domingo, 20 de março de 2016

SOBRE A INVEJA: UMA VISÃO PSICANALÍTICA


Em algum momento da jornada do viver, por ligeiro instante seja, observamos ao nosso redor e nos pegamos em flagrante interrogando sobre certas circunstâncias da vida humana. Por assim ser, reflito, na ocasião, sobre os aspectos da inveja.
Muitos amigos e pessoas do cotidiano articulam em alto grau sobre essa questão tão intrínseca ao humano. Alguns de feitio irônico, outros amedrontados e aterrorizados por não sentir apreço algum sobre o sentimento de inveja.
O apreço que falo é ser capaz de pensar sobre tal sentimento, consciente de que é inato ao ser humano. O psiquiatra e pensador Jung (1983) afirma que a sombra é o que nos torna humanos e que o mal (o não adequado socialmente) é imprescindível para a completa harmonia psíquica.
De acordo com o pensador, fica claro que todos nós temos uma sombra e, quanto menos ela for incorporada, mais intensamente negra e enfadonha ela será, se desenvolvendo em plano inconsciente, com ressentimento reprimido.
Lidar com os aspectos da sombra, pode nos possibilitar a adequada harmonia com os instintos e, com o modo com que as suas manifestações serão controladas por nós coletivamente. É infactível erradicar a sombra, devido seu conteúdo ser projetado de forma intensa e irracional, positiva ou negativa sobre o próximo. Por isso que, em sua essência, admitir a sombra é romper com a influência compulsiva e se abrir ao crescimento de si mesmo. Estes são ensejos que ajudam a tornar o mote inveja um tanto que abstruso e quase sempre pouco compreendido.
Para a psicanálise a inveja, a priori, é um impulso ocasionado pelo ódio, inato ao sujeito, desde a puerícia. Já para a filosofia a inveja é a odiosidade que afeta o sujeito de tal modo, que ele se entristece com a felicidade do outro, e o adverso, se alegra com a infelicidade do mesmo.
Nota-se que o sentimento de inveja cunha impulsos negativos com a intenção de aniquilar ou usurpar os bens de outra pessoa, para abrandar uma pulsão de infelicidade do invejoso. Desta forma, a inveja é o ódio que se energiza, podendo de tal modo ser considerado um sentimento. Este sentimento se intensifica quando o ser humano se sente desestabilizado, devido ao complexo de inferioridade em relação a um ou mais ser humano.
Klein (1882-1960) em seu ensaio Inveja e gratidão (1947) utiliza de uma fábula para elucidar o funcionamento da psique daquele que vivencia veementemente o sentimento de inveja.  A fábula narra a história de certa ocasião, em que um homem extremamente invejoso de seu vizinho, recebe a visita de uma fada, que lhe dá a possibilidade de realizar um único desejo, então disse a fada ao homem: peça o que desejar, desde que seu vizinho receba em dobro. O invejoso em seguida responde: quero que lhe arranque um olho.
A moral da fábula é nítida, o prazer do ser humano em ver o seu próximo se prejudicar prevalece sobre qualquer desejo de benefício pessoal. Não é preciso ir muito longe, na perspectiva do pensar, para chegar à conclusão da psicanalista Klein (1882-1960) de que a inveja é uma característica poderosíssima na erosão das raízes do sentimento de amor e gratidão, de modo a afetar a relação mais ancestral de todas: a relação com a figura materna.
A veridicidade radical da manifestação da inveja é o seu impulso destrutivo, por levar o sujeito a incidir e destruir o objeto bom, cujo introjeção é o alicerce do funcionamento psíquico. Esse afeto, por nem sempre ser consciente, inibe a assimilação de experiências boas e, deste modo, a possibilidade de integração com a psique.
De acordo com a autora, a inveja não é produto da decepção ou frustração, ela é parte da vida psíquica do sujeito desde a tenra infância independente das atitudes da figura materna e do seu ambiente oferecido. Pelo adverso, a inveja emana do próprio sujeito, sendo sentimento endógeno. Em contrapartida, para Winnicott a inveja é fator secundário, proveniente de uma falha na elaboração do ambiente, sendo a relação mãe-bebê fator primordial para acolher o sentimento de inveja da criança, contribuindo para uma boa resiliência do sentimento de inveja.
De acordo com esta tese, invejamos o seio materno que nos alimenta e acolhe desde pequenos. A fantasia de que o objeto bom e reconfortante não nos pertence surge acompanhado ao sentimento de impotência. Assim faz-se importante, em epítome, que o indivíduo seja capaz de compreender que a inveja é inata a sua persona, e a aceitação deste sentimento poderá ajudá-lo a evoluir esse sentimento para o reconhecimento e construção de si mesmo, assim o que é do outro, não será mais interessante do que suas realizações, o seu interior.

