quinta-feira, 3 de agosto de 2017

CAMINHOS E PERCALÇOS DO CORPO: SUJEITO DO DESEJO EM MOVIMENTO

Dance II - Henri Matisse - 1910

A técnica e a expressividade são questões muito intrínsecas aos debates em dança. Embora exista ainda a tendência em considerar a dança um movimento direto e espontâneo de manifestação das emoções no intenso e árduo da elaboração/criação para aproximar-se à expressão de sentimentos e afetos pela dança.

Nesse processo de elaboração dos movimentos, equivale ao despertar para realidade, para encontrar uma forma de transformar a angústia imobilizadora em criativa; a rigidez em flexibilidade; a moral da necessidade em ética do desejo, através do movimento do corpo em dança.

A pulsão de vida e de morte estão intrínsecas nesse processo de elaboração do suposto corpo que se enxerga antes, durante e após a dança. Freud (1906-1909) descreve que tanto a arte e a literatura moderna se ocupam predominantemente dos mais delicados problemas, que envolvem todas as paixões, que encorajam a sensualidade e a ânsia do prazer, o desprezo de todos os princípios éticos e todos os ideais. Elas apresentam ao espírito do leitor figuras patológicas, problemas psicopático-sexuais, revolucionários e outros mais, nossos ouvidos são estimulados e superexcitados por uma música ministrada em grandes doses, importuna e ruidosa. 

A arte é uma possibilidade de expor o que somos de forma menos caótica ao outro. Através da sublimação¹ o sujeito pode pela dança canalizar seus instintos à margem do padrão social, para um movimento que traz uma linguagem que transmite uma reflexão para quem está observando, faminto por algo que capture todos seus sentidos, excitando e desnudando à alma.

O lugar que o texto propõe sustentar é a questão psíquica da imagem corporal no autoconhecimento pelo corpo, que é submetida à transformação/elaboração do não-dito, que se expressa pela associação livre da palavra e do não-corpo, que se inscreve, escreve e descreve em sua temporalidade e no espaço através de movimentos muitas vezes sutis à distração.

Recorrer à psicanálise é importante para investigação de passagens que não minimizem a condição fundante da imagem que se tem de si mesmo e refletir a respeito de um corpo diante à dualidade em que está submetido: o espelho matéria e espelho do olhar do outro, que demarca uma limitação real do corpo-movimento que se vê e é visto. 
“Sem ter como se esconder frente ao imperativo dos movimentos corporais escancarados no campo de visão de quem dança e de quem ensina dança, o corpo não consegue trapacear, ele é seu início e próprio limite”, Braga (2014). 

Deste modo, este texto busca refletir a linguagem do corpo não-dito ao corpo que se diz em dança sob à luz do olhar psicanalítico, um movimento de estranhamento sobre esse corpo que se constrói, descontrói e ressignificar na trama cotidiana das relações com o outro, na tentativa sustentar a ética do seu desejo.

A linguagem tornar-se-á espaço para reflexão sobre o corpo como uma possibilidade de sublimação dos instintos humano, para produção do fazer artístico em dança, que aborda a expressão da imagem do corpo na dança a partir de uma leitura psicanalítica, ao considerar que os corpos se lançam em movimentos por não poderem se dizer única e suficientemente em palavras, desenhando, assim, trajetória no espaço. 

No terreno da arte e da vida, em que há muito para falar, mas, muitas vezes, não existem vocábulos que possam sustentar o que o corpo deseja exprimir, a dança apresenta-se como alternativa para expurgar pela via da expressão, conhecimento e reconhecimento de si próprio e do outro. O que traz movimento ao corpo que dança e ao sujeito que se escreve, inscreve e descreve em sua temporalidade e no espaço?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREUD, Sigmund (1906-1909). Obras completas, vol. 8: O delírio e os sonhos na Gradiva, Análise da fobia de um garoto de cinco anos e outros textos; trad. Paulo César de Souza – 1 ed. – São Paulo.
BRAGA, Cristina Santaella (2014). Psicanálise, Dança e Educação: Caminhos e percalços.
VIJARVA, Maicon (2017).  A Nova Dinâmica do Eterno: Sujeito do Real ao Virtual (Clique aqui).
FORBES, Jorge. Artigo publicado na Revista Psique - número 51, março 2010 Link direto do site do autor: (Clique aqui).
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¹ Sublimação: processo em que a energia ou impulso sexual (libido) é direcionada para atividades com valor social aceitável.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A NOVA DINÂMICA DO ETERNO: SUJEITO DO REAL AO VIRTUAL


