terça-feira, 1 de março de 2016

O ANALISTA E O ANALISADO: O SILÊNCIO NA ESCUTA PSICANALÍTICA


No penúltimo e, atualmente, último ano letivo de graduação, vem sendo enriquecido por sentimentos de medo, ansiedade, gratidão, ódio, felicidade e muitos outros. Há também as alianças, o aprendizado e outros atributos que vão se construindo nas experiências, que resultam na reformulação do eu-coletivo – esse que compartilhamos com o outro, que construímos através desse contato estupefato com o outro mágico.
É perceptível, para mim, o quanto venho aprendendo e reaprendendo na experiência com a clínica escola, especialmente com “meus” pacientes, mesmo tendo a consciência que não são meus, e fico muito feliz por isso, já que estamos caminhando juntos nessa troca de experiências.  A confiança que os pacientes depositam em você na terapia é excitante, nutrem em nós terapeutas iniciantes e/ou profissionais renomados, o desejo de buscar sempre mais o conhecimento e reconhecer nossas experiências vivenciadas. É fato que alguns pacientes procuram a terapia na tentativa de que você resolva a dor deles, outros na busca de encontrar um continente suficientemente bom, que possa ouvir ou simplesmente acolher o seu silêncio, quando acontece.
Em geral, a psicoterapia é procurada num momento de dor e angústia, quando o indivíduo já não sabe mais o que fazer com sua vida. A psicoterapia não é algo fácil de fazer, ela traz movimentos internos e externos, sem soluções prontas. Quando o processo terapêutico começa a se desenvolver, o analisado tem dificuldade em lidar com aquilo que traz em terapia. Muitas vezes estão acostumados a serem condenados por seus atos, por isso tendem a resistência ao tratar do que lhe causa dor. Por conta, mas não somente, da resistência, o analisado verbaliza a fala mais comum em terapia: não sei o que dizer. No entanto, como diz minha orientadora da linha psicanalítica, não saber o que dizer, não significa que não há o que ser dito.
A questão que venho propor neste texto é o silêncio no universo terapêutico, recordo-me que nos primeiros textos publicados aqui no blog, traziam a baila questões sobre o silêncio, e o quão importante é para nós analistas e para os analisados, no setting terapêutico, lidar com essa qualidade interna. Por ser um fato clinico inconteste, o silêncio tem sido abordado de forma distinta pelos principais teóricos da Psicologia e, em especial, da Psicanálise, sendo, deste modo, bastante diversificados os aspectos clínicos e epistemológicos alusivos à questão. No setting terapêutico nada pode ser displicente, nada é displicente.
Na Psicanálise a temática silêncio, à primeira vista, historicamente, nos remete, à resistência ao processo de mudança, por parte do paciente, e, tecnicamente, à intensidade dos não-ditos no processo de investigação clínica a partir da fala. A sua ocorrência durante o processo terapêutico emana de fatores variantes, sendo distintos também os papéis às quais acolhe, segundo o referencial epistemológico adotado pelo analista.
No ponto de vista de Cañizal, pesquisador das manifestações não-verbais na comunicação, assegura que “o que possibilita ou impossibilita a comunicação é, em última instância, o silêncio” (CAÑIZAL, 2005 apud PADRÃO, 2009, p. 93), preconizando que em um enunciado verbal se escondem “frases do silêncio” (CAÑIZAL, p. 95).
O que o autor retrata é que o silêncio nos conta uma história, tanto quanto a fala. Mesmo que o silêncio se apresente como resistência, delata territórios nos quais evadimos pisar e, assim, promove uma fresta para a manifestação do inconsciente. Nesse momento é que a interpretação do analista pode cooperar para um “se dar conta”, na tentativa de se proporcionar um sentido para o não-dito.
§  “Não seria justo [...] atribuir os resultados da psicanálise unicamente ao poder das palavras. Seria mais exato dizer que a psicanálise prova o poder das palavras e o poder do silêncio.” (REIK, 1926 apud NASIO, 2010, p. 19).

Um teórico Theodor Reik (1926), que lança o ensaio “No início é o silêncio” um dos mais antigos textos sobre este tema na psicanálise testemunha uma presença positiva do silêncio nas sessões de psicoterapia, tanto na perspectiva do âmbito do paciente quanto do analista.
§  Sim, o silêncio está presente no setting terapêutico e “seus efeitos são tão decisivos quanto os de uma palavra efetivamente pronunciada.” (NASIO, 2010, p. 7).
O peso que o silêncio é um acontecimento intrigante em psicanálise, por ser estar atrelada ao talking cure – a cura pela palavra.  Exemplo clássico é a analisada Ana O. que apresenta OLIVEIRA (2009):
§  Mas foi propondo a seu médico Joseph Breuer que se calasse, para que ela pudesse falar, que Anna O. descreveu o que Freud descobriria e confirmaria como o ponto de partida do processo analítico e sua definição – a qualidade da escuta (em silêncio) do analista, as associações do analisando, que propiciam a fala do analista. O silêncio do analista, atitude de sua abstinência e de sua escuta, instaura a possibilidade e a assimetria necessária no espaço analítico (OLIVEIRA, 2009, p. 118).