sábado, 12 de março de 2016

A MÃE MORTA E AS VICISSITUDES DO OBJETO: UMA PERSPECTIVA PSICANALÍTICA


A mãe morta de Green (1988) enfatiza a perda do objeto como um momento fundante do psiquismo humano, partilhado pela teoria psicanalítica. Para Laplanche e Pontalis (2001), descreve como um momento:
Mítico, arcaico, perdido, de uma separação que origina o início de um processo em que o funcionamento psíquico passa a ser governado pelo princípio da realidade: “a procura da satisfação já não se efetua pelos caminhos mais curtos, mas faz desvios e adia seu resultado em função das condições impostas pelo mundo externo” (LAPLANCHE E PONTALIS, 2001, p. 368).

Segundo Laplanche e Pontalis (2001), a psicanálise reconhece e, enfatiza, a natureza, o tipo e a qualidade desse cuidado com o recém-nascido, como fundantes do psiquismo humano. Na esfera da teoria psicanalítica, esse momento é reconhecido como onipotência materna, em outras palavras, a mãe influência de forma incisiva a estruturação do psiquismo, destinado a estabelecer inteiramente na relação com outrem.
Winnicott (2005) apresenta em sua obra elementos significativos nesse aspecto. A importância do outro, do mundo externo, estabelece desde os primórdios ao ser humano. A experiência clínica o levou a reconhecer os estádios mais primitivos do desenvolvimento emocional do bebê, antes mesmo de a criança se conhecer a si própria e aos outros. O autor entende humano como:
“Uma função da herança de um processo de maturação e da acumulação de experiências de vida; mas esse desenvolvimento só pode ocorrer num ambiente propiciador. No qual a mãe assume papel preponderante: quando o par mãe-bebê funciona bem, o ego da criança é de fato muito forte, pois é apoiado em todos os aspectos” (WINNICOTT, 2005, p. 27). 

A mãe suficientemente boa, termo cunhado pelo autor, abrange uma tríade de funções: o holding é a capacidade da mãe de se identificar com a criança, sustentando-a psíquico e fisicamente, protegendo-a, de forma equilibrada e constante; o manipular, que facilita a formação de uma parceria psicossomática na criança. Winnicott (2005) contribui para a formação do sentido do real – por oposição o irreal –; oferecer objetos, ou realização, que proporciona à criança a construção do seu relacionamento com o mundo exterior.  
Winnicott (1975) em seu livro, “O brincar e a realidade”, é ainda mais enfático, ao assegurar a imprescindível presença da mãe suficientemente boa, para que o funcionamento psíquico do bebê prospere do princípio do prazer para o princípio da realidade, e deste para a identificação primária e explica:
“A mãe suficientemente boa (não necessariamente a própria mãe do bebê) é aquela que efetua uma adaptação ativa às necessidades do bebê, uma adaptação que diminui gradativamente, segundo a crescente capacidade deste em aquilatar o fracasso da adaptação e em tolerar os resultados da frustração” (WINNICOTT, 19755, p. 25).

De acordo com Winnicott (1975), a mãe suficientemente boa nutre o mundo interno do bebê como um objeto transicional e, como tal, é alocado em uma posição intermediária entre o subjetivo e aquilo que é objetivamente intuído, permanecendo o bebê em um estado intermediário entre a inabilidade e sua crescente habilidade em reconhecer e aceitar a realidade; e ainda constitui uma área intermediária de experimentação, para a qual contribuem tanto a realidade interna quanto a externa.
Entretanto Winnicott (1975) nos exorta:
“O objeto não é, em si mesmo, transicional: ele representa uma transição de um estado em que a criança e a mãe estão fundidas para outro estado em que o bebê percebe a mãe como algo externo a ele, ou seja, o ponto em que a criança, pelo crescimento, se liberta de um tipo narcísico de relação com o objeto” (WINNICOTT, 1975, p.30).

O objeto transicional apresenta características especificas: é amado e odiado – necessitando suportar as investidas agressivas do bebê; sendo oriundo ao externo, podendo apenas ser modificado pelo bebê, por ser percebido pelo mesmo como algo de dentro, interno.
No entanto há nessa relação o que Winnicott (1975) nomeia de paradoxo:
“Seu destino – do objeto – é permitir que seja gradativamente descartado, de maneira que, com o curso dos anos, se torne não tanto esquecido, mas relegado ao limbo. Não é esquecido e não é pranteado” (WINNICOTT, 1975, p.18-19).

Winnicott (1975) conecta, então, a saúde psíquica e física – ao tudo correr bem – à adaptação exata (que) se assemelha à magia, e o objeto que se comporta perfeitamente não se torna melhor do que uma alucinação. O que denota descrever que, se o ambiente suficientemente bom leva à integração do eu, em contrapartida − as falhas desse primitivo cuidado − conduz à desintegração, que acarreta uma angústia inimaginável: de rompimento.
Esse rompimento faz alusão a mãe morta de Green (1988), que é representado como a falta de interesse da figura materna em relação à criança, remetendo ulteriormente, na sensação de perda de sentido, apatia e identificação inconsciente com o estado da melancolia, sugerido por Freud (1917).
Green (1988), ao recomendar que as condições adequadas do cuidado materno preparam o psiquismo nascente para a inevitável separação entre a mãe e o bebê, responsável pela extinção parcial do objeto materno como objeto primário da fusão, para dar lugar aos investimentos próprios ao eu, fundadores de seu narcisismo pessoal. O funcionamento do objeto primário está na estrutura enquadrante – o continente, o receptáculo – do eu. Essa estrutura enquadrante, para Green (1990), funciona como uma moldura, um quadro em branco, onde irão se inscrever as representações: “o que é retido da mãe não é uma representação da mãe. Que significa que o bebê dispõe de uma superfície de representação muito mais importante que a própria representação” (GREEN, 1990, p.122). 
Desta forma, como objeto de amor suficientemente seguro, da alucinação da imago materna, nutre a criança, ainda não estando a mãe presente, a satisfação alucinatória do desejo tornando suportáveis a ausência e a espera, afirma Green (1988):
“O apagamento do objeto materno transformado em moldura enquadrante é conseguido quando o amor do objeto é suficientemente seguro para desempenhar esse papel de continente do espaço representativo” (GREEN, 1988, p. 265).

Nessas circunstâncias, esclarece o autor, que esse espaço pode ser preenchido através de fantasias de variados tipos, de modo inclusivo as fantasias agressivas, que não colocará em risco esse continente.  Green (1993) identifica, nesse processo, a presença a tarefa nomeada de alucinação negativa do objeto, que se faz inteiramente necessária – a mãe ou seu substituto: precede e permite a realização alucinatória do desejo, em outras palavras proporciona a transferência da satisfação da necessidade:
“De acordo com o funcionamento psíquico fundado no princípio da realidade: o objeto primário torna-se estrutura enquadrante do Eu, abrigando a alucinação negativa da mãe” (GREEN, 1988, p.265).

Para Green (1993), a alucinação negativa estabelece o conceito teórico que é a precondição de toda a teoria da representação. Esse processo não denota ausência de representação, no entanto, no dizer de Green (1982), a representação da ausência de representação, o reverso – situações de modo contrário ao que se espera, ou se analisa – do que a realização alucinatória do desejo é o inverso – parte frontal de qualquer objeto que exiba dois lados opostos.
De acordo com Green (1993), a alucinação negativa aponta para a já mencionada extinção parcial do objeto, neste caso, a mãe, para uma espécie de ausência latente, em que o objeto não é mais intuído pelos sentidos, sua presença existe como ausência fundante, estruturante, integrante do psiquismo. O outro, nesse espaço vazio, a mãe ou cuidador, provedor da satisfação das necessidades, transforma-se na borda, no enquadre, na moldura, em que todos os futuros objetos poder-se-ão implantar, continuamente.
Em contrapartida de tal processo, segundo Green (1988), a mãe, o objeto primário, pode se deprimir, caso ocorra, o seu cuidado será marcado por essa depressão – embotamento do afeto, o que põe em primeiro plano a angústia da mãe e a diminuição do interesse pela criança. A mãe ao cuidar da criança, não manifesta o seu amor, torna-se uma mãe melancólica, desinvestindo de maneira brutal o seu filho. Desta forma, poderá ocorrer tanto a antecipação da perda do objeto quanto a perda da ilusão de forma prematura – a prematuridade do eu frente às exigências da realidade.  Em consequência, a representação da imago materna, do objeto primário, não enquadra, não fusiona, não estrutura, não liga a mãe e a criança. Por esse ensejo, Green (1988) descreve:
“Não são mais representações cujos afetos correspondentes expressam um caráter vital, indispensável à existência do bebê. Isso porque o apagamento do objeto primordial não terá sido uma experiência aceitável ou aceita de comum acordo pelas duas partes da antiga simbiose mãe-bebê” (GREEN, 1988, p.266). 

A partir desta colocação, Green (1988) identifica no Complexo da mãe morta a falta, a quebra da operação da tarefa da alucinação negativa do objeto inteiramente indispensável, ou seja, seu caráter patológico, tóxico. A ocorrência desse complexo significa nada menos que um fracasso, um insucesso da saudável e esperada evolução da separação mãe-bebê. Quando os objetos fracassam ou causam efeitos “significantes” que mais somos compelidos a reconhecer seu papel essencial.
Para o autor, esse complexo, origina como decorrência que o incipiente eu, em vez de constituir o receptáculo dos investimentos posteriores à separação, luta para reter o objeto primário, e revive repetidamente sua perda (Green, 1988).  Desta forma, há uma confusão entre o eu e o objeto: o objeto, que está morto, leva o eu para um universo deserto, mortífero. Nutrindo assim, o sentimento de vazio, peculiar da depressão, que daí incide.

Nasce então, fruto desse esvaziamento, uma espécie de ferida narcísica, que consome o investimento libidinal destinado aos objetos, toda a libido está marcada pelo narcisismo e será, portanto, sempre uma perda narcisista que será vivida no nível do eu. Figueiredo (2007) assinala que no narcisismo de morte instaurado pela mãe morta no bebê, induz o indivíduo a se defender, na tentativa de destruir o objeto, aspirando ao vazio e ao inanimado contra a dor intolerável de não poder contar com um objeto primário vivo e suficientemente capaz de trazer segurança 

terça-feira, 1 de março de 2016

O ANALISTA E O ANALISADO: O SILÊNCIO NA ESCUTA PSICANALÍTICA


No penúltimo e, atualmente, último ano letivo de graduação, vem sendo enriquecido por sentimentos de medo, ansiedade, gratidão, ódio, felicidade e muitos outros. Há também as alianças, o aprendizado e outros atributos que vão se construindo nas experiências, que resultam na reformulação do eu-coletivo – esse que compartilhamos com o outro, que construímos através desse contato estupefato com o outro mágico.
É perceptível, para mim, o quanto venho aprendendo e reaprendendo na experiência com a clínica escola, especialmente com “meus” pacientes, mesmo tendo a consciência que não são meus, e fico muito feliz por isso, já que estamos caminhando juntos nessa troca de experiências.  A confiança que os pacientes depositam em você na terapia é excitante, nutrem em nós terapeutas iniciantes e/ou profissionais renomados, o desejo de buscar sempre mais o conhecimento e reconhecer nossas experiências vivenciadas. É fato que alguns pacientes procuram a terapia na tentativa de que você resolva a dor deles, outros na busca de encontrar um continente suficientemente bom, que possa ouvir ou simplesmente acolher o seu silêncio, quando acontece.
Em geral, a psicoterapia é procurada num momento de dor e angústia, quando o indivíduo já não sabe mais o que fazer com sua vida. A psicoterapia não é algo fácil de fazer, ela traz movimentos internos e externos, sem soluções prontas. Quando o processo terapêutico começa a se desenvolver, o analisado tem dificuldade em lidar com aquilo que traz em terapia. Muitas vezes estão acostumados a serem condenados por seus atos, por isso tendem a resistência ao tratar do que lhe causa dor. Por conta, mas não somente, da resistência, o analisado verbaliza a fala mais comum em terapia: não sei o que dizer. No entanto, como diz minha orientadora da linha psicanalítica, não saber o que dizer, não significa que não há o que ser dito.
A questão que venho propor neste texto é o silêncio no universo terapêutico, recordo-me que nos primeiros textos publicados aqui no blog, traziam a baila questões sobre o silêncio, e o quão importante é para nós analistas e para os analisados, no setting terapêutico, lidar com essa qualidade interna. Por ser um fato clinico inconteste, o silêncio tem sido abordado de forma distinta pelos principais teóricos da Psicologia e, em especial, da Psicanálise, sendo, deste modo, bastante diversificados os aspectos clínicos e epistemológicos alusivos à questão. No setting terapêutico nada pode ser displicente, nada é displicente.
Na Psicanálise a temática silêncio, à primeira vista, historicamente, nos remete, à resistência ao processo de mudança, por parte do paciente, e, tecnicamente, à intensidade dos não-ditos no processo de investigação clínica a partir da fala. A sua ocorrência durante o processo terapêutico emana de fatores variantes, sendo distintos também os papéis às quais acolhe, segundo o referencial epistemológico adotado pelo analista.
No ponto de vista de Cañizal, pesquisador das manifestações não-verbais na comunicação, assegura que “o que possibilita ou impossibilita a comunicação é, em última instância, o silêncio” (CAÑIZAL, 2005 apud PADRÃO, 2009, p. 93), preconizando que em um enunciado verbal se escondem “frases do silêncio” (CAÑIZAL, p. 95).
O que o autor retrata é que o silêncio nos conta uma história, tanto quanto a fala. Mesmo que o silêncio se apresente como resistência, delata territórios nos quais evadimos pisar e, assim, promove uma fresta para a manifestação do inconsciente. Nesse momento é que a interpretação do analista pode cooperar para um “se dar conta”, na tentativa de se proporcionar um sentido para o não-dito.
§  “Não seria justo [...] atribuir os resultados da psicanálise unicamente ao poder das palavras. Seria mais exato dizer que a psicanálise prova o poder das palavras e o poder do silêncio.” (REIK, 1926 apud NASIO, 2010, p. 19).

Um teórico Theodor Reik (1926), que lança o ensaio “No início é o silêncio” um dos mais antigos textos sobre este tema na psicanálise testemunha uma presença positiva do silêncio nas sessões de psicoterapia, tanto na perspectiva do âmbito do paciente quanto do analista.
§  Sim, o silêncio está presente no setting terapêutico e “seus efeitos são tão decisivos quanto os de uma palavra efetivamente pronunciada.” (NASIO, 2010, p. 7).
O peso que o silêncio é um acontecimento intrigante em psicanálise, por ser estar atrelada ao talking cure – a cura pela palavra.  Exemplo clássico é a analisada Ana O. que apresenta OLIVEIRA (2009):
§  Mas foi propondo a seu médico Joseph Breuer que se calasse, para que ela pudesse falar, que Anna O. descreveu o que Freud descobriria e confirmaria como o ponto de partida do processo analítico e sua definição – a qualidade da escuta (em silêncio) do analista, as associações do analisando, que propiciam a fala do analista. O silêncio do analista, atitude de sua abstinência e de sua escuta, instaura a possibilidade e a assimetria necessária no espaço analítico (OLIVEIRA, 2009, p. 118).

O silêncio do analista, caráter de sua abstinência e de sua escuta, instaura a possibilidade e a assimetria imprescindível no espaço analítico. Sabe-se que a psicanálise passou a existir da prática clínica freudiana com histéricas e que, a partir dessa clínica constituíram os conceitos fundamentais da teoria psicanalítica, ancorados na singularidade da escuta terapêutica. De acordo com a história, a psicanálise foi estabelecida a partir da constatação das faculdades terapêuticos da verbalização, o que abandonava o silêncio em uma posição de obstáculo à rememoração daquilo que jazia por trás do sintoma exposto pelo paciente. Em determinados momentos da prática freudiana procurava-se induzir o paciente a expor aquilo que não estivesse sendo dito, em direção à reversão do fluxo da associação livre e à catarse redentora do sintoma.
 Segundo (HENRIQUES, 2012 APUD GOMES, 2011):
§  Quando o silêncio se fazia presente na sessão era atribuído a fatores, em geral, cerceadores do processo analítico: ao retraimento do sujeito diante do analista, à censura diante de algum pensamento (recalque inconsciente), à dificuldade na transferência – como uma resistência à análise, ou à ação da pulsão de morte engendrada pelo aparelho psíquico (HENRIQUES, 2012 APUD GOMES, 2011).

O autor apresenta, num contexto histórico, as principais conjecturas teóricas da psicanálise associados ao silêncio:
CENSURA – advinda dos conteúdos inconscientes, interrompe o fluxo da associação livre e dificulta o estabelecimento da transferência. Sob o enfoque da 1ª tópica freudiana, o silêncio-censura pode decorrer de uma falha no recalcamento de uma representação, um “vazio do recalque”;
RECALQUE – impede as representações inconscientes de emergirem em palavras, considerado, assim, na 1ª tópica, como a origem da resistência;
TRANSFERÊNCIA X RESISTÊNCIA – conjugação essencial para o processo de análise; o silêncio-resistência é visto como uma característica muito importante no manejo da transferência, por ser esta o instrumento fundamental na ação terapêutica;
MECANISMOS DE DEFESA – sob a 2ª tópica, o recalcado não opõe resistência à cura; o silêncio passa a ser visto como um mecanismo de defesa ao mundo externo ou à intervenção do analista, na busca de algum caminho que leve à consciência;
PULSÃO DE MORTE – age em silêncio - compulsão (repetição), sem representação no inconsciente, leva à inércia e não à vida. A manifestação do silêncio no psiquismo leva a dificuldades na capacidade de simbolização (GOMES, 2011).
Na psicanálise contemporânea, o silêncio de escuta é ponto de acinte da análise. O silêncio do analista se contrapõe à manifestação de suposto-saber que o analisando espera descobrir. Neste momento, o analista constitui-se como faltante, diante do analisando. É preciso estabelecer um jogo pulsional, Zolty descreve esse jogo como:
§  Ritmado no movimento do tratamento, ainda que o paciente questione ou se inquiete quando, por vezes, o analista parece afastar-se (ZOLTY, 2010).



O analista sabe que a escuta está além da palavra, a escuta do silêncio, promovendo a fala, para produzir início ao processo analítico. O acolhimento dos silêncios dos pacientes significa, por sobre tudo, lhes proporcionar uma escuta verdadeiramente analítica, que está para além do ouvir as palavras, que se determina pelo não-dito, pela comunicação entre o inconsciente do analisando e do analista. Nesta aclive, o silêncio do analista sustenta o “desejo de nada saber” a respeito de seu paciente ou ainda o lugar de mudez do analista – lugar do suposto saber – o qual é nada mais do que sinal de anuência tácita do discurso do paciente.
Em epítome, o discurso do paciente se estabelece por meio de uma comunicação préverbal e infraverbal, lugar da intersubjetividade. Em outros versos, sua função é a de ser um catalizador do discurso comunicado, compreendendo o seu sentido. Essa reflexão nos remete que não são as palavras pronunciadas pela voz que têm acuidade, mas o que nos diz quem discursa. O tom de sua fala se torna mais importante do que o que ele diz. O filosofo Sócrates contribui e encerra a primeira parte deste estudo:

“Fala, para que eu possa vê-lo”, disse Sócrates. (REIK, 1956 apud LAGAAY, 2008, p. 55).

Referências

ZOLTY, Liliane. O psicanalista à escuta do silêncio. In J-D Nasio, O silêncio na psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010.
LAGAAY, Alice. Between Sound and Silence: Voice in the History of Psychoanalysis. Original em inglês. ISSN 1756-8226. Freie Univesitat Berlin. Volume I (1), 2008.
BIRMAN, Joel. Estilo e Modernidade em Psicanálise. São Paulo, Editora 34, 1997
GOMES, Sérgio. O círculo de Viena: o silêncio na psicanálise I. Instituto de Medicina Coletiva da UERJ. Rio de Janeiro, julho 2011. Disponível em: Acesso em 7 out. 2012.
OLIVEIRA, Denise Cabral de. Silêncios: resistência e perlaboração, regressão e repouso. Artigo. Cad. Psicanál.- CPRJ, Rio de Janeiro, ano 31, n. 22, p. 117-138, 2009. Disponível em: , Acesso em 2 out. 2012. OLIVEIRA, Vânia Maria Rocha de; CAMPISTA, Valesca do Rosário. O silêncio: multiplicidade de sentidos. Sinais: revista eletrônica, Vitória, CCHN, UFES, n.2, v.1, p. 107-120, out. 2007.