiou por tê-lo em casa a seu lado, para que pudesse ocasionalmente respirar aliviada, enquanto o pai ordenava às crianças que fossem dormir” (WINNICOTT, 1957/[1979], p.130-1).

Como percebemos, a criança traz angústia das quais, a mãe, mesmo abalada pela situação, deve velá-lo. Para Martino (2012) o pai suficientemente bom, por sua vez, sente e participa da mesma dor, que inunda esse complexo processo, tentando elaborar os sentimentos invejosos gerados pela atenção da companheira, que se desloca dele para criança.  

Assim para que uma mãe não se torne uma mãe morta, será necessário que a figura paterna se faça um ambiente suficientemente bom, vivo, amando e confortando todos os medos e frustrações da mãe no cuidado com o bebê. Só assim, poderá se fazer um lar adequado para que a criança desenvolva toda sua potencialidade, tornando um adulto com um inconsciente mais próximo a realização. 

quinta-feira, 23 de junho de 2016

O Analista Morto e o Analista Continente

A universalidade sentimental de uma necessidade de reconhecimento, por parte da criatura humana, abrolha na literatura psicanalítica desde os seus primórdios até a atualidade, em diversos autores de distintas correntes psicanalíticas, com denominações, abordagens e contextos díspares. Partindo desta reflexão, Zimerman (1999) apresenta algumas acepções acerca da valorização do vínculo do reconhecimento:
 “A existência e valorização do Vínculo do Reconhecimento, nas seguintes quatro acepções possíveis: 1) Reconhecimento (o prefixo “re” tem significado de “voltar a acontecer”). 2) A aquisição de um reconhecimento do outro. 3) Ser reconhecido ao outro. 4) Ser reconhecido pelo outro” (ZIMERMAN, 1999, p. 162).

Segundo este autor, este último vínculo, acolá enfatiza o fato de que em bondosa parte a estruturação da personalidade de qualquer indivíduo é calcada na necessidade de resguardar-se a autoestima e o senso de identidade, e isto, além de diferentes fatores psicogênicos, igualmente está intimamente interligado com o reconhecimento por parte dos outros de que, de fato, ele existe e é valorizado como indivíduo autônomo, digno de ser amado e aceito pelos demais.
De acordo com Martino (2011), para que o analista não se torne um analista morto, precisará identificar acontecimentos do mundo externo, possibilitando ao analisando transformar seus vínculos fragilizados, em vínculos saudáveis, permita melhor discernimento entre o que é real e o que é imaginário, acresce o autor:
“Dessa forma, podemos descobrir os limites entre o eu e o outro. Quantas vezes nos pegamos querendo saber sobre o outro, porém, será que queremos saber realmente o que ele deseja ou, na verdade o que nos interessa é confirmar se ele quer aquilo que esperávamos que ele quisesse?” (MARTINO, 2011, p.24).

A reflexão proposta pelo autor vai de encontro tanto com o imaginário do analista, quanto com o imaginário do analisando, que retrata a perspectiva de que o analista morto, não conseguirá saber o que é dele e do outro, impossibilitando empatia e vínculo que será imprescindível para que o aspecto transferencial do analisando para o analista possa acontecer. É neste momento, que a mãe morta é projetada no analista, buscando aspectos desta mãe que se identifique com o analista. Martino (2011) propõe ainda que:
“Quando somos guiados por “certo vértice” de pensamento que compreenda o modelo continente/conteúdo, entendemos que aprender é doar espaço do eu para o outro (em ideia) se instale” (MARTINO, 2011, p.24).

Entende-se que um analista morto não capaz de ser continente também não será capaz de receber conteúdo algum trazido pelo analisado. Para Martino (2011), acolher o conteúdo coincide com receber a demanda do que no real compete ser ensinado, para levar a idealização fragilizada com a mãe morta, para uma compreensão simbólica de uma mãe que, dentro da sua capacidade, pode proporcionar certa afetividade, por mínimo que tenha sido.
Faz-se importante descrever nesta ocasião, o que Zimerman (2004) relata sobre o pensamento de Freud (1940), que é primordial para que o analista não se torne um analista morto:
“Por mais tentado que possa se sentir o analista a se tornar o educador, o modelo e o ideal de seus pacientes, qualquer que seja o desejo que tenha de moldá-los à sua imagem, ele precisa lembrar-se de que esse não é o objetivo que procura atingir na análise e até de que fracassará em sua tarefa entregando-se a essa tendência” (ZIMERMAN,2004, p.86).

