domingo, 9 de agosto de 2015

O Transtorno Alimentar e a Visão Psicanalítica



Frequentemente, o paciente chega ao terapeuta, repleto de angústia e sintomas, para os quais não tem descrições.  A situação inicial não é clara nem para o terapeuta, nem para o paciente, que se sente neste período, no mais profundo caos e escuridão, por não conseguir expressar em palavras, as experiências repletas de sentimentos penosos que vem vivendo.

De acordo com W.R. Bion, caracteriza o “conteúdo”, este sentimento, projetado pelo paciente, para dentro do terapeuta, passa a ser representado como “continente”, uma vez que o terapeuta seja suficientemente acolhedor para que o paciente exponha todo seu caos.

A partir desta dinâmica, o terapeuta conhecedor deste mecanismo de conteúdo e continente, desenvolverá compreensão ao receber o paciente, uma vez que saberá interpretar as suas agonias, sendo muitas delas intensas, as quais necessitam encontrar, no terapeuta, a “continência” necessária para reconhecer seu estado de pavor e acolhê-lo; e também de sentir equilibrado para dar continuidade, ajudando o paciente por longo prazo.

A busca pela equipe médica, pelo paciente, é o momento de extrema fragilidade mental, que observada mais minuciosamente, oculta um estado de “terror sem nome”, ante o qual, o paciente se defende, através de defesas muito primitivas, descritas por Melanie Klein, psicanalista europeia, em 1946, em 5 fases:

CISÃO

O paciente chega com a mente dividida em bom e mau. Desta forma, sem condição interna de perceber os bons aspectos lado a lado com os aspectos frustrantes. Julgará a tudo e a todos de forma estanque.

Exemplo:

Ou o terapeuta é lindo, bom e eficiente quando “agrada” o paciente ou é mau e tenebroso, ao frustrá-lo. Há uma intolerância acentuada às frustrações nestes pacientes.

IDEALIZAÇÃO

É típico encontrar uma idealização – ampliação dos aspectos positivos – dos bons aspectos.

Exemplo:

O bom terapeuta é visto como perfeito. Mas, para que isto seja possível é necessário que outra defesa entre em funcionalidade: a negação.

NEGAÇÃO

Corresponde à fantasia de aniquilar aqueles aspectos que são frustrantes e intoleráveis para a mente. Dessa forma, a idealização aumenta espetacularmente os bons aspectos.

Exemplo:

O paciente nega o aspecto frustrante do terapeuta e do trabalho desempenhado, e assim, “constrói” um terapeuta perfeito, via idealização.

IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA

O paciente com TA usa maciçamente a identificação projetiva anormal, quando “evacua” seu desamparo dentro do terapeuta, para obtenção de alivio imediato.

TRIUNFO

Caso o paciente não se sinta “acolhido” nos seus conteúdos mais desesperadores como, por exemplo, sentir que não pode contar com o terapeuta de forma onipotente, passará a desprezá-lo e tentará negar o vínculo de dependência com o mesmo, mostrando-se “independente” e triunfante sobre os esforços terapeutas. Essa defesa é vinculada à onipotência.

Todas essas defesas conferem ao paciente um carácter onipotente e frágil ao mesmo tempo, e não raro, exibindo comportamento auto e hetero-agressivo, dentro de um vinculo extremamente frágil com o terapeuta, pouco tolerante às frustrações inerentes ao tratamento proposto.


A partir desta reflexão, a prática psicanalítica com um paciente dessa desordem, segundo o Escritor e Psicoterapeuta Renato Dias Martino:

Encontra-se na tarefa de reconstruir o ideal do corpo, ou seja, o que se pretende como forma estética física ideal. Entretanto, penso que a questão está bem mais profundamente implicada, do que na superfície do ser humano, onde se encontra o corpo físico. Não é novidade alguma que a alimentação é uma das formas mais primitivas de contato, aproximação e vínculo entre os animais mamíferos e sobre tudo o ser humano. Na relação mãe-bebê, o contato feito a partir da amamentação é sem duvida o ponto de partida do contato da nova vida que nasce com o mundo externo.
As relações entre o terapeuta e o paciente devem seguir o modelo de Bion, conteúdo e continente, levando em conta que, o paciente, não consegue acolher suas frustrações de forma adequada, uma vez que não pode experimentar o mesmo sabor de ser acolhido, assim dificultara de forma inconsciente o tratamento e a relação entre paciente e psicoterapeuta. Se o psicoterapeuta conseguir ser o continente suficientemente bom para o paciente, certamente haverá uma aceitação das verdades experimentadas com amor dentro do set-terapêutico; em que o paciente será preparado para ver a si mesmo, junto ao terapeuta.



REFERÊNCIAS
_Maria Auxiliadora Borges dos Santos – O cuidado com à equipe multidisciplinar (2006)
http://www.fmrp.usp.br/revista/2006/vol39n3/15_cuidado_equipe_multidisciplinar.pdf
_Renato Dias Martino – Funcionamento Alimentar, 2011

terça-feira, 21 de julho de 2015

Ensaio sobre o Conceito de Libido



Antes de aventurar-me ao tema proposto, gostaria de alertá-los ao cuidado com a formação de preconceitos e pressuposições acerca do ser humano e suas atitudes biológicas e psíquicas. Eu mesmo já o fiz, mas hoje procuro ter o maior cuidado em não me esbarrar novamente no universo limitado do preconceito.

O humano está em completa transformação, em movimento. Suas necessidades e preocupações mudam de acordo com sua relação com o outro. Ressalto. Não poderia deixar de fazê-lo, uma vez que, nenhum ser humano evolui sem a experiência com o Outro.

Sigmund Freud (1856-1939) foi e é um homem brilhante, porém, muito censurado. Muitos simbolizaram a imagem de Freud ao Sexo. Um ser pervertido, que acreditava que tudo girava em torno do sexo.  Em sua época e, quando refletimos com mais atenção, até hoje usar a palavra “libido” traz um desconforto para a sociedade.

Aos leigos, a libido é a necessidade física – carnal – de um sujeito ter a experiência com o outro. Entretanto, não significa que seja necessário o ato sexual, com pessoas desnudas, para que haja o sexo em si. Não. Freud acreditava que o prazer sexual ocorre em junção com o afeto. Isso mesmo. Por que o sexo e a afetividade não podem coexistir numa mesma sintonia? Podem.  Como estava dizendo, Freud, quando falava sobre libido, queria ensinar que o toque é um ato sexual. É o que deixa as pessoas inibidas, abertas.

Você mesmo nunca sentiu uma vergonha, quando alguém lhe abraça, sem que esperasse por isso? A vibração deste toque, abraço inesperado, que Freud associava ao sexo. Não existe sexo sem que haja toque, como não há toque que não seja associado ao sexo. Lembrando que, sexo não é necessariamente o contato com as partes genitais. É mais que isso, podemos dizer que sexo é um contato essencial na comunicação e experiência com o outro.

Por muitos anos, o sexo foi um tabu na evolução do homem, e continua sendo, mas isso pode mudar. Quase sempre o sexo foi associado ao pecado, o ato impuro. Contudo, o que seria de nós se não houvesse o sexo, a libido? Talvez, se pensarmos a individualidade contemporânea, chegaríamos ao ponto interessante. A falta de sexo – o contato carnal – seja ele um aperto de mão, um abraço, um toque no ombro, deixassem as pessoas mais abertas e mais felizes em permitir-se em ser o que são sem medo de julgamentos. Quem sabe nem houvesse tempo para isso.