O silêncio do analista, caráter de sua abstinência e de sua escuta, instaura a possibilidade e a assimetria imprescindível no espaço analítico. Sabe-se que a psicanálise passou a existir da prática clínica freudiana com histéricas e que, a partir dessa clínica constituíram os conceitos fundamentais da teoria psicanalítica, ancorados na singularidade da escuta terapêutica. De acordo com a história, a psicanálise foi estabelecida a partir da constatação das faculdades terapêuticos da verbalização, o que abandonava o silêncio em uma posição de obstáculo à rememoração daquilo que jazia por trás do sintoma exposto pelo paciente. Em determinados momentos da prática freudiana procurava-se induzir o paciente a expor aquilo que não estivesse sendo dito, em direção à reversão do fluxo da associação livre e à catarse redentora do sintoma.
 Segundo (HENRIQUES, 2012 APUD GOMES, 2011):
§  Quando o silêncio se fazia presente na sessão era atribuído a fatores, em geral, cerceadores do processo analítico: ao retraimento do sujeito diante do analista, à censura diante de algum pensamento (recalque inconsciente), à dificuldade na transferência – como uma resistência à análise, ou à ação da pulsão de morte engendrada pelo aparelho psíquico (HENRIQUES, 2012 APUD GOMES, 2011).

O autor apresenta, num contexto histórico, as principais conjecturas teóricas da psicanálise associados ao silêncio:
CENSURA – advinda dos conteúdos inconscientes, interrompe o fluxo da associação livre e dificulta o estabelecimento da transferência. Sob o enfoque da 1ª tópica freudiana, o silêncio-censura pode decorrer de uma falha no recalcamento de uma representação, um “vazio do recalque”;
RECALQUE – impede as representações inconscientes de emergirem em palavras, considerado, assim, na 1ª tópica, como a origem da resistência;
TRANSFERÊNCIA X RESISTÊNCIA – conjugação essencial para o processo de análise; o silêncio-resistência é visto como uma característica muito importante no manejo da transferência, por ser esta o instrumento fundamental na ação terapêutica;
MECANISMOS DE DEFESA – sob a 2ª tópica, o recalcado não opõe resistência à cura; o silêncio passa a ser visto como um mecanismo de defesa ao mundo externo ou à intervenção do analista, na busca de algum caminho que leve à consciência;
PULSÃO DE MORTE – age em silêncio - compulsão (repetição), sem representação no inconsciente, leva à inércia e não à vida. A manifestação do silêncio no psiquismo leva a dificuldades na capacidade de simbolização (GOMES, 2011).
Na psicanálise contemporânea, o silêncio de escuta é ponto de acinte da análise. O silêncio do analista se contrapõe à manifestação de suposto-saber que o analisando espera descobrir. Neste momento, o analista constitui-se como faltante, diante do analisando. É preciso estabelecer um jogo pulsional, Zolty descreve esse jogo como:
§  Ritmado no movimento do tratamento, ainda que o paciente questione ou se inquiete quando, por vezes, o analista parece afastar-se (ZOLTY, 2010).



O analista sabe que a escuta está além da palavra, a escuta do silêncio, promovendo a fala, para produzir início ao processo analítico. O acolhimento dos silêncios dos pacientes significa, por sobre tudo, lhes proporcionar uma escuta verdadeiramente analítica, que está para além do ouvir as palavras, que se determina pelo não-dito, pela comunicação entre o inconsciente do analisando e do analista. Nesta aclive, o silêncio do analista sustenta o “desejo de nada saber” a respeito de seu paciente ou ainda o lugar de mudez do analista – lugar do suposto saber – o qual é nada mais do que sinal de anuência tácita do discurso do paciente.
Em epítome, o discurso do paciente se estabelece por meio de uma comunicação préverbal e infraverbal, lugar da intersubjetividade. Em outros versos, sua função é a de ser um catalizador do discurso comunicado, compreendendo o seu sentido. Essa reflexão nos remete que não são as palavras pronunciadas pela voz que têm acuidade, mas o que nos diz quem discursa. O tom de sua fala se torna mais importante do que o que ele diz. O filosofo Sócrates contribui e encerra a primeira parte deste estudo:

“Fala, para que eu possa vê-lo”, disse Sócrates. (REIK, 1956 apud LAGAAY, 2008, p. 55).

Referências

ZOLTY, Liliane. O psicanalista à escuta do silêncio. In J-D Nasio, O silêncio na psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010.
LAGAAY, Alice. Between Sound and Silence: Voice in the History of Psychoanalysis. Original em inglês. ISSN 1756-8226. Freie Univesitat Berlin. Volume I (1), 2008.
BIRMAN, Joel. Estilo e Modernidade em Psicanálise. São Paulo, Editora 34, 1997
GOMES, Sérgio. O círculo de Viena: o silêncio na psicanálise I. Instituto de Medicina Coletiva da UERJ. Rio de Janeiro, julho 2011. Disponível em: Acesso em 7 out. 2012.
OLIVEIRA, Denise Cabral de. Silêncios: resistência e perlaboração, regressão e repouso. Artigo. Cad. Psicanál.- CPRJ, Rio de Janeiro, ano 31, n. 22, p. 117-138, 2009. Disponível em: , Acesso em 2 out. 2012. OLIVEIRA, Vânia Maria Rocha de; CAMPISTA, Valesca do Rosário. O silêncio: multiplicidade de sentidos. Sinais: revista eletrônica, Vitória, CCHN, UFES, n.2, v.1, p. 107-120, out. 2007.

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