O autor retrata que, assim agindo, o analista apenas repetiria o erro dos pais do paciente cuja influência sufocou a independência deste último quando criança e substituiria a antiga sujeição por uma nova.

Das contribuições de Zimerman (2004), cabe deduzir que a pessoa do analista não é mais do que uma simples lâmpada transferencial, na qual são projetados pelo paciente, provindas de seu psiquismo interior, que remonta os diversos elementos constituintes – pulsões e demandas do id, representações e funções do ego, ameaças e expectativas do superego, além dos objetos e configurações objetais internalizados.
Devido o desinvestimento do objeto materno e a identificação com a mãe morta, Green (1993) assinala que as defesas psíquicas empregadas pela criança para lidar com o sofrimento psíquico vivido pela falta do investimento materno, sufoca as relações interpessoais e intrapessoais. É partindo dessa problemática, que o analista terá que construir um vínculo de reconhecimento, trazendo de forma suficientemente boa, as angústias vivenciadas pelo analisado frente aos relacionamentos ulteriores à identificação com a mãe morta.
Os sentimentos são fontes de energia do psiquismo, e sabe-se em psicanálise que reprimir, negar e ignorar fazem parte de nosso mecanismo de sobrevivência psíquica, que segundo Green (1988):
“Atribui ao trabalho do negativo o caráter de intervenção essencial não apenas para a estruturação do psiquismo, mas também para a própria sobrevivência do sujeito humano, social e cultural” (GREEN, 1988, p. 101).

Nas contribuições das obras de Green (1990) na moderna psicanálise, o autor pinta à colocação na cena das reflexões acerca das relações objetais e seu caráter constitutivo do psiquismo humano. Yalom (2005) faz a seguinte reflexão sobre um analista:
“Não são as ideias, nem a visão, nem as ferramentas que realmente interessam na psicanálise. Se, no final de um tratamento, você perguntar ao paciente qual foi o processo da análise, do que ele se lembra? Nunca das ideias e sempre do relacionamento com o terapeuta. Eles raramente se lembram de uma conclusão importante do terapeuta, mas se lembra com carinho da relação” (YALOM, 2005, P.86-87)

Para Martino (2015), a dificuldade em tolerar o desconforto gerado pelo medo de perder impede o processo que conduz ao desapego, já que o medo de perder é filho do desejo de posse. Em outras palavras, pode-se interpretar a reflexão do autor ao que se trata do terapeuta morto, este que se torna incapaz de nutrir no paciente, a ideia de lidar com seu desconforto, tentando de uma forma inconsciente, curar a dor do paciente.
“O processo de cuidado vai além de explicações técnicas e “à aquisição inteligível de um saber sobre o passado e seus efeitos no psiquismo do sujeito”, porque essa atitude impediria o real conhecimento para cada análise” (KUPERMANN, 2008, p. 30)

Por mais que as técnicas e métodos de intervenção sejam eficazes, nada pode sobrepujar o contato de uma alma humana com outra alma humana (JUNG, 1961-1975). Isso revela que não basta dominar as técnicas se não existir o que Kupermann (2008) designa de “presença sensível” do terapeuta: estar atento ao que acontece nas sessões e corroborar o cuidado para que a genealogia criativa de cada paciente se estenda. É isso que a psicanálise se propõe: privilegiar a singularidade de cada analisando e o pundonor de seu sofrimento (KUPERMANN, 2008).


No livro “A arte de tornar-se um escritor original em três dias”, de Ludwing Borne [Loeb Baruch] (1823/1964-1968), preconizava o método de falar tudo aquilo que viesse à cabeça, para ser um escritor. Freud apreciava tanto esse livro que o carregava sempre consigo. A partir da leitura e de outras contribuições, Freud (1893-1895/2006) aprendera a importância da palavra e como ela é capaz de tocar o corpo. Libertar o inconsciente e dar uma nova perspectiva para aquele que sofre.
Em seu texto derradeiro, “Análise terminável e interminável” (1937/1975) na qual Freud diz que, por melhor que seja conduzida a interpretação em uma análise, sempre haverá um ponto de resistência. No homem, será realizado como “protesto masculino”, e, na mulher, como “inveja do pênis” – como Freud nomeou na sexualidade. [...] O dito em análise jamais será suficiente, e pode continuar indefinidamente, porque nem tudo pode ser nomeado.
“Se quiserem uma comparação, está na criação artística. Imaginemos um pintor. Em que momento ele diz “Este quadro acabou”? [...] O momento em que o artista diz “basta”, o quadro termina – mas também remanesce o infinito da obra. A obra é ao mesmo tempo, terminada e interminada, como uma psicanálise” (FORBES; RIOLFI, 2014, p.11-12).

Tal reflexão faz alusão ao processo terapêutico. O momento em que o paciente profere "basta", a análise finda – entretanto ao mesmo tempo remanesce o infinito do vínculo, a base da análise. Se houver um vínculo saudável, satisfatório para o analisando, essa imagem-obra da análise, será reprojetada para os seus amigos e familiares de forma positiva, harmonizando suas relações. Caso seja o contrário, a reprojeção será de um negativo desastroso.
A ideia do analista continente faz alusão às reflexões cunhadas na obra “Para Além da Clínica”, 2011 do escritor e psicoterapeuta Martino, propõe que a responsabilização, diferente da culpa, é um movimento do ego fortalecido, um ego forte qualifica o ”sujeito desejante”, aquele que escolhe e expande em direção ao mundo, em nome da realização (MARTINO, 2011).
Em Freud (1917-1920/2010), encontramos uma dualidade no funcionamento mental: o princípio do prazer, o qual já ponderamos pelo título ter a função de afastar qualquer tipo de desconforto que arrisque dominar o “eu”, e o princípio da realidade, na qual traz a verdade do “eu” o que jaz acolá externo. O princípio do prazer concerne ao processo primário de todo desenvolvimento do indivíduo e o princípio da realidade, ao processo secundário do desenvolvimento mental (FREUD, 1917-1920/2010). O equilíbrio constituiria a configuração mais saudável de enfrentar as situações coloquiais de cada indivíduo, porém o que se nota é a tendência enfarpelada pelo processo primário. O que descrever que a tendência a afastar o desconforto excede o que se pondera saudável, devido aos resultados produzidos pela busca incessante de satisfação.
A tolerância em adiar a satisfação labora como “elemento básico das experiências emocionais” (MARTINO, 2015, p. 15).  É através da tolerância às desilusões da tenra infância, que se torna crível suportar os desapontamentos ao prolixo da vida. É inevitável como o tempo todo, que o ser humano idealize pessoas e situações, a tendência basal está em fantasiar que seus desejos sejam realizados. Tão-somente intuindo que a falibilidade de tal aspiração é uma variável concreta, somos capazes de lidar de forma saudável com a realidade manifesta (FREUD, 1917-1920/2010).
Os pensadores citados retratam um analista continente, que irá caminhar junto nesta descoberta de si mesmo, para identificar não o certo ou o errado, mas o que se faz necessário ao analisando, para sua construção e realização de si mesmo. Torna-se propício volver ao conceito de Klein (1957-1974) a respeito de a importância da presença e, consequentemente, a ausência da mãe na primeira infância. O instante em que a criança deve esperar pela saciedade da fome, pelo “estar acolá” da figura materna e todo o ambiente proporcionado por ela.
Está ausência é o tempo saudável, imprescindível, ecúmeno, e que se fará necessário na configuração analítica. Não se discursa acolá o desamparo, mas as ocasiões adequadas para que o analisando reflita a partir desta ausência. Relembrando ou construindo experiências em que logo, empós certo tempo, possa sentir (recordar) os cuidados da análise e, por fim, simbolizar todo processo analítico.
Simbolizar é remeter-se ao real na ausência deste (KLEIN, 1967-1970). Constitui-se “daquilo que permite estar ligado ao ausente” (MARTINO, 2012, p. 43). Só podemos simbolizar quando estamos suficientemente protegidos, confiantes de que o real volverá para nos acolher. Winnicott (1979-2007, p. 34) acrescenta que “a capacidade de ficar só depende da existência de um objeto bom na realidade psíquica do indivíduo”.