A expansão da capacidade mental do sujeito é povoada de desconfortos, que está intimamente ligada aos vínculos de amor e ódio com o outro, seja familiar ou social. O processo dinâmico de conhecer a si próprio e se autorizar a mudar de posição subjetiva para produzir uma nova visão expansiva estão subordinados à capacidade de tolerar frustrações frente ao que se planejou para vida.

Esse furo que a frustração submete o sujeito do real ganha um estranhamento individual na nova dinâmica do virtual: o desejo de sustar sua existência na eternidade. Na incapacidade de o sujeito lidar com a falta nasce o estilo hikikomori, nova maneira de vida que tem ganhado inúmeros simpatizantes na pós-modernidade.

A terminologia de origem japonesa desenha certo comportamento de extremo isolamento doméstico por pessoas geralmente jovens, que optam por se excluir da cena social, de modo a evitar ao máximo o contato físico com o próximo.

A busca por tornar-se a si mesmo, ou seja, chegar ao mais próximo possível do nosso íntimo, passa a ser obsoleta. Inicia-se o laço virtual terminável e interminável com o real, o sujeito se contrai e se constrói em si mesmo e com isso é incapaz de perceber a sua degradação e, consequentemente, a do Outro.

A tarefa de aprender a tolerar os desconfortos e o que há de mais doloroso na vida se faz impossível com os hábitos hikikomori, que proporciona ao sujeito uma patologia semiótica de se colocar no lugar de eterno no mundo através da ópt. virtual, que não deixa de estar em constante comunicação com o real, porém corroendo o mínimo possível de esperança de ligamento afetivo de 1+1.

Pelo caminho da escrita, o axioma até aqui nos permite pensar as inovações de se colocar no mundo frente às novas ferramentas que autoriza o sujeito a se pôr num outro lugar que o permeia na finitude da relação de si mesmo +1. Frente a esse contexto o sujeito de ontem, por viver em uma órbita padrão, sabia onde aspirava chegar, guiado por seu questionamento sobre o que lhe acorrentava a sua vida, ao projetar luz em seu passado.  

Quando “inicia-se uma nova configuração do laço social: a globalização privilegia a horizontalidade sobre a verticalidade constituindo uma sociedade de rede, muito distinta da piramidal da qual nos afastamos no decorrer da construção do corpo do sujeito na história (Forbes, 2010).

O que reafirma que o sujeito atual, mais que do passado está interessado em saber além do mesmo, está velado em seu futuro. Saber como escrever e sustentar sua honra na imensidão do eterno. A pergunta que hoje o sujeito faz a si mesmo não é mais “o que impede de chegar a um objetivo, pois o problema, quando se quebram os padrões, é saber qual é o seu objetivo entre as inúmeras possibilidades, fato que traz o furo do estranhamento da angústia” (Forbes, 2010).

O real no virtual hipoteticamente esteja no defrontar com a impossibilidade de tudo saber ante ao qual só sobra a possibilidade de inventar uma solução e assumir o risco do seu desejo, em que o sujeito precisará descobrir uma forma de transformar a rigidez em flexibilidade; a angústia que o imobiliza em criatividade; a moral da necessidade em ética do desejo.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- FORBES, Jorge. Artigo publicado na Revista Psique - número 51, março 2010 Link direto do site do autor: (http://www.jorgeforbes.com.br/br/artigos/Voce-esta-em-analise.html).

quarta-feira, 26 de abril de 2017

SOBRE PULSÃO SEXUAL E VIDA SOCIAL


A pulsão sexual foi a primeira subversão freudiana, citada no artigo MORAL SEXUAL ‘CIVILIZADA’ E DOENÇA NERVOSA MODERNA (1908). Nele, Freud utiliza-se de um elemento fundamental, abordado em sua obra anterior, TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE (1905), para sustentar a distinção conceitual entre instinto e pulsão. Segundo Coutinho (2013), “trata-se da falta de conexão unívoca, na sexualidade humana, entre a pulsão e a atividade reprodutora, que constitui a dimensão essencialmente autoerótica da pulsão”.

O que podemos confirmar em Freud (1908): “perspectivas mais amplas se abrem quando consideramos o fato de que a pulsão sexual do ser humano não está em sua origem a serviço da reprodução, mas sim que tem como meta determinadas variedades de obtenção de prazer”. A realidade contemporânea revela uma sociedade que está vivendo uma época de repressão da pulsão sexual, em que o sujeito sente culpa em investir sua energia sexual em algo que fuja do ideal social, do consumo desorientado.

Ao reprimir o desejo ligado ao cunho sexual – pensemos aqui para além do prazer centrado na área genital –, citado por Freud (1905) em TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE, que descreve o movimento do sujeito para se vincular ao outro se estrutura a partir da pulsão sexual, numa tentativa de desenvolver sua subjetividade em conjunto de +1, ou seja, entre o sujeito e o outro.
Em sua reflexão da teoria da sexualidade, o pai da psicanálise instaura um corte conceitual, nomeado de pulsão, sendo uma concepção dualística de vida e de morte, que sustenta um mecanismo de movimento do sujeito, inato a sua existência. Freud (1920) descreve as pulsões sexuais de forma simples e com uma amplitude atemporal:

As pulsões de vida [leia-se: pulsões sexuais] têm muito mais contato com nossa percepção interna, surgem rompendo a paz e constantemente produzindo tensões cujo alívio é sentido como prazer, ao passo que as pulsões de morte parecem efetuar seu trabalho discretamente. O princípio de prazer parece, na realidade, servir às pulsões de morte (Freud, 1920).

O conceito freudiano nos leva à expansão de que sob o domínio da moral sexual cultural, a saúde e a capacidade vital do indivíduo seriam fragilizadas, e que seus ultrajes, causados pelos constantes sacrifícios a eles impostos, alcançariam um nível tão elevado que comprometeriam todo objetivo cultural final contemporâneo.

Sob esta perspectiva podemos perceber um crescente nervosismo moderno, fruto do desequilíbrio da relação entre a pulsão de vida e de morte, sobre o qual Freud já nos alertava em sua época, e agora, em passo acelerado, torna-se metástase na sociedade contemporânea. Tal circunstância faz antagonismo entre constituição e exigência cultural, causa dos sintomas do sujeito moderno.

A forte oposição de ideias constitui uma estrutura familiar em que todos os membros são doentes dos nervos, a velar o idealismo de ser mais do que podem ser pela sua origem. O desejo de ser robusto ao olhar do outro faz com que o indivíduo patriarca da família cobre dos seus filhos elevar-se a um alto nível cultural. Os desejos recalcados dos pais trazem à consciência a esperança de se realizarem através dos filhos.

Assim, a moderna vida civilizada causa de modo desenfreado uma ansiedade crescente. As exigências feitas à capacidade de luta pela sobrevivência aumentaram sensivelmente, utilizando as duas forças intelectuais, exclusivamente para sustentar essa existência: pulsão de vida, pulsão de morte.

Freud (1906-1909) complementa:

Ao mesmo tempo, as necessidades do indivíduo, as exigências de fruição da vida cresceram em todos os círculos, um luxo inaudito disseminou-se em camadas da população que antes o desconheciam; a ausência da religião, a insatisfação e a cobiça aumentaram em amplos círculos do povo; graças a comunicações, que atingiram crescimento incomensurável, graças às redes de fio do telégrafo e do telefone, que envolvem o mundo, as condições do comercio mudaram inteiramente: tudo se faz com pressa e agitação, a noite é utilizada para viajar, o dia, para os negócios, até mesmo as ‘viagens de lazer’ tornaram-se fadigantes para o sistema nervoso; grandes crises políticas, industriais e financeiras levam sua agitação a esferas da população bem mais amplas; tornou-se generalizada a participação na vida política: lutas políticas, religiosas e sociais, as lidas partidárias, as campanhas eleitorais, o desmesurado aumento das associações inflamam as mentes e obrigam os espíritos a envidar esforços sempre novos; a vida das grandes cidades tornou-se cada fez mais inquieta e refinada.

As investidas esquizofrênicas da sociedade são inúmeras, e levam os nervos exaustos em busca de recuperação em estímulos exacerbados, em prazeres bastante condimentados, entediando e estagnando o sujeito cada vez mais.

Freud (1906-1909) descreve ainda que as pulsões de vida e de morte estão tão intrínsecas no sujeito que o delírio se torna o seu mundo paralelo de refúgio. Tanto que a arte e a literatura moderna se ocupam predominantemente dos mais delicados problemas, que envolvem todas as paixões, que encorajam a sensualidade e a ânsia do prazer, o desprezo de todos os princípios éticos e todos os ideais. Elas apresentam ao espírito do leitor figuras patológicas, problemas psicopático-sexuais, revolucionários e outros mais, nossos ouvidos são estimulados e superexcitados por uma música ministrada em grandes doses, importuna e ruidosa.

A psicanálise faz alusão a uma série de perigos em nossa evolução cultural, e é possível expandir sempre mais a reflexão sobre ela a partir dos conceitos freudianos. São facilmente perceptíveis as estreitas relações que a doença nervosa tem com a vida moderna, como a desenfreada busca por dinheiro e posses e os tremendos progressos na área técnica, que tornaram ilusórios todos os empecilhos temporais e especiais às comunicações.

O modo de vida de inúmeras pessoas “civilizadas” apresenta, na contemporaneidade, uma quantidade de hábitos anti-higiênicos à alma. Tais hábitos fazem com que o sujeito se prive na intensidade dos seus sentimentos e, em alguns casos, perca a sensibilidade e a identificação do símbolo de cada sentimento. A doença dos nervos oferece um desequilíbrio do sujeito, em que os valores perdem o significado, confirma-se o desmerecimento com o próximo, a generosidade a cada dia vai se extinguindo diante do vazio.

Para que o sujeito possa reconhecer alguns sentimentos é imprescindível que seja tocado por emoções que o levem ao corte entre a rigidez externa e interna, para que possa revelar a sua causa, sintomas. São nos momentos mais miseráveis que o sujeito reaprende a valorizar, respeitar e sentir compaixão por si mesmo e pelo outro.

As reflexões aqui são um ensaio de expansão do pensamento, não um saber absoluto. O intuito é transmitir um efeito/causa que desperte o corpo para o movimento do pensar o que não está em harmonia, interna e externa, do sujeito contemporâneo.


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O RECONHECER E A CLÍNICA PSICANALÍTICA

Em busca de viver novas experiências com o objeto desejado, o reconhecer torna-se uma tarefa árdua, por trazer à reflexão de que nada se sabe daquele objeto de ontem, que hoje já não é mais o mesmo e será outro no amanhã. Deste modo, a convivência com o objeto desejado, não garante ao sujeito saber sobre ele. Assim, a capacidade de tolerar a frustração passa a ser indispensável, para que o sujeito possa reconhecer que nada se sabe do objeto que se deseja, o que não impede de amá-lo e continuar desejando.

A capacidade de se aproximar todos os dias, de forma diferente, pelo mesmo objeto que se deseja, faz conexão com a função do desejo de contribuir para o movimento do sujeito em busca de viver novas experiências com o Outro. O papel desempenhado pela intensidade do gozo depende da disposição do sujeito em desejar. Não se pensa aqui o desejo direcionado, mas o desejo que tem como proposito o movimento.

Enquanto o desejo for fonte de movimento do sujeito, dará ferramentas para transformar o desejo em sua vida, impulsionando-o na busca de viver novas experiências no contato com o Outro, com o mundo externo.

A frustração, deste modo, é essencial nessa tarefa árdua e fantástica que envolve o sentir e o pensar. As experiências sucedidas só se sustentam por meio da memória, essa última é seletiva e traiçoeira em potencial, invalidando assim sua fidedignidade com a realidade dos fatos, por se fundir ao conteúdo impensado da mente.

Na perspectiva de Wilfred R. Bion (1967), a capacidade negativa é condição fundamental na tarefa do recolhimento de si mesmo no desenvolvimento saudável da mente, que possibilita ao indivíduo se ligar ao outro através do sentir, visto que na clínica psicanalítica será impossível ser por outro meio. 

De acordo com o autor, o reconhecer da dupla analítica, no setting terapêutico, muitas vezes pode não se configurar numa mudança catastrófica, que é essencial para o ato analítico. A mudança nomeada catastrófica é nada menos que a passagem de K (saber) para O (realidade última), em que a partir do reconhecimento do vínculo de 1+1 tenta construir ao iniciar a análise.

Não podemos deixar de esclarecer que a psicanálise está para todos, mas nem todos estão para psicanálise. Por demandar uma energia interna do sujeito, e a resistência inconsciente muitas vezes interrompe o processo analítico por apresentar certo desconforto à frustração. Uma vez expandida à psique humana, não há possibilidades de volta.

É aqui que entramos na perspectiva de que o sujeito terá que lidar com o desconforto que a dor traz e encontrar meios de transformar esse sintoma em uma causa que movimenta o desejo pela existência, vida. 

Mas é importante salientar que o processo para que o sujeito encontre esse “meio” é através do ambiente suficientemente bom que o analista oferece à ele, visto que a verdade sem amor é crueldade, o que impossibilita a expansão da mente do analisando, na tentativa de continuar caminhando e transformando seus sintomas em causa que leve-o ao conhecer-se a si mesmo. 

Portanto, o reconhecimento em análise é essencial na tarefa de expansão da mente, de possibilidade do sujeito transformar suas questões interna com amor e respeito ao seu sofrer.

Maicon Vijarva – Psicoterapeuta Psicanálise
17 98151-6943
maiconvijarva@yahoo,com.br
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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A MARCA DA MÃE: O DESAMPARO E O AMOR SEQUESTRADO


A trajetória de nós seres humanos, não é simplificada, justamente por oferecer um caminho de infinitas possibilidades, com conservas culturais e zonas de conforto idealizadas pela própria sociedade, que ofusca à visão do indivíduo frente a si mesmo, no enfrentamento de suas próprias adversidades.
Metaforicamente, o desamparo é um amor sequestrado, que leva o indivíduo às angústias vinculadas à perda do seio materno, que faz alusão ao luto, numa textura de cor escura, preta como a depressão grave e branco como os estados de vazio. O que conduz a refletir a respeito, que o desmame precisa ser contemporâneo à apreensão da figura materna quanto objeto total e implica que o processo de desligamento do cordão umbilical simbólico, entre a criança e a figura materna tenha se realizado de forma saudável.
A separação saudável deve dar lugar à criação de uma mediação para paliar os efeitos traumáticos da ausência e elaborar a integração no interior do ego da criança. Essa mediação constitui subjetivamente o quadro materno como estrutura enquadrante, em outras palavras, a imaginação da criança simboliza a figura materna internamente, possibilitando lidar com o mundo externo.
 A partir dessa agudeza, quando o processo de rompimento, que deveria ocorrer naturalmente no tempo em que a criança se sentisse suficientemente acolhida, segura e confiante para buscar novos objetos de interesse, torna-se uma passagem incompreensível e traumática, levando à criança a eliminar a figura materna que estava em processo de simbolização, introjetando uma mãe morta à sua vida psíquica.
Na perspectiva de Green (1988), o afastamento e falta de interesse materno, surge uma perda de sentido que regerá a criança a assumir medidas drásticas, como desenvolver indiferença ante o mundo externo e identificação inconsciente com a mãe melancólica, desenergizada. A estrutura do complexo de mãe morta nos revela uma característica do funcionamento psíquico, quando o retrato interno que estrutura o narcisismo – partindo da gradativa separação materna – não se manifesta, pela ausência da mãe, a vida psíquica se transforma em uma lacuna, vazio impreenchível.
O que fortalece a reflexão de que a ausência de composição de um pano de fundo que suporte as representações e simbolizações abandona a criança à mercê de um mundo constituído de objetos internos peculiares e sem vida que não podem se vincular entre si e preencher o seu mundo afetivo. Nas palavras de Simon (1933, p.73):
“Conforme mudam as relações do objeto, mudam os conteúdos da angústia e mudam os mecanismos de defesa. É claro que, entre todas as condições, é a capacidade do ego de tolerar angústia que vai determinar sua possibilidade de estabelecer relações com o objeto total” (SIMON, 1933, p.73).

Diante dessas premissas, percebe-se que desde o nascimento até o segundo terço do primeiro ano de vida, a libido (interesse) da criança se concentra quase que exclusivamente na figura materna. No entanto, as consequências da ausência do vínculo da figura paterna são tão mais graves quanto à ausência da figura materna.
Das contribuições de Martino (2012, p. 66):
A presença do pai, a princípio, se faz importante enquanto ideia no interno da figura materna, entretanto essa experiência simbólica carece do encontro com o “outro real”. Não se pode criar uma imagem interna sem um representante no mundo externo (MARTINO, 2012, p. 66).

Na clínica, o indivíduo poderá reviver esse complexo de mãe morta, na tentativa de reorganizar o seu mundo interno. Para isso, é importante que o analista seja continente, vivo e atento à dor interna que o paciente traz. Entende-se que um analista morto que não é capaz de ser continente também não será capaz de receber conteúdo algum trazido pelo analisando. Acolher o conteúdo coincide com receber a demanda do que no real compete ser ensinado, para levar a idealização fragilizada com a mãe morta, para uma compreensão simbólica de uma mãe que, dentro da sua capacidade, pode proporcionar certa afetividade, por mínimo que tenha sido (MARTINO, 2011).
A psicanálise, norteadora da reflexão até nesta ocasião, não oferece uma resposta finda, mas encoraja o pensar, que é primordial, para que o analista não se torne um analista morto: “por mais tentado que possa se sentir o analista a se tornar o educador, o modelo e o ideal de seus pacientes, qualquer que seja o desejo que tenha de moldá-los à sua imagem, ele precisa lembrar-se de que esse não é o objetivo que procura atingir na análise e até de que fracassará em sua tarefa entregando-se a essa tendência” (ZIMERMAN, 2004, p.86).
Por mais que as técnicas e métodos de intervenção sejam eficazes, nada pode sobrepujar o contato de uma alma humana com outra alma humana (JUNG, 1961-1975). O que nos revela que não basta dominar as técnicas se não existir a “presença sensível” do terapeuta: estar atento ao que acontece nas sessões e corroborar com o cuidado para que a genealogia criativa de cada paciente se estenda. O que a psicanálise se propõe em análise é privilegiar a singularidade de cada analisando e o pundonor de seu sofrimento.
Torna-se propício volver ao conceito de Klein (1957-1974) a respeito de a importância da presença e, consequentemente, a ausência da mãe na primeira infância. O instante em que a criança deve esperar pela saciedade da fome, pelo “estar acolá” da figura materna e todo o ambiente proporcionado por ela.
Está ausência é o tempo saudável, imprescindível, ecúmeno, e que se fará necessário na configuração analítica. Não se discursa acolá o desamparo, mas as ocasiões adequadas para que o analisando reflita a partir desta ausência. Relembrando ou construindo experiências em que logo, empós certo tempo, possa sentir (recordar) os cuidados da análise e, por fim, simbolizar todo processo analítico.
Simbolizar é remeter-se ao real na ausência deste (KLEIN, 1967-1970). Constitui-se “daquilo que permite estar ligado ao ausente” (MARTINO, 2012, p. 43). Só podemos simbolizar quando estamos suficientemente protegidos, confiantes de que o real volverá para nos acolher. Winnicott (1979-2007, p. 34) acrescenta que “a capacidade de ficar só depende da existência de um objeto bom na realidade psíquica do indivíduo”, caso esse indivíduo tenha identificado com a mãe morta, poderá, na análise, reorganizar esse objeto, dando um novo sentido ao enfrentá-lo e observar com o olhar de reconhecimento.
A perspectiva traz à baila a figura paterna, que se estiver presente e quiser conhecer o próprio filho, esta é, certamente, uma criança de sorte e nas circunstâncias mais felizes o pai enriquece, de maneira abundante, o mundo do próprio filho.
Desta maneira, completamos com Winnicott (1957/[1979], p.130): “quando o pai e a mãe aceitam facilmente a responsabilidade pela existência da criança, o cenário fica montado para um bom lar”.
Este vínculo de afeto, onde afeta e se é afetado pelo outro, pode auxiliar o indivíduo em seu trajeto, no trato de si mesmo. Em concordância de que uma das coisas que a figura paterna suficientemente boa faz pelos filhos é estar vivo e continuar vivo durante os primeiros anos das crianças. O valor desse simples ato é suscetível de ser esquecido. Mas que serão forças pulsantes para que o indivíduo transforme de dependente a um ser independente, capaz de se relacionar consigo mesmo e com o outro.
Embora seja natural que os filhos idealizem seus pais, é também muito valioso, para os primeiros anos, ter a experiência de conviver com eles e de conhecê-los como seres humanos, até o ponto de os descobrirem.
Como percebemos, a criança traz angústia das quais, a mãe, mesmo abalada pela situação, deve velá-lo. O pai suficientemente bom, por sua vez, sente e participa da mesma dor, que inunda esse complexo processo, tentando elaborar os sentimentos invejosos gerados pela atenção da companheira, que se desloca dele para criança.
O indivíduo quando desinvestido motiva uma ferida interna, um buraco afetivo na relação com a figura materna e se repetirá, posteriormente, na incapacidade do sujeito de estabelecer e sustentar vínculos afetivos satisfatórios. Mas a psicanálise traz a possibilidade de repensar esse vínculo, dando possibilidade de pensá-lo e reorganizá-lo junto com o analista, para que o analisando possa energizar sua alma e reconhecer as novas formas de viver com essa dor interna.
Assim para que uma mãe não se torne uma mãe morta, será necessário que a figura paterna se faça um ambiente suficientemente bom, vivo, amando e confortando todos os medos e frustrações da mãe no cuidado com o bebê. Só assim, poderá se fazer um lar adequado para que a criança desenvolva toda sua potencialidade, tornando um adulto com um inconsciente mais próximo a realização.
A psicanálise propõe trazer à consciência aquilo que reprimimos, ou seja, tudo aquilo que nos traz incômodo e desprazeres (FREUD, 1917-1920/2010). Mas não se trata de masoquismo, e sim de uma maturidade emocional necessária à elaboração dos conflitos mais íntimos de nosso ser.
 É preciso capacidade e coragem de sofrer e entristecer-se para pôr fim transformar conteúdos vazios de significado em conteúdos que nos ajudem a suportar a falta de nossa satisfação, uma vez que, nem sempre nossos desejos serão realizados.
Por um caminho de amor, pelo afeto, cuidado e sensibilidade à vida, podemos amadurecer de forma segura, ainda que com angústias, a título de encontrarmos quem verdadeiramente constituímos e aprendermos a valorizar e reconhecer nossa subjetividade.