Há duas forças que regem o psíquico do ser humano. A Pulsão de Vida e a Pulsão de Morte. A forma lúdica que Freud se utilizava para descrever sua teoria é o mais brilhante. Para a Pulsão de Vida, utilizava a figura de Cupido-Eros, que na mitologia grega aproximava os indivíduos. A ligação de um sujeito com outro é mediada por Eros. Há uma aproximação sexual, sem o contato com o órgão genital. Neste momento só existe o prazer sexo-afetivo: toque.

Não podemos deixar de levar em conta, que o prazer biológico, o ato em que envolve o sexo carnal, o genital, aconteça. Mas, o Eros será o instrumento que busca ligar o outro, num plano mais afetuoso, sem sexo o prazer do órgão genital. É uma busca do eu por alguém em que possa se ligar, construir.

EROS -> PULSÃO DE VIDA -> LIGAÇÃO


Já a Pulsão de Morte, utilizado por Freud pela figura de THANATOS, que na mitologia tem a função de desligamento. Podemos cogitar também, como instinto de autopreservação.

Caso a busca do sujeito não seja bem sucedida, o que irá reger a pulsão é o Thânatos. O mais interessante de toda tragédia grega é que nenhum dos personagens vive sem a existência do outro. O mesmo ocorre entre Thânatos e Eros, um não existe sem o outro. Quando Eros busca a ligação, mas é rejeitado. Ocorre a experiência ruim, onde surge o Estado de Nirvana. Mais um termo utilizado por Freud, entretanto, sem ligação com o utilizado pelos budistas.

O Nirvana do budismo retrata a essência da fala: conheci e experimentei o mundo e agora estou de volta e desapegado de tudo. Em contrapartida, digo que isso seja para poucos privilegiados.

O Nirvana segundo Freud é entrar no estado de estar retraído, quieto. O Eros não conseguiu a experiência idealizada, sendo censurado. Assim, volto para si mesmo, como um caracol, numa reflexão de seu mundo interno. Como nos ensinou Sócrates: conhecer-te a ti mesmo. Eros não tendo sucesso em sua investida dá vazão à Thânatos, pensamento autodestrutivo, bem conhecido na atualidade como depressão.

Tanto a pulsão de morte quanto a pulsão de vida, são vias de mão dupla. Ambas trabalham para suprir as necessidades e em defesa do Eu. Apesar de tudo, a pulsão de morte não é ruim, uma vez que trabalha na defesa do Eu, porém, tudo irá depender de como essa pulsão é administrada pelo Eu.

Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza se faz melhor o coração.
Eclesiastes 7.3


PULSÃO DE MORTE –> THÂNATOS -> ROMPIMENTO

Em resumo, o sexo é regido por Thânatos e Eros, numa tentativa de aproximar os indivíduos, de deixa-los em harmonia. Mas tudo depende de como são feitas as dosagens. O sexo como vimos, não está localizado na genital, mas sim no toque, na afetividade que só pode ocorrer quando sentimos, tocamos. 

Para que ocorra a harmonia de tudo que refletimos até aqui, é necessário que haja um diálogo sincero e sensato entre o Id (parte primitiva, selvagem do Eu), o Ego (a essência do Eu) e o SuperEgo (o que o Eu almeja ser e/ou deveria ser). Que é a tríade psíquica, para que nossa comunicação com o externo seja saudável.

O eu verdadeiro - Eros cria a ilusão, Thânatos tenta proteger dela. Eros é a favor do outro. Thânatos a favor do eu. Thânatos é o choque com o real.

D. Winnicott

  

sábado, 11 de julho de 2015

A LIBIDO: A FONTE DA SATISFAÇÃO DO INCONSCIENTE


O humano em toda sua história viveu a partir do corpo e para além dele. Digamos que seja uma forma de sobrevivência, satisfação corpo e mente.


Quando pensamos a Libido, logo nos veem à mente, o que retratava Freud em sua época, não tão distante.  Nos primórdios do seu contato com o mundo, o bebê é apenas uma massa corporal aventurar-se a sobreviver. A iniciação lúdica da libido acontece quando o bebê aproxima-se do Outro – a mãe é o seu primeiro contato –, para amamentação, ou seja, a nutrição. O que de primeiro momento era a satisfação fisiológica – mamar, o prazer oral –, sobrevém agora a ser a manifestação psicológica –, o contato com a mãe, o prazer afetuoso e misterioso.

Para o bebê reconhecer que existe outro além de si mesmo, é uma tarefa totalmente árdua. Em contrapartida, percebe que a única fonte de nutriente é esse outro desconhecido. Então inicia, no processo secundário do desenvolvimento, o esforço de agradar o outro, tê-lo para si, que é conhecido em Psicanálise, como Narcisismo Primário. Então o inconsciente do bebê, de forma simbólica, vai criando uma história para o consciente: “Eu posso até ter fé que existe outro acolá de mim, mas ele só vive se for meu espelho, tenho que me refletir nesse outro”. Ou seja, a mãe, esse outro desconhecido para o bebê, só pode deixar que o inconsciente do bebê fantasiasse no consciente, se houver a conexão do olhar, nos primeiros contatos.

A ausência do olhar da mãe, no primeiro contato com o bebê, em hipótese, pode ser um sentimento irreparável para o bebê. O olhar é importante e igualmente necessário, por ser o primeiro contato que o bebê terá por si mesmo – o seu próprio reflexo. Deste contato, nasce o primeiro sentimento de ser desejado, o narcisismo, o desejo por si mesmo. Essa reflexão nos leva à tragédia grega de Narciso, que olha para o lago e se apaixona por si mesmo. 

“É complexo para o indivíduo que não teve esse primeiro contato, o de ser desejado a partir do reflexo da mãe, acreditar que seus pais e outros seres humanos poderão lhe desejar.”

Entretanto, o bebê não ficará preso como narciso, em sua própria imagem, visto que a mãe será sua salvadora, possibilitando-o dar atenção e reconhecendo que há outros além dele.A importância do olhar materno não é um conteúdo novo, porém, é sempre importante ser lembrado, uma vez que, é ele que permitirá que o bebê tenha o Narcisismo Primário. A partir da mãe, o bebê aprenderá a desejar a si mesmo – em outras palavras gostar de si mesmo –, saber o que tem de bom ao decorrer de sua vida. 

Caso ocorra o contrário, o bebê corre o risco de ter o Narcisismo Secundário, patológico. Essa patologia irá gerar uma obsessão em ser desejado a todo custo, para suprir o que não teve no berço materno. Quando não pode desejar e aceitar a si mesmo, jamais será capaz de conseguir enxergar e aceitar o outro, em seus relacionamentos.

Uma reflexão pertinente para esse parágrafo é a frase de Albert Kami:

“O ser humano é a única criatura que não aceita o que é”.

Em consonância com tudo mencionado até aqui, vale pensar também sobre o objeto – escolhido –, que para a psicanálise é o alvo do desejo – é “aquilo” que está no mundo externo acolá do eu, que para o bebê este objeto nada mais é que a mãe. Assim temos o sujeito – aquele que deseja e que tem a capacidade de escolher.

Portanto, a libido é extremamente importante para o contato humano. E, em sua essência, faz-se necessária quando está em colóquio, mesmo que de forma limitada, com o inconsciente. Já dizia Jung, ele mesmo só pode ser tornar um homem realizado, não por suas conquistar pela reflexão, mas por ter o ser inconsciente realizado.



quarta-feira, 8 de julho de 2015

A PULSÃO DE MORTE E A FASE ANAL: UM COLÓQUIO COM A PSICANÁLISE

Na busca de aprender junto com o ser humano, numa via de mão dupla, sobre seu processo de desenvolvimento, a psicanálise vem se modernizando. Em contrapartida, como muitos já mencionaram, a psicanálise perdeu sua essência e nunca perderá.
Embora seja mais audaciosa em sua terapêutica contemporânea, ela mantém seus princípios bem presentes. Os conceitos abordados até o momento no blog Acura de Freud, dança em sintonia com todas as fases de desenvolvimento citados por Freud. No intuito de deixar mais claro alguns pontos desse mundo psicanalítico, apresento mais um ensaio para compreensão dessas fases.

É importante lembrarmos que, a área erógena na primeira fase estimula o exercício da boca, ou seja, todo prazer se encontra no contato oral, já o contato sexual mais acentuado, ocorre na segunda fase, quando o estimulo se encontra no campo genital. Quando uma fase sobrepõe à outra, pode ocasionar problemas futuros. Por quê? Para psicanálise, cada fase precisa ser vivida pela criança de forma completa, para que consiga elaborá-la e então seguir para próxima fase sem resíduos recalcados, que são armazenados no inconsciente. Visto que, o que um dia foi libido, hoje se torna pensamento, sendo projetado para todas as demais fases de sua vida.

Não é à toa que, para o bebê, o desmame é uma fase extremamente árdua. O que um dia para criança era a busca por saciar a forme, hoje se torna a busca por saciar o amor – pensamento nobre. O desmame é uma fase muito importante, uma vez que, em todas as demais fases iremos passar pelo desmame, buscando adquirir a independência. Quando mais favorável o ambiente for elaboração do desmame, mais rapidamente o bebê se tornará independente. 

A criança começa a aprender que algumas atitudes são proibidas, porque até então nada era proibido. Por exemplo, ela não pode mais fazer cocô nas calças, já que está grandinha. A parte física entra em sintonia com a vontade, ou seja, o controle – psíquico. Aprende a soltar e a reter. Há momentos em que a criança percebe que acontece alguma coisa no ambiente – mãe, quando ela faz o cocô nas calças. É então que ela começa a entender que precisa aprender ir ao banheiro, antes de fazer nas calças.

Se já era difícil vivenciar a fase oral, agora na fase anal fica um pouco mais, já que inicia a busca por mostrar que o cocô precisa ser feito exclusivamente na privada e não em outro lugar. Essa fase é uma vivencia constrangedora para criança, já que precisa de um adulto espere com ela até o cocô sair, ensinando-a a se limpar após a criação de sua obra de arte – o cocô. A psicanálise compreende que na fase anal, os pais precisam criar um momento lúdico, para que a criança se sinta segura de tudo que poderá acontecer, sem medo de errar.

Como já citado anteriormente, o cocô é a primeira produção da criança e dependendo de como o mundo receber essa produção, é como ela vai aprender a lidar com todas as demais produções de sua vida. Não à toa, que Freud já nos ensinava:

O cocô e o dinheiro são a mesma coisa. São nossas produções.

Sendo uma fase muito delicada para criança, qualquer descuido pode causar vários complexos na vida adulta, visto que, toda vergonha que sentimos hoje é fruto da fase anal. Pode não parecer, mas para criança é humilhante esperar a mãe chegar para limpar o bumbum sujo. É o momento em que a mãe precisa ser suficientemente boa, caso ela seja ríspida e expor “Nossa, que coisa suja, nojento e fedido”. Certamente, produzirá um incomoda maior para criança, que criará hábitos obsessivos, como por exemplo, o famoso TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo, mania de limpeza entre outros. Em suma, a criança se sente suja e se sentirá assim por toda vida adulta, tentando reparar – inconscientemente – o trauma vivido na infância. 

Na Fase Anal é o período em que se projeta a Pulsão de Morte, por isso Freud titulou de Fase Anal Sádica, por ser o momento de expulsão. É por isso que, na clínica, existem e irão sempre existir adultos que vão querer que o analista/psicoterapeuta limpe a cagada feita no final de semana. O analista assumirá o papel da mãe, que de forma lúdica e simbólica, irá junto com o paciente limpar o cocô feito por ele, ajudando-o a elaborar essa fase dolorosa da infância – reflexo do que a mãe não fez por ele, quando criança. Lembrando que, o analista, precisará ser um ambiente suficientemente bom, para que o processo de elaboração do paciente seja vivido de forma tranquila, sem medo de errar mais uma vez.


O processo de expulsar e/ou reter está literalmente unido à satisfação da libido. A fase anal é de natureza narcisista, ou seja, o júbilo encontra-se comigo mesmo. Em equivalência, é importantíssimo que o Outro – pais – estejam atentos com essa fase, já que a criança pode se prender no prazer de si mesma, deixando de se importar com a posição do Outro em sua vida. 

Além disso, não existe distinção de sexo – masculino e feminino – nesta fase. O que a criança percebe – que é totalmente o contrário –, é o conceito de ativo e o passivo. Quando a criança percebe seu pênis, imagina que a mãe também tem e adentra em conflito, quando ela entende que estava enganada. No simbolismo da criança, o que prevalece na fase anal é o sujeito dominador – ativo e o dominado – passivo.

Como aprendemos no texto anterior A Psicanálise e a Fase Uretral entre a Fase Anal e a Fase Fálica, há um desdobramento, conhecido como um período onde encontramos características que não jazem em nenhuma destas Fases, que podemos titular de Fase Uretral, que consistir em reter e/ou expelir o xixi. São características igualmente vivenciadas na Fase Anal, porém a atenção é focalizada no urinar.

terça-feira, 7 de julho de 2015

A PSICANÁLISE E A FASE URETRAL



A fase uretral é um dos estágios importantes dentro do contexto psicanalítico. É uma fase considerada em seu primeiro estágio, como sendo ainda uma característica sádica, que gera o sentimento de provocar algo no outro. A criança usa deste mecanismo, para criar um meio para poder se comunicar – aprende que soltar ou prender o xixi, é uma forma de provocar alguma reação no outro – mesmo que seja uma habilidade primitiva, é com ela que a criança começa a se comunicar.

Os pais precisam estar atentos à comunicação não verbal, uma vez que, é a fase em que a área erógena que se encontra nas genitais, sendo deslocada de maneira bem primitiva para outras partes do corpo. A uretra assume a parte genital, no entanto, não bem estabelecida pela criança. Faz-se necessário lembrar que, na fase Anal, quase todos os contatos com a mãe são proibidos, devido ao desmame, onde a criança procura outros modelos narcisistas para satisfazer sua libido.

Sendo uma fase delicada do desenvolvimento, é prolixo que a criança se preocupe com o outro na busca do prazer, para que não desenvolva uma perversão. Mesmo que para menina, a descoberta da genital feminina seja fantástica, também e misteriosa, quando se descobre a genital masculina. É o momento em que ela volta toda sua atenção para o genital masculino. A criança entra em conflito, por ser diferente daqueles que tem àquilo que é protuberante, o Fálico e os que não têm – os castrados.

A imaginação começa a dar vazão ao bom e ruim, a classificação de o ser dominador e o ser dominado. Aquele que tem é bom, e o que não tem, não é bom. Não é simples explicar para uma criança que a menina tem, mas que o dela é diferente. Em contrapartida, o menino entra em um medo intenso de perder seu objeto supremo, a castração do objetivo fálico. O menino pensa: “Ou o dela vai crescer ainda, ou cortaram!”.

Então é que entramos em uma questão importantíssima. Por que a criança quer ter o genital masculino? Simplesmente por deduzir que, o que tem o objeto fálico é mais amado do que não tem. Mas também não quer ter, porque conclui que o que tinha foi castrado e não quer sofrer a dor de ser também castrado.

Quando a Psicologia pensa sobre essas reflexões, tem como objetivo cogitar que a mãe precisa ser um ambiente suficientemente bom, um amor incondicional, para que a criança possa elaborar de forma adequada essa situação nova e conflituosa. Além dessa situação, a criança também irá passar pelo sentimento de culpa pela masturbação – momento de satisfação narcisista da libido –, dependendo da forma como isso foi apresentado pelos pais, certo ou errado.

Segundo Sigmund Freud, o Complexo de Édipo constata-se quando a criança atinge o período sexual fálico logo na segunda infância e dá-se então conta da diferença de sexos, tendendo a atar-se a sua atenção libidinosa nas pessoas do sexo oposto no ambiente familiar. O conceito foi também descrito por Carl Gustav Jung e recebeu a designação de complexo, que desenvolveu semelhantemente o conceito de complexo de Eletra. Não irei discorrer sobre tais complexos, visto que, penso em abordar tal tema com mais atenção em outro momento. Sendo a situação em que a criança vê os pais tendo relações amorosas, não é capaz ainda de diferenciar a relação de amor e violência, para ela é um campo misterioso.

A fase da latência é o momento em que a criança vê tantas coisas relacionadas ao sexo, que desiste em pensar nisso, direcionando suas forças para outras coisas. O mundo perde o encantamento. É o momento em que a criança pensa: ”Não quero mais ser agradável para o outro, dá muito trabalho. Não estou nem aí para ele, eu me basto”.

A criança entra em um estado de “Sublimação” – grande contribuição de Jacques Lacan, para Psicanálise, em que BRABANT, Georges Philippe. Chaves da psicanálise. Págs. 54 e 55 discorre bem:

A sublimação é um processo de desvio da energia libidinal de suas metas originais para a investida em realizações culturais, ou em realizações individuais úteis ao grupo social. A sublimação é o meio em que a criança encontra para de reconciliar as exigências sexuais com as da cultura, por conseguinte, reconciliá-las com a sociedade, ou reconciliar a sociedade com elas. E apesar de a maioria dos indivíduos não possuírem igual aptidão para a sublimação, pois, é uma solução restrita a poucos, tal destino pulsional propicia uma solução menos infeliz para o conflito cultural da sexualidade.
Em suma, aquilo que era podre, agora se torna nobre. A criança transforma àquilo que era mais primitivo dentro dela em um bem comum. A atenção não é mais para o pai e para a mãe, mas para o meio em que vive.


sábado, 2 de maio de 2015

AFETIVIDADE E RECONHECIMENTO: UM REMÉDIO PARA O PESSIMISTA

“Tu te queixas porque não encontras nada a teu gosto? Então, são sempre teus velhos caprichos? Ouço-te praguejar, gritar, escarrar – perco a paciência, meu coração se despedaça. Ouve, meu amigo, decide-te livremente, a engolir um pequeno sapo gordo, depressa e sem sequer olhar para ele! – É remédio soberano contra a dispepsia.”
Nietzsche – A Gaia Ciência, pág. 27.



Em nossa trajetória de vida, somos ensinados que devemos lutar a todo custo, não importando quais ferramentas são utilizadas, para alcançar nossas metas – ou as metas de nossos pais ou pessoas que idealizamos. Não é raro, que sempre somos manipulados, por parentes, amigos social, amigo de profissão e entre outros, a inclinarmos nossa energia aos pensamentos deles.

Quando crianças há o sentimento indigesto de inveja, quando o trabalhinho do amiguinho saiu melhor que o nosso... já nos sentimos incapaz de criar, pois remoemos por algumas horas o desapontamento que o fracasso inspira em nosso interior. Mas, quando somos nutridos pelo mesmo professor, que todos podem alcançar o seu mérito, sem cópias, ficamos empolgados e voltamos a criar, trazendo o eu interno para o externo, tendo como resultado, um brilhante trabalho. O sentimento de inveja é normal na infância, mas quando não trabalhado por um adulto junto com a criança, pode levar a adultos pessimistas.

O escritor e psicoterapeuta Stephen Grosz, relata em seu livro, um trecho brilhante:

Não elogio uma criança pequena por fazer o que ela deveria ser capaz de fazer. Eu elogio quando faz algo realmente difícil – como compartilhar um brinquedo ou demonstrar paciência.  Uma vez observei Charlotte com um menino de quatro anos que estava desenhando. Quando ele parou e levantou os olhos para ela – talvez esperando um elogio –, ela sorriu e disse: “Há muito azul no seu desenho.” Ele respondeu: “É o lago perto da casa da minha avó – há uma ponte.” Ele pegou creiom marrom e disse: “Vou lhe mostrar.” Sem pressa, ela conversava com a criança, mas, o que era mais importante, ela observava, ouvia. Estava presente.

O que o autor observou, bem como eu, é que a criança não deve ser elogiada por qualquer coisa que ela faz ou a todo o momento, pois isso além de causar impacto a outras crianças, pode também causar um desastre no interior da própria criança, impossibilitando o universo criativo, ou seja, de continuar explorando as possibilidades de experimentar, ousar.

É importante incentivar nossas crianças, jovens e até mesmo adultos. Mas é preciso ter um discernimento e bom senso, para ser uma base sólida para quem procura identificação, como a criança. Não devemos descartar, no exemplo de Charlotte, que o reconhecimento é extremamente importante, mas em momentos que apresente dificuldade, como expressar paciência e compartilhar algo individual.  Talvez esses sejam gestos, para solidificarmos uma sociedade melhor, mais humana e menos individualista.

Outro pensador, que ensina e muito sobre afetividade, reconhecimento e otimismo é Mário Sérgio Cortella, pensador filosófico contemporâneo. Uma frase que me marca até hoje:

Nós não nascemos prontos e vamos nos fazendo, nós nascemos não prontos e vamos nos fazendo.

A criança precisa aprender, que não nasceu pronta, e por isso é necessário se esforçar para explorar suas habilidades, atualizando suas habilidades e conhecimentos. Por isso, que é necessário ser otimistas, acreditar que as coisas podem mudar, as pessoas podem mudar e o mundo pode sim ser melhor, basta nutrirmos isso em nós e no outro. No livro de Augusto Cury – O Futuro da Humanidade, ele relata que a esperança é essencial para vida humana, visto que sem ela, não iríamos chegar a lugar nenhum, por mais que isso pareça em primeiro momento utópico.  É importante existir esperança e otimismo em nossos corações e mente, só assim iremos caminhar para evolução de nossa espécie.

O pensador e poeta contemporâneo Sérgio Vaz, em seu livro Leitura, pão e poesia. Descreve:

“Revolucionário é todo aquele que quer mudar o mundo e tem coragem de começar por si mesmo.”

Na perspectiva do poeta, não há como mudar nada nem ninguém, se nossos planos e objetivos não vierem de dentro, do nosso interior. Assim, podemos cogitar que só é possível ensinar, quando estamos prontos a aprender com nós mesmos e com o outro, visto que, não é possível ensinar sem afetividade, reconhecimento e otimismo.

Quando pensei em escrever este texto, não cogitei como começar, nem como finalizá-lo. Deixei fluir, talvez não tenha começo, meio e fim. Mas, tentei ser o mais fiel aos meus pensamentos. E me recordo neste exato momento, que em minha experiência na fundação casa, um projeto enriquecedor, que vale a pena ser conhecido por você que agora lê este texto. Nas fundações (cadeia para delinquentes, como cogitado pela sociedade) os arte-educadores, são a base para a reconstrução da cidadania dos nossos jovens, dando autonomia e nutrindo-os, na visão de um mundo possível para eles, fora e longe do crime.

Longe da ideia primitiva de redução da maioridade penal, os arte-educadores acreditam em nossos jovem em medidas prisionais, pois se não for acreditar é melhor nem entrar no universo da fundação casa, pois de crítica já basta a sociedade. Por isso, devo citar aqui também um brilhante poeta otimista, Renan Inquérito, em seu livro Poucas Palavras, ensina-nos:

Não quero é ter que aceitar
Não quero é ter que engolir
Que uns nasceu pra brilhar
E outros nasceu pra polir

A afetividade e o reconhecimento moderados e sensatos, serão a base para uma construção sólida e sadia para elos, entre os seres humanos e humanizados. Esperança é uma pílula que devemos carregar junto com a gente, nunca deixando de tomá-la, quando sentirmos ofuscados pela realidade dolorosa. 

"Se você quer ir rápido, vá sozinho. Se quiser ir longe, vá acompanhado" 
 Provérbio africano


segunda-feira, 6 de abril de 2015

A Escuta Terapêutica: Acolhimento Individual e em Grupo

“... Um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas, num último recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em conseqüência de frustrações, formos incapazes de amar...” (FREUD, 1914, p. 92).

Quando nos propomos a pensar, certamente, faz-se necessário mais de uma pessoa.Visto que, um só indivíduo dificilmente conseguiria pensar, no máximo imagina. Em grupos terapêuticos essa perspectiva é muito enriquecedora. Mas antes de todo desdobramento do grupo-terapêutico, o atendimento individual, que podemos pensar como “Acolhimento individual”, é uma proposta oferecida como meio para conhecer a história do paciente, saindo do pr(é)conceitos diante da fala do paciente, no qual é um veneno para pesquisa terapêutica, que relata um diagnóstico desprovido de contribuição e tratamento.

O acolhimento individual é uma intervenção interessante, quando pensamos como uma forma de captar por meio da escuta, o universo do paciente. Com um colóquio bem estruturado, é possível coletar ricas informações históricas do paciente, trazendo a superfície questões de vínculo: se existe uma influência mútua entre o indivíduo, seus familiares e a sociedade. Esse primeiro contato, sendo suficientemente bom, tanto para o familiar quanto para o indivíduo analisado, pode enriquecer ainda mais na elaboração da autonomia do pensar do deste último, na reflexão sobre os amores e dissabores da sua vida. Deste modo é possível analisar sua fala e correlacioná-la aos aspectos clínicos que o levaram à instituição/clínica.

O sofrimento psíquico e, em outros casos, físico, é muito presente na clínica/hospital psiquiátrico. No entanto, esse quadro não limita os profissionais, uma vez que o grupo, além do acolhimento individual, intervém nesse sofrimento, levando os pacientes a interagir, buscando meios subjetivos e sociais, para compreensão do seu tratamento, impulsionando a elaboração da sua autonomia. Há casos crônicos, que levam a internações consecutivas do paciente, mas até mesmo este paciente crônico é humanizado, encorajando-o a criar meios independentes e estimulando a estruturação do seu ego; levando-o a uma vida psíquica cada vez mais saudável. Essa estimulação ocorre quando é acolhido pelo grupo-terapêutico.


Em consonância, não deixemos de levar em conta que, em todo tratamento, a familiar além da equipe multiprofissional é de suma importância, para que essa humanização ocorra de forma saudável, para atender a harmonia dessa família, que necessita proporcionar ao seu familiar adoecido, um tratamento satisfatório, cuidando para que o paciente cumpra com todas as exigências do tratamento, para que seja eficaz.

Na teoria, as palavras são mais fáceis de ser imaginada, é um sistema fantástico, bem como o SUS e outros projetos de apoio à sociedade na área da saúde, mas não deixemos de levar em conta que na prática é preciso que todos inseridos sejam cooperativos, para que o sistema da saúde ocorra de forma satisfatória, claro que podem ocorrer eventualidades, mas é necessário sermos “pacientes” para humanizar todas as falhas que ocorrerem. Contudo, os psicólogos junto com a equipe multiprofissional podem oferecer ao paciente, meios para que seu sofrimento durante e depois do tratamento, sejam amenizados, com informações de sua doença e tratamento.

É evidente que, dentro dos grupos desenvolvidos em uma Instituição, os estímulos do meio são múltiplos e levam o indivíduo ao contato com outros indivíduos no mundo externo, que é sugerido à ele, devido ao meio social vivido, considerando eu que é cada vez mais difícil “ser” individual dentro do grupo-terapêutico, sendo assim, um processo saudável para todos os envolvidos. Mesmo que seja sabido, que o desenvolvimento cognitivo do ser humano implica em suas experiências e entendimentos internos, isso é um fato – as exigências do meio.

Além disso, a relação entre o psicólogo, a equipe multiprofissional e o paciente dá-se a partir da entrada do indivíduo na instituição. Porém, é no calor do desenvolvimento das atividades terapêuticas, que o indivíduo que antes se encontrava isolado de outras pessoas e, estando em um momento difícil na sua vida, começará a se sentir valorizado pelos outros pacientes, através do acolhimento e participação nos grupos terapêuticos.

A partir de uma das várias observações dos grupos terapêuticos, foi possível concluir que o grupo observado “Conta Outra” proporcionou um ambiente favorável para as manifestações dos conteúdos encobertos. O grupo tem ajudado os pacientes a expressarem suas histórias de vida, por meio da escrita, e, em outras, por meio da fala, como uma forma de estimular a busca do conhecimento de si mesmo. Com isso se percebe que os pacientes estando num ambiente em que recebem atenção, sentindo-se acolhidos, são aguçados a sensibilidade na escuta do integrantes do grupo, estando mais motivados a executar as atividades, como também, falar sobre as suas vivencias e da sua família, ajuda-os a desenvolver a capacidade de autonomia, com tendência a mostrar uma capacidade maior de interação junto ao grupo.

Fica evidente a importância do papel do psicólogo e da equipe multiprofissional trabalhando em seus projetos em comum, mediando relações pessoais dos integrantes do grupo. Por conseguinte, tendo em vista as vivências dessa pesquisa, foi possível concluir a importância da escrita como estímulo a descoberta que cada um pode produzir, quando encontram como elementos positivos, a empatia, o acolhimento e a compreensão no interior das atividades terapêuticas.

Assim, concluo este texto com a seguinte frase:


"Só o amor pode curar as feridas da Alma".

sábado, 21 de março de 2015

Na ausência da fala

Em meados dos últimos anos de faculdade, muitas pessoas passaram em minha vida. Ouvi professores, desconhecidos, orientadores, pacientes, amigos de faculdade, de trabalho e me ouvi. Mas muitas dessas pessoas falavam comigo pelos olhos, emitindo uma vibração de pensamento de alma para alma. 

Em nossa vida, há aspectos que não conseguimos externalizar na fala. Algo que não pode ser dito, mas talvez sentido pelo toque ou imaginado pela ausência da fala. Ficamos muitas vezes apreensivos, sob o olhar do outro, se seremos julgados, rejeitados ou ignorados. Antes de todo esse sentimento vivenciado pelo Eu-Externo, o SuperEgo já nos corrói e nos pune por dentro. Ou seja, ficamos amedrontados com o Outro que criamos dentro de nós, deixando de perceber o que esse Outro realmente é. 

Cometer erros é o que nos faz humanos... é como nós aprendemos, é como encontramos alegria. Mas alguns erros fazem comunhão com a culpa e isso é o que nos adoece. Ou seja, sofremos por antecipação, numa perspectiva imaginária. Talvez pensar sobre a dor faz com que possamos elaborá-la e desfazer as pazes com a culpa. Entretanto, não podemos ficar estagnados sob a latência do que é pessimista. Há uma dor saudável e enriquecedora, que nos faz crescer, evoluir. 

A presença do Outro é essencial para construção da nossa identidade. Não somos os mesmos de 10 segundos atrás, estamos sempre mudando. No entanto, não deixamos nossa essência por fazer novas escolhas, assumir um erro ou reformular toda uma vida. Não há identidade estável, ela muda conforme nos relacionamos com o Outro, esse que é tão essencial a nós, quanto para às realizações individuais. Realizar-se com o Outro é muito valioso para nossa saúde psíquica. O individualismo gera conflitos internos que adoece a consciência, trazendo mal-estar para o corpo e a psique.

É por issoque independentemente se somos analistas ou não, devemos estar sempre atentos e ser o mais acolhedor possível, proporcionando um ambiente suficientemente bom para que quem é ouvido sinta-se  seguro em ser a nosso lado, que possa pensar sobre seus erros, refletir sobre a culpa que sente, para então externalizar a fala oculta e se libertar do sentimento repressores.


Quando o ser humano for capaz de ouvir seu semelhante, sem medo de perder tempo, certamente não haverá mais ressentimento, culpa ou guerra. Haverá mais sensibilidade, afetividade e gentileza entre nós, humanos.



segunda-feira, 9 de março de 2015

O Analisado: Uma Visão Bilateral do Analista-Analisado

Realmente parece simples ouvir ou falar, no teórico, porém na prática é totalmente diferente e difícil. Venho pensando muito sobre essa questão. Afinal, como falar se também desejamos ouvir nosso analista? Saber por menos que seja, algo dele, que seja repartido. Por que só eu devo falar? Talvez muitos vão dizer: a resposta é simples, você quem procura ajuda, e assim quem fala é você. Mas se não for o caso de querer ajuda, e sim de um estudante de psicologia que precisa apenas de supervisão, para manutenção de sua vida psíquica? São perguntas muitas vezes sem respostas, ao menos de imediato.

A realidade é que ficamos curiosos em saber como é a vida de quem nos ouve. Quando assumimos o papel de analisados, ficamos inseguros em falar sobre quem fomos/somos nós. Já que no cotidiano omitimos muito sobre tais características, ou até mesmo respondemos somente o que nos é perguntado. O que é normal, instinto de preservação.

Todavia, quando estamos em terapia, queremos falar ao mesmo tempo em que queremos ouvir. Penso que o ideal analisado é o paciente que vivencia seus sentimentos, seus impulsos e medos em terapia. Numa reflexão mais rasa, serão esses sentimentos que nos ajudará a evoluir nossos estados reprimidos, processando-os e dando corda a novas possibilidades. No entanto, quando aprendemos como usar as ferramentas em terapia, o papel de analisado se torna ainda mais difícil. O sentimento de insegurança se torna ainda mais latente.

Entretanto é importante relembrar que para que o processo terapêutico ocorra de forma harmônica, o analista precisa estar atento a todos os gestos verbais e não verbais. E quando houver necessidade de dar limites ao analisado, que seja com amor. Já dizia Renato Dias Martino, psicoterapeuta contemporâneo.

“Verdade sem amor, resulta em crueldade.”

E também diz “Mas o amor não é um sentimento, é uma capacidade.” Por isso é preciso ser capaz em dizer a verdade com amor, ensinando os limites que devem existir em terapia, para que o processo ocorra de forma sadia.

As experiências que o analisado viveu, será a base para a sua compreensão ao ouvir enquanto analista. Escutar é a ponte que nos leva a sentir, sendo assim, fica mais simples compreendermos a dor do outro quando já nos colocamos em tal posição de sofrimento. Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão menciona em seus ensinamentos uma frase muito própria para o momento: “Experiência sem teoria é cega, e teoria sem experiência é vazia”.


Para compreendermos a posição de analisa-analisado, é essencial que nasça o vínculo confiança. É necessário nutrir um vínculo real e verdadeiro entre analista e paciente, só através desta condição que iremos conseguir ver/ser uma base para a compreensão.

Sigmund Freud (1856-1939), pai da psicanálise, citou em uma de suas obras: 


“A finalidade de uma análise é recuperar a capacidade de amar”.



domingo, 8 de fevereiro de 2015

OBSERVAÇÃO CLÍNICA: O ACOLHIMENTO DOS GRUPOS TERAPÊUTICOS


Objetivo deste texto será relacionar e analisar as abordagens psicológicas com as práticas realizadas na instituição de saúde. O estágio de saúde proporcionou atrelarmos à prática com o conhecimento adquirido em sala de aula. Observamos o trabalho do psicólogo nos principais âmbitos de saúde.

A Psicologia na Saúde é um campo que estuda as influencias psicológicas na saúde, os fatores responsáveis pelo adoecimento e as mudanças de comportamento das pessoas no adoecer, não se restringe apenas a ambientes hospitalares ou a centros de saúde, mas se dedica também a todos os programas que venham a enfocar a saúde física e mental coletiva.

A psicologia na saúde pode ser compreendida como um domínio da psicologia que utiliza vários conhecimentos resultantes de estudos e de pesquisas psicológicas, com o intuito de promover e proteger a saúde dentro das instituições.

É também seu objetivo, prevenir e tratar enfermidades, bem como identificar etiologias e disfunções associadas às doenças, além da análise e melhoria do sistema de cuidados de saúde e aperfeiçoamento da política de saúde.

Por isso, segue abaixo algumas das formas terapêuticas desenvolvidas no âmbito do hospital psiquiátrico, e quão importante essa experiência é importante para o paciente e para os profissionais. Lembrando, que este texto é um ensaio, uma visão particular sobre os grupos, visto que há muitas possibilidades de se ver as experiências em grupo, de vários ângulos.



GRUPO TERAPÊUTICO: “ATITUDES E VIRTUDES”

A terapêutica proposta na observação clínica, dentro do âmbito do Hospital Psiquiátrico para os adictos – dependentes químicos –, é o grupo “Atitudes e Virtudes”, o qual desenvolve uma abordagem diferenciada, psicodinâmica, tendo como objetivo estimular o pensamento e desenvolver a autonomia dos pacientes.

Em grupo, os pacientes são estimulados a expressarem-se, por meio de uma história contada, na qual confronte, de alguma forma, a “realidade” do paciente em grupo-terapia. Algumas vezes, o enfoque passa a ser os sentimentos trazidos por eles, dentro da problemática que os levou a se tornarem adictos: dependentes químicos.

A psicodinâmica inicia-se a partir dos comentários que os membros do grupo fomentam, assumindo a condição de pensar sobre seus conflitos internos – mesmo que de forma fragmentada, compartilhando-os com os demais membros do grupo. A posteriori apresentada pelos pacientes interligando-se com a priori, da supervisão, interagem de forma espontânea em nossa visão do holístico, o que interessa nesta terapêutica não é somente as patologias, mas a forma como o paciente traz seus sentimentos conflitantes, por vezes arcaicos num inconsciente não realizado, para se pensar em grupo.

Nesse grupo específico, há pacientes com diversos transtornos, neste trabalho os transtornos mais observados: a esquizofrenia, transtorno bipolar, transtorno depressivo.

GRUPO TERAPÊUTICO: “CONTA OUTRA”

A terapêutica do grupo “Conta Outra” utiliza-se de métodos inovadores, aposta na escrita como ferramenta para mediar os estímulos entre a própria autoestima, como também, contribui para que o indivíduo desenvolver a sua autonomia.

Os textos produzidos pelos pacientes tende a mostrar uma busca incessante de algo não mensurado, mas questionável e consciente sobre tempo e lugar. Traz ainda ricos argumentos em distinção à loucura em meio às reflexões num momento oportuno de conhecer a si mesmo.

Os pacientes encontram, na escrita, uma forma de almejar encontrar um ponto de equilíbrio, em nome da Razão. Onde pode depositar a fé e a esperança de cada dia ser uma pessoa melhor. Escrever e compartilhar sua vivencias, é atividade árdua, que apresenta uma atitude de coragem ao apresentar seus sentimentos descritos no papel, tomam emprestado o verbo da razão para expressar em meio à loucura, sua mais lúcida e retórica mensagem ideológica que muitas vezes o sujeito da razão não consegue proferir com tal precisão.

“Entre o homem da razão e o homem de loucura, não há discurso da loucura sobre a razão diálogo outrora existente entre elas se interrompeu” (FREYZE-PEREIRA, 2006, p. 48).

Há escritas em que o sentimento de tristeza, acondicionado na emoção que brota as palavras escritas, termina com um momento muitas vezes lírico. No entanto, quando alguns pacientes começam a descrever suas histórias, a fantasia figura – dá corpo – à realidade, que numa singularidade concebe uma forma – capacidade – de viver.



O indivíduo está sempre além dos limitados instrumentos que a ciência nos oferece. Ele permanece sempre como uma individualidade que não se reduz ou se deixa aprender nas teorias. (...) Compreender o indivíduo é, sem dúvida, o ponto chave de toda a ação psicológica e psiquiátrica (DUARTE JUNIOR, 1983, p. 25-26).

Segundo estudos práticos da psicanálise, Freud (2006) verbalizados os conteúdos reprimidos na dor, é possível pensar-se numa superação dos traumas ocorridos na infância e nas suas relações interpessoais. Em uma de suas teorias Freud vai descrever que as neuroses traumáticas podem proclamar em alta voz os efeitos do perigo mortal, bem como podem ficar em silêncio ou apenas falar apenas em surdina dos efeitos das frustrações.

Em sua teoria o autor descreve: “o estranho é a categoria assustadora que remete ao que é conhecido de velho, e há muito familiar. Como isso é possível em que circunstancia o familiar pode se tornar um estranho e assustador” (FREUD, 2006, p. 238).

Para Freud (2006) o neurótico em sua infância teria sido vítima de uma ação sexual real e que esse fato traumático teria sido recalcado e se transformado em patogênico. Sua remoção só seria obtida com a ab-reação e a elaboração psíquica da experiência traumática.

Em sua proposta, também vai dizer que, nesse caso, “o indivíduo impossibilitado de se defender da ação trágica de forma normal o indivíduo empreende uma defesa que nada mais era do que a censura exercida pelo ego sobre a ideia que despertavam sentimentos de vergonha e de dor” (FREUD, 2006 apud GARCIA-ROZA, 2008, p. 155).

Em um esboço o autor descreve:

Por detrás dos fenômenos da neurose, não são quaisquer emoções afetivas que agem, mas sim, regularmente emoções de origem sexual, sejam elas conflitos sexuais atuais ou então consequências de acontecimentos sexuais anteriores. As manifestações infantis da sexualidade não determinam apenas os desvios, mas também as formas da vida sexual adulta (FREUD, s/d apud CLARET, 1986, p. 61).
Assim sendo, a compreensão do grupo indica que o mesmo contribui para o desabafo e reflexão sobre si mesmo, para que o paciente possa se perceber quanto humano, procurando uma forma de continuar a viver, em meio aos destroços de sentimentos vivenciados.

GRUPO TERAPÊUTICO: “ARTE-TERAPIA”


A compreensão que o terapeuta ou grupo terapêutico busca não pode ser apenas deduzida logicamente de uma teoria que ele já tenha pronta, em sua cabeça. Tais teorias psicológicas ajudam, mas não se constituem no núcleo de processo de compressão. É necessário que o psicoterapeuta ou grupo psicoterapêutico procure também sentir como o indivíduo se sente. Compreender, aqui, não é meramente uma atividade intelectual, lógica. É um processo que envolve a inserção do terapeuta, na relação, como um ser humano pleno. Laing, (1960), apud Duarte Junior (1983).

Portanto, seguindo a fala do autor, o terapeuta tem que estar atento ao paciente e ter um olhar diferenciado, uma visão holística de sua atuação e perceber também o ambiente. Mesmo porque o indivíduo portador de transtorno mental encontra-se tolhido frente ao outro, e em todo seu convívio social e familiar.

Jung em 1920 começa a utilizar a expressão artística como coadjuvante no tratamento psicoterápico favorecendo o contato terapeuta cliente. Estimulava seus pacientes a pintarem livremente, a partir de imagens de seus sonhos e de suas fantasias como inspiração. Gradativamente, seus pacientes desenvolviam a leitura de seus próprios trabalhos e os possíveis significados simbólicos de suas obras. Jung vê o homem como um ser essencialmente social e a psique humana não podendo existir sem uma cultura de origem, em que a individualidade vai se processar por diferenciação deste contexto maior (CARVALHO, 1995).

Uma figura que se destacou no Brasil, no que se refere ao trabalho de arteterapia no hospital psiquiátrico, foi Dra. Nise da Silveira, que é considerada a introdutora do estudo sistemático da psicologia analítica no Brasil, sendo responsável pela formação do Grupo de Estudos C.G. Jung, de que foi presidente desde 1968. Foi Jung (1962-63) que através de pesquisas, chegou ao conceito de Inconsciente Coletivo, que ultrapassa as fronteiras do Inconsciente Pessoal. O Inconsciente Coletivo possui camadas profundas com heranças comuns a toda a humanidade. Ele tem como elementos estruturais os arquétipos Tommasi (2008).

No ano de 1952, Dra. Nise reuniu os trabalhos dos pacientes e criou o Museu de Imagens do Inconsciente, na cidade do Rio de Janeiro, considerado atualmente um acervo de imenso (são milhares de obras), repleto dessas imagens e também de imagens que representam a visão do pintor do mundo externo, sua percepção do mundo, além de vivências subjetivas na relação com o espaço e com o outro (TOMMASI, 2008, p. 7).
“É na linguagem não verbal que são estimuladas pelas mais variadas atividades como o desenho, o pintar e outros, que o paciente consegue manifestar-se e se expressar-se, melhorando a qualidade da sua relação com o mundo” (SILVEIRA, 1992).

A arte terapia dinamicamente orientada baseia-se no reconhecimento de que os pensamentos e sentimentos fundamentais do homem derivam do inconsciente e frequentemente exprime-se melhor em imagens do que em palavras. As técnicas da arte-terapia baseiam-se no conhecimento de que todo indivíduo, tenha ou não treinamento em arte, possui capacidade latente para projetar seus conflitos internos sob formas visual (SILVEIRA, 1992).
A arterapia, como descreve a autora, não se baseia como principal fonte o cognitivo e sim se constitui através das emoções e sentimentos que estão contidos em toda sua esfera. O trabalho em arte-terapia pode ser desenvolvido individualmente ou em grupo. Sua essência consiste em estimular e auxiliar seu paciente e/ou grupo a utilizar técnicas expressivas, que podem ser verbais ou não-verbais, por intermédio do corpo.

O objetivo é o de expressar-se espontaneamente sentimentos, emoções e atitudes que possam ser liberadas e trabalhadas. O objetivo de um terapeuta não é o da produção de obras de arte e nem o de transformar seus pacientes em um artista, porém, sabe-se que algumas pessoas descobriram-se artistas por intermédio desse processo (TOMMASI, 2008).

No momento em que o paciente está envolvido em uma atividade, não se está se desenvolvendo de maneira aleatória. A autora leva-nos a perceber que o artista interno começa a fluir impelindo o sujeito a se descobrir através da arte.

Segundo Silveira, (1992) que diz:
A imagem não é simples cópia psíquica de objetivos externos, mas uma representação imediata, produto da função imaginativa do inconsciente, que se manifesta de maneira súbita, mas sem possuir necessariamente caráter patológico, desde que o indivíduo a distinga no real sensorial, percebendo-a como imagens internas. Na qualidade de experiência psíquica, a imagem interna será mesmo, em muitos casos, mais importante que as imagens das coisas externas. Acentuemos que a imagem interna não é um simples conglomerado de conteúdos do inconsciente. Constitui uma unidade e contém um sentido particular: expressão da situação do consciente e do inconsciente, constelada por experiências vividas pelo indivíduo. (SILVEIRA, 1992 apud TOMMASI, 2008).
 Dr. Nise da Silveira olhava para aqueles pacientes de forma diferente da psiquiatria tradicional. Valorizava o contato afetivo, pois eram pessoas que estavam sofrendo muito, já que tinham rompido o seu contato com a realidade e “mergulhavam”, sem nenhuma proteção, no inconsciente. Por meio do acolhimento e do respeito, procurava possibilitar o caminho de volta para a realidade e para a recuperação da autonomia perdida (TOMMASI, 2008).


Vista desse prisma a arteterapia em grupos tem a finalidade de promover a representação psíquica e simbólica do paciente. Tem como presuposto básico a expressão verbal, onde os pacientes são convidados e estimulados a escreverem o que estão sentindo e pensando.

Nossa atenção especial segue a um grupo terapêutico de um hospital psiquiátrico situado no interior do Estado de São Paulo, onde se desenvolve um projeto cuja proposta principal é que o interno possa também expressar livremente suas angústias e vivências, e ao mesmo tempo ser estimulada à escrita e à capacidade de exercer a autonomia por meio de atividades expressivas específicas.

Para Cociuffo (2007) a arte como proposta de terapia tem uma função extremamente importante e essencial para o desenvolvimento humano. Ali se integram elementos conflitantes tais como: impulso-controle, amor-acolhimento e em contrapartida, ódio-agressividade, sentimento-pensamento, fantasia-realidade, consciente-inconsciente, verbal, pré-verbal e não-verbal.

“Em diversas teorias reconhece-se a arte-terapia, como função integrante, revelando um poder de unir forças oponentes dentro da Personalidade. Favorecendo, porém, as reconciliações e necessidades que o indivíduo apresenta sobre as demandas do mundo exterior” (CARVALHO, 1995, p. 68).

Fazer arte gera autoestima, encoraja a experimentação, desperta novas habilidades, o que, por si só, já seria terapêutico. Além disso, o processo criativo conduz ao desenvolvimento dos potenciais e flexibilidades, além de oferecer oportunidades para o crescimento e mudança de forma agradável. Assim sendo o processo criativo favorece a saúde psicológica, física e espiritual (MALCHIADI, 1998 apud BILBAO, 2004, p. 63).
Partindo das premissas citadas acima, entendemos que o ser humano vive em constante movimento, em seus pensamentos, ações e sentimentos. E sente a necessidade de estar em contato com objetos externos para poder se organizar internamente.

Segundo o autor discorre em seu trabalho sobre a visão do valor terapêutico que a arte pode produzir por si só. Dizendo que a arte-terapia é o ponto de encontro, vivenciado pelo ser humano, dos mundos internos e externos. E nessa junção arte e terapia, uma potencializa a outra, revelando como objetivo primordial da utilização da atividade expressiva, o favorecimento do processo terapêutico Carvalho (1995).

Visto que o trabalho com a arte-terapia apresenta um significado importante no processo terapêutico, cabe ao profissional da saúde, mais precisamente o terapeuta, estar atento a uma escuta diferenciada. E a presença constante do olhar de compreensão, junto a atitude de acolhimento numa espontaneidade para com o paciente, permitem fazer a diferença em meio ao tratamento terapêutico.
Nesse sentido, a autora nos remete a uma relevante percepção, ao dizer que a arte terapia representa o ponto de encontro vivenciado pelo ser humano em seu contexto interno e externo.

O paciente é levado pelo terapeuta a se soltar da maneira mais espontânea possível, rabiscando, colorindo, desenhando, esculpindo, dançando, o que e como quiser. Será por estas atividades que o paciente poderá expressar seus sentimentos, pensamento, emoções, atitudes, descobrindo aspectos seus que antes não estavam claros, reconhecendo-se no que sai de si (CARVALHO, 1995, p. 24).
Dentre as atividades descritas nos grupos terapêuticos propostos pela autora, faz se necessário ressaltarmos também o uso da escrita como elemento fundamental na elaboração interna e externa do paciente, como ocorre no grupo “Conta Outra”, que vem desenvolvendo um trabalho acolhedor com os pacientes que se integram no grupo.

DINÂMICA DO GRUPO ARTE-TERAPIA:

Inicialmente é distribuída uma folha sulfite em uma prancheta para cada paciente, sendo uma média de cinco a dez pacientes por grupo, e são convidados a utilizar o espaço escrevendo, pintando ou desejando algo que estejam pensando ou sentindo, dando preferência a sentimentos e pensamentos positivos, evitando falar de doenças, tragédias, ainda que seja possível falar disso também.

Quando terminam, cada um compartilha o que desenvolveu e o grupo comenta o que quiser sobre o que foi feito, estimulando o olhar do outro sobre si, ou seja, relacionamento intra e interpessoal. A interatividade entre cada membro do grupo é muito dinâmico, embora, em algumas vezes seja dificultoso desenvolver total dinâmica, pois o grupo caminha de acordo com as relações que ocorre nele, proposto pelos próprios participantes. A ideia inicial, bem como todos os outros grupos proposto pelo Hospital Psiquiátrico, é desenvolver a capacidade de autonomia do indivíduo participante, para que, mesmo em suas limitações, possam ter contato com a realidade deles e do grupo.

Em breve, será publicado no blog um caso-fictício, com algumas observações no estágio em saúde. Espero que essas reflexões aqui narradas, sejam de grande valia para (re)pensar nossas experiências com nós e com o Outro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


CARVALHO, Maria Margarida M. J. A arte cura? Campinas: PSY II, 1995.

COCIUFFO, Tânia. Encontro marcado com a loucura. 2. ed. São Paulo: LUC, 2007.

DESCARTES, Rene. As paixões da alma. Rio de Janeiro, Lafonte, 2012.

DUARTE JUNIOR, João Francisco. A política da loucura. Campinas: Papirus, 1983.

FOUCAULT, Michel. História da loucura. 9. ed. São Paulo: Pesrpectiva, 2010.

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FRAYZE-PEREIRA, João. O que é loucura? São Paulo: Brasiliense, 2006.

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FREUD, Sigmund. Uma neurose infantil e outro trabalho. (coleção). Rio de Janeiro: Imago, 226, v. XVII.

______; GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. 23. ed. Rio de Janeiro: Zahar. 2006.

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LAING, Ronald David. O eu dividido. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1975.

LAINGA, Ronal David. A política da família. Guarulhos: Martins Fontes, 1971.

TOMMASI, S. M. B. A arteterapia e Loucura. São Paulo: Vetor, 2008.

CHENINUX JUNIOR, Elie, 1965-. Manual de psicopatologia / Elie Cheniaux. – 4.ed. – [Reimpr.]. – Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. il.

American PsuchiatricAssociation. DSM-IV: manual de diagnóstico e estatística de transtornos mentais. 4.ed. Porto Alegre: Artes Médicas; 1995.

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ZANON, Lucia Helena. Reflexões de pacientes psiquiátricos. São José do Rio Preto: TCC; 